Jorge Alberto Bueno de Oliveira, “Vovô”: “O Mercado é minha segunda casa”

Nascido em 1940, em julho ele completa 71 anos – boa parte deles vivida na noite de Porto Alegre e no Mercado Público. Um dos mais conhecidos garçons do Mercado, Jorge Alberto Bueno de Oliveira, o Vovô, como é mais conhecido, teve idas e vindas no Mercado. No Gambrinus está desde 1966, ao lado de Zezinho, outro conhecido garçom, com 40 anos de casa. Foi levado para o restaurante por Antonio de Melo, o falecido dono, de quem se considerava um irmão. “Nunca foi patrão, era um amigo”. Tranqüilo e bonachão diz que não teve e não tem inimigos. “Se tiver quero que apareça”, brinca. Com muita alegria e energia ele conversou com a reportagem do Jornal do Mercado para este breve perfil.

 

Foto: Fabrício Scalco

Ele faz questão de assinar Jorge Vovô Alberto Bueno de Oliveira, porque há muito tempo já incorporou o apelido pelo qual é carinhosamente chamado, no nome. “Moro no Morro Santana há 40 anos e se alguém perguntar pelo meu nome lá, ninguém sabe. Se chamar “Vovô” todo mundo sabe quem é. O velho guerreiro porém, não começou a trabalhar direto no Gambrinus. Primeiro fez uma escala numa das fruteiras tradicionais do Mercado, de Miguel Sujo, depois de uma breve passagem pelo antigo mercado livre, entre muitas caixas de tomate. Na fruteira, onde começou em 1962, além das frutas, claro, lembra que um dos carros-chefes eram os ovos, quando ele batia recordes de vendas. Em 1982 é convidado pelo Dr. Heron Guido de Moura a se candidatar a vereador de Porto Alegre.

A ida para o Gambrinus
Vovô conta que durante muito tempo Antoninho (Antonio Melo, ex-dono do Gambrinus, falecido em 2009) sempre o convidava para trabalhar no restaurante. “Tanto incomodou que um dia cheguei lá e disse: então, tá, a partir de hoje estou trabalhando contigo”. Isto em 1966. O novo patrão começou a ensiná-lo no novo ofício, o de garçom. O restaurante era bem menor do que é hoje. A ampliação, não só do Gambrinus, mas de outros restaurantes e bancas, veio depois da reforma dos anos 90. “Eram apenas duas portas (hoje são três) e tinha apenas oito mesas”, lembra. O Gambrinus era pequeno, mas mesmo assim tinha uma clientela grande e “era uma correria só”, como diz o nosso garçom, que em determinada época ficou sozinho no atendimento. Ele conta também que o restaurante antes era um “boteco” que foi aos poucos se qualificando. O marco decisivo desta mudança foi quando Antoninho decidiu não mais vender cerveja durante o dia, apenas no almoço. E chope, além de fechar as portas. A partir daí o ambiente (e público) do Gambrinus mudou. “Mas o nosso movimento sempre foi bom, com cerveja, bolinho de carne, de batata, de bacalhau” O público antigo migrou para os bares das proximidades. E o Gambrinus começava uma nova época, que fez dele um tradicional restaurante da cidade. “Hoje é uma casa de respeito, a mais antiga do Rio Grande do Sul”, diz ele. Por ela passaram (e passam) ilustres figuras da vida artística, política, empresarial, jornalística. Jô Soares e Jamelão são dois nomes que ele lembra.

Origens e boemia
O Gambrinus passou por vários comandos. “Primeiro foi dos alemães, depois vieram os italianos e no fim, passou para o Antoninho”, diz ele. Mesmo nesse período era muito freqüentado por alemães, que tomavam incontáveis chopes. Chegavam em grupos de 10, 12 homens. “Quando um morria, pediam um chope para cada um e outro para o “morto”. Mas de lá para cá, o tradicional cardápio praticamente não mudou. “Tem prato aí de 40 anos, desde que estou aqui sempre foram os mesmos, mudou alguma coisinha”, constata. Da boemia, lembra dos restaurantes Graxaim e Treviso, principalmente este último, tradicionalíssimo reduto da noite porto-alegrense daqueles anos. “Era famoso pela canja na madrugada e o filé à Chateaubriand, dono dos Diários Associados”, recorda. Empresa, aliás, na qual Vovô também trabalhou, mais precisamente na antiga rádio Piratini e TV Difusora, numa dessas idas e vindas. O Graxaim fechava cedo, já Treviso era “virado”, recorda. “Quando o Treviso começou a cair o gabarito, o pessoal começou a vim pro Gambrinus. Por isto muita gente pensa que aqui é ainda o Treviso”. Outra herança do Treviso é a cadeira cativa de Francisco Alves, o maior cantor brasileiro dos anos 50, que foi parar no Gambrinus, presente de Tércio Kauer, que montou uma sorveteria no antigo reduto boêmio.

Homem da noite X família
Vovô sempre gostou da noite. Nos tempos do Gambrinus diz que costumava sair com Antoninho para outros restaurantes. Para ver como eram e para conversar. E como homem da noite, também teve a sua casa noturna, o famoso Vinha D’ Alho, que agitava as noites da Azenha e da cidade. “Era um dos melhores dos restaurantes da noite de Porto Alegre. Abria às 7 da noite e ia até às 10 horas da manhã, com música ao vivo, com os grande nomes da noite. Foi o lugar onde mais trabalhei, mais faturei e mais botei dinheiro fora”, recorda. Hoje gosta de dançar e cantar, mas está mais dedicado à família. O Mercado, para ele mudou muito. É um lugar onde a família tem orgulho de dizer que ele trabalha. “Antes tinha rato por tudo que é lado, hoje o Mercado está como um shopping”, compara. De todo esse tempo de garçom, diz que só tem amizades, muitas amizades. O que o Mercado representa para ele? “A minha segunda casa. Saio daqui, vou pra casa, saio de casa vou pro Mercado. Aqui é uma família, é difícil não se dar com alguém”, resume. Simples para um homem que adora a profissão, e que nunca teve problema com cliente nenhum. Pelo contrário: “Se vejo que um cliente está triste, dou um jeito de deixar ele alegre. A gente escuta muitas coisas, mas tem que guardar pra si, não pode dizer”. E para finalizar, o conselho para quem quer seguir a profissão dele é simples: “Tem que gostar do que faz, atender bem o cliente, bater um bom papo, nunca dar as costas para ele. Tem que ser ágil, esperto, atento quando o cliente está entrando. Se não for assim, nem adianta querer começar”, ensina o mestre.

COMENTÁRIOS