Joel dos Santos de Souza: “Fico mais no Mercado do que em casa”

Natural de Cruz Alta, mas criado em São Sepé, para onde foi com oito anos, Joel nasceu em 19 de janeiro de 1971. No interior, trabalhava na agricultura, com plantações de arroz e soja. Veio para Porto Alegre por causa de um irmão, que morava em Viamão, na Região Metropolitana da capital gaúcha. Casado, três filhos, atualmente mora em Porto Alegre.

 

Foto: Letícia Garcia

 

Veio parar no Mercado Público através de um vizinho: “Eu ia passando por acaso aqui perto do Mercado e ele perguntou se eu estava procurando serviço. Falei: ‘estou procurando mesmo’.  Eu tinha trabalhado em outros lugares, mas estava desempregado. Foi aí que entrei para o antigo ‘restaurante da Trensurb’ (Marco Zero), onde comecei em 1992. O dono era o ‘seu’ Maurício Bicudo e seu irmão, Fernando”. Mas Joel ficou pouco tempo ali: em 1993, Maurício o apresentou a Aquilino de Paoli, então proprietário da Carel/Banca 48. “Entrei e estou até hoje. Vi muita coisa no Mercado. Depois da reforma aqui mudou muito.” A reforma dos anos 90 trouxe muitas alterações ao Mercado. Durante as obras, muitas bancas mudaram de lugar – a maioria subiu do térreo para o segundo piso. Muitas fecharam (algumas nunca mais reabriram) e outras operaram precariamente. Dentro da Carel ficava um dos pilares que ergueriam o novo telhado. “De dia os funcionários trabalhavam normalmente, mas de noite tinha que ficar alguém da banca para cuidar. Eu fiquei várias noites, durante um mês”, lembra.  Aliás, a 48 também foi deslocada temporariamente durante as obras e, quando a reforma acabou, voltou para o térreo, próxima de onde era inicialmente.

 

Mais movimento e vendas no Mercado antigo

A rotina de Joel não mudou desde que começou no Mercado. Sai de casa de manhã cedo, às 5h30, e trabalha até às 19h30. “É um pouco parecido como começou, só mudou o dono da banca, que não é mais o mesmo: agora é o Airton (Silveira); antes era o Aquilino de Paoli, que me ajudou muito e me ensinou tudo o que eu sei e sou, a quem eu agradeço. Ele me deu uma oportunidade e estou aqui até hoje.” Gosta do trabalho, mas registra as diferenças: “Hoje mudou um pouco, antes eram só cereais, balas, doces, mandolates, bolachinhas, que a banca fornecia para os baleiros. Agora com produtos de academia, ficou um pouco mais complicado, tem que explicar os produtos, a gente estranha”. Outra diferença que Joel destaca: o movimento que, segundo ele, era muito maior em outros tempos. “Foi o que mais mudou. Diminuiu muito. Eu trabalhava muito, o dia todo, a gente não parava nunca. Antes parecia que era melhor para trabalhar, era mais gostoso.” E, com movimento maior, também se vendia mais, segundo afirma. Por exemplo, diz que arroz a granel, por exemplo, se vendia até 30 sacos a cada 15 dias. “E na ‘hora do pique’, em uma ou duas horas, se vendia dois sacos na ‘corrida’ – hoje leva um mês para vender um.”

 

Mercado, a segunda casa

Clientela? Muito fiel, que sempre volta. E tem vários fregueses ainda do tempo em que ele começou na banca. O atendimento é tranquilo, diz, feito entre seis pessoas: três funcionários e três proprietários. Dos mais antigos, além dele, só Luizinho Lima, que já está na Carel há “uns 12 anos”. Os outros já saíram, e muitos colegas do Mercado faleceram, dos quais tem saudades. Como Hamilton Malfati, que, além de colega, era “amigo mesmo, um companheirão”. Nesse tempo todo fez muitos amigos. “Tenho amizade com todo mundo aqui, nunca fiz inimizade com ninguém, nem aqui nem fora, sou tranquilo.” Sobre o novo Mercado, acha que ficou mais bonito, mas lembranças fortes mesmo ainda são do Mercado antigo, como do telhado de zinco. “Quando chovia, era aquela correria para dentro da banca. Era rotina, várias vezes aconteceu de estar se preparando para ir embora, e começava a chover. Tinha que tirar tudo dentro da banca, secar, porque chovia dentro dela.” Porém, não chegou a pegar o tempo dos gatos no Mercado: “Mas tinha muito rato!” Define o Mercado como “uma segunda casa”: “Gosto muito, aqui tem muita gente boa, não tenho do que reclamar”. Por isso mesmo talvez nem pense em sair do Mercado, embora um dia deseja voltar para o interior e ficar perto dos familiares – cinco irmãos e a mãe, “da qual sinto muita saudade”. “Talvez, depois de me aposentar”, conclui.

COMENTÁRIOS