Joca Martins – Amor à terra em forma de canção

 

Foto: Letícia Garcia

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

O termo gaúcho designa mais que o nascido no Rio Grande do Sul. A palavra traz consigo todo o imaginário de um povo com valores como liberdade, garra e coragem. A figura do gaúcho é muito importante para a identidade dos nascidos no RS, ainda mais lembrada neste mês de setembro. A música regional é talvez o maior ponto de expressão da cultura tradicional, e é parte fundamental para a afirmação do “ser gaúcho”. Mesmo que as práticas cotidianas não sejam mais as do gaudério campeiro, o simbolismo trazido pela figura do gaúcho está no dia a dia das pessoas – do tomar um chimarrão a um aperto de mão elaborado, ou ao ouvir de uma milonga. A música regional, espelho de tradições cultivadas no estado, desperta sentimentos em pessoas com diferentes histórias, nem sempre ligadas ao campo, e acaba trazendo a vivência do gaúcho campeiro em sua poesia e melodia. Para este mês, fomos conversar com o cantor nativista Joca Martins, que há 26 anos exalta o amor à terra em suas canções.

 

A estrada nativista

O pelotense Joca Martins teve a música em sua vida desde cedo: “essencialmente música gaúcha, mas a gente lá em casa ouvia de tudo: MPB, eu estudei canto lírico, então escutei muita ópera, música clássica”, conta. Já aos 14 anos cantava músicas regionais acompanhado do avô no acordeom e violão. Tomou a estrada para a música nativista nos anos 80, nos festivais de música que se espalhavam pelo estado. “Comecei tocando bombo leguero, e 86 foi o ano em que comecei a cantar. Daí começou, tentando mandar para festivais, às vezes classificando, às vezes não, naquela persistência que todo mundo tem que ter no início de tudo”. A persistência deu frutos, e, depois do primeiro CD, “Xucro Ofício”, lançado em 1995 pela USA Discos, foram mais 13 trabalhos e diversos prêmios, incluindo dois discos de ouro pelos CDs “O Cavalo Crioulo” (2004, USA) e “Clássicos da Terra Gaúcha” (2003, USA). “César Passarinho e José Cláudio Machado são minhas referências, que me trouxeram até aqui, e foi neles que eu me espelhei para construir a maneira como interpreto hoje. Eles foram esses alicerces”, conta. Os dois artistas também são vozes surgidas nos festivais. “O festival é um laboratório de novas músicas, um formador de profissionais. É mostrar em quatro minutos que uma música pode ser premiada, numa concentração de ideias”, relembra. “É a vitrine mais importante que nós temos, ainda, para o surgimento de novos talentos, e para que as comunidades peguem esse gosto pela música gaúcha”.

 

Música regional

Joca dedica-se mais à composição de melodias, trabalhando em parceria com letristas como Rodrigo Bauer, Gujo Teixeira, Anomar Danúbio Vieira, Xirú Antunes, Lisandro Amaral, Adriano Alves e Eduardo Soares. Ele destaca Paixão Cortes, Barbosa Lessa, Glaucus Saraiva e Antônio Augusto Fagundes como esteios da cultura tradicional. Dentre os cantores nativistas atuais, César Oliveira e Rogério Melo, Luiz Marenco, Juliana Spanevello, o grupo Buenas e M’espalho e o trabalho solo de Shana Müller, Cristiano Quevedo, Érlon Péricles e Ângelo Franco, Marcelo Oliveira e Lisandro Amaral. “A música nativista está tendo a sabedoria de adaptar-se aos novos tempos, procurando manter a sua essência”, afirma Joca. “Hoje nós temos rádios web que divulgam música gaúcha, temos as redes sociais, onde se divulgam links, fotos, a letra de uma música”. Quanto à tchê music, comenta: “Não sei se é assim que a música gaúcha tem que subir [o país]. A gente gosta de mostrar as nossas coisas, porque temos orgulho. Por exemplo, hoje o cavalo crioulo está em todo o Brasil, e em outros países. Só que a estrada para chegar a esses lugares tem que ser feita com muita calma, não pode ser num atropelão. Então eu acho que houve um pouco dessas coisas que atrapalharam”, diz.

 

Terra e emoção

A mensagem que Joca procura transmitir em suas músicas está ligada a um sentimento de amor à terra. “Acho que é um apego ao chão, de estar junto a esses valores”, diz. “Por mais urbana que a pessoa seja, ela sabe que tudo vem da terra. Então todo mundo procura, mesmo que num grande centro urbano, manter esse elo. A música nativista é, sem dúvida, um elo constante, porque está falando sempre das coisas do chão – é um elo com as coisas mais puras. O ser humano hoje carece muito disso”. Segundo ele, essa busca por pensar a terra está expandindo o espaço ocupado pela música regional, como as redes sociais na internet e os pubs, lugares onde ela não estaria normalmente.  “É a demonstração de que esse sentimento está precisando ser compartilhado”, afirma.  Por isso, Joca destaca a ligação que a música constrói com a cultura regional, que relaciona diretamente à emoção. “A cultura gaúcha é puro sentimento. O ato de a gente tomar um mate, ficar mais pensativo, ou até fazer um assado perto do fogo… Se eu tivesse que definir a cultura gaúcha numa só palavra, eu definiria com emoção”.

 

Joca, o Mercado e o mês de setembro

Joca conta que vai menos do que gostaria ao Mercado Público, apesar de ouvir falar da “erva mate maravilhosa” que se encontra aqui. “Acho que o Mercado Público é um lugar que sabe muito bem receber o pessoal do interior que abarca a capital. É um lindo espaço, muito relacionado à cultura tradicional. Até porque se nós formos falar na parte da culinária, está ali, e isso é nossa cultura também”. Quanto ao mês de setembro, Joca demonstra seu orgulho gaúcho: “Não existe nada mais importante do que a gente gostar do que é nosso. Sempre que estivermos voltados para o que é nosso vamos ser grandes para os outros. Se a gente não tiver alicerce, se não tiver orgulho do que é nosso, vamos ser fantoches, uns sem rumo. E eu acho que é nesse mês que a gente põe os pés no chão, pensa nas coisas, que bate aquele orgulho. Relembramos as coisas passadas, relembramos a história. Acho que esse é o momento de pensar que o sentimento de setembro tem que ser o de todos os dias”.

 

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