João Lopes da Cunha: Verdadeiras histórias de um pescador 

João Lopes da Cunha

Verdadeiras histórias de um pescador 

Como todo bom filho da Ilha da Pintada, começou sua trajetória como pescador artesanal. Chegou ao Mercado Público com 17 anos, tendo iniciado no chamado Mercado da Verdura, conhecido então como Mercado Livre, com tamanho e pé direito semelhantes ao atual. Lembra, que muitos que fizeram história no Mercado Público também começaram ali. Conviveu com muita gente, fez muitos amigos. Alguns deles já se foram, recorda com carinho. 

   

  Pescava durante o final de semana para, nas segundas e terças-feiras, expor os pescados à venda. “Naquela época o Mercado era diferente. Os portões abriam às 6 horas, com o tocar do sino. Aí ficava aquele empurra-empurra, um verdadeiro aglomerado de pessoas. Então baixinho que nem eu não tinha vez, né?”, brinca.  Ele lembra que na entrada, do lado esquerdo, tinha uma peixaria, uma feira e algumas bancas de pedra onde se comercializavam os peixes dos pescadores através de um rodízio, pois sempre tinha um ponto que era melhor do que outro. Recorda, ainda, que às 9h30min o sino tocava novamente para o encerramento das vendas e que naquela época o consumo de peixe era muito forte. 

 

As primeiras bancas de peixes e os primeiros peixeiros do Mercado 

Diz nosso personagem que a primeira peixaria usada pelos pescadores e fora do sistema das bancas de pedra – também conhecida como Coréia – foi a Banca 2 (peixaria número 2), de propriedade de Nicolau Ignácio da Silva, conhecido pelo Mercado como Niquinho. “Ele era o pai do Cláudio, que hoje continua como permissionário, mas em outro ramo de atividade comercializando artigos religiosos na Banca Flora 49 – Rainha do Mar. Fazia muito sucesso. Eu e o Cláudio trabalhamos juntos. E tinha o Paulo Banana, pai do Beto, empregado nessa peixaria naquela época. O Beto Banana permanece no lugar do pai, falecido recentemente, sua peixaria é a Rainha do Mar no Mercado Público. Depois veio o Anildo, Eliseu Louco”, recorda. Nessa época já existia a Peixaria São Pedro e nascia a segunda geração das peixarias. 

O empreendedor Chinga 

Aos poucos João Lopes da Cunha – o Chinga – vai se estabelecendo como comerciante, um “mercadeiro”. Primeiro, com a compra da Banca 3, um verdadeiro armazém que trabalhava com tripa, pé de porco e produtos assemelhados. Depois veio uma banca de secos e molhados que foi comprada através de uma sociedade. Recorda que tinha uma padaria bem na frente.  A parceria não deu certo e ele preferiu sair do Mercado Público e buscar novos mercados, fora do Rio Grande do Sul, para comercialização de pescados. Chinga conta que quando vendeu a sua parte não havia dinheiro:”Me pagaram com promissórias”. Num lampejo de visão, compra quatro caminhões. “Os caras acharam que eu estava louco. Mas eu já conhecia São Paulo, Belo Horizonte. No começo foi complicado, pois eu saí sem dinheiro algum. Paguei tudo direitinho e deu no que deu”, orgulha-se. Com perfil empreendedor, investiu também em um posto de compras em Tapes, passando a trabalhar como atacadista. Em 1970, começa a traçar uma trajetória em São Lourenço do Sul: manda peixe para Belo Horizonte e traz ferro de volta. Inquieto, viajou muito – Argentina, Norte-Nordeste e tocou vários negócios ao mesmo tempo. Uma vez trouxe uma carga de camarão gigante, que ninguém conhecia aqui. “Não tinha essa facilidade de comprar uma mercadoria em Belém do Pará e receber no dia seguinte de avião”, compara. Conta a dificuldade em sair com uma caixinha de gelo para venda dos pescados, oferecendo em hotéis e restaurantes. “Tem que insistir e acreditar. Mas não é fácil. Se tu sobe um degrau e acha que aquele degrau parou, não pode. Tem que continuar e subir o segundo”, ensina. 

O surgimento da Peixaria Japesca e a reforma do Mercado 

Gabriel, o filho mais velho, esclarece o surgimento da peixaria no Mercado. Diz que a Japesca nasceu quando seu pai ficou sozinho, sem sociedade, depois de montar a indústria de pescados. Em meados de 1980, aparece a oportunidade de retornar ao Mercado Público, através da aquisição das bancas 6 e 7, que deram início a peixaria JAPESCA no Mercado Público. Mais tarde solidificou a empresa com a compra do ponto pertencentes aos antigos sócios, bancas 4 e 5. Então a Japesca fica com as bancas 4, 5, 6 e 7, perfazendo assim uma ala central do Mercado com a peixaria. Com a proposta de reforma do Mercado, Chinga resolve focar suas atenções para a indústria, localizada no município gaúcho de São Lourenço do Sul. Na ocasião enfrentou muitos dissabores com a Prefeitura sobre a proposta de remanejamento dos pontos comerciais. “Com a reforma do Mercado, muitos permissionários, como eu, foram prejudicados, alguns até conduzidos à quebra. E, por óbvio, muitos foram beneficiados. Fiquei muito desgostoso com o negócio, mas nunca perdi o ânimo”, diz. Mas, homem de fibra, não se entrega nunca. “Para mim nunca teve esse negócio de não vai dar. Nunca admiti isso. É só acreditar que tudo dá”, conclui o guerreiro. 

De geração em geração 

Lembra que o filho Gabriel tinha 12 anos quando foi trabalhar com ele no Mercado. “A família toda foi contra. Peixe é complicado, altamente perecível, cheira mal e foi ali que o Gabriel começou. Ganhava salário e começou a gostar,” conta Chinga. (Gabriel Mendo da Cunha é hoje o presidente da ASCOMEPC, Associação dos Permissionários do Mercado Público – Roberto, o filho caçula, começou a trabalhar no Mercado com 16 anos, reforçando a equipe, onde permanece até hoje). Essa é a história de João Lopes da Cunha, casado com Vera Regina Mendo da Cunha, três filhos – o popular Chinga, 70 anos, a maioria deles dedicados à construção de seu negócio principal e um dos tradicionais nomes do Mercado: a Peixaria Japesca. 

 

 

 

 

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