João Batista Pereira dos Santos: “O Mercado é uma escola, onde se aprende tudo”

Nascido em setembro de 1978, é natural de Santo Antônio da Patrulha. Casado, com um filho de oito anos, veio parar no Mercado por intermédio de vizinhos do seu pai — a família Gomes, dona do Açougue e Mercearia Duporto, onde hoje está localizada a Estação Pastel. Recebeu, então, o convite para um trabalho de uma semana. Veio e ficou. O garoto que queria ser jogador de futebol chegou ao Mercado em fins de 1994, quando a grande reforma estava começando a mudar toda a sua estrutura.

Foto: Letícia Garcia

“Era para ser temporário, passaram-se as três semanas: quando vi já estava há 25 anos aqui dentro. Trabalhei dois anos na Duporto, depois transformaram em Estação Pastel, onde fiquei mais 10 anos como garçom.” Depois disso, teve a oportunidade de trabalhar no então restaurante Marco Zero, que ficava no andar superior, consumido pelo incêndio de julho de 2013. Mas João não quis, porque o trabalho era no horário da noite.

Então, foi para o Açougue Ildo Pozzebon, onde ficou mais quatro anos, até entrar definitivamente onde está até hoje, o Açougue San Remo. “Eu estava em casa, parado, quando me ligaram. Aí, eu fui. Tudo passa muito rápido: meu filho já está com oito anos, quase o tempo em que estou no açougue.” Como a sua primeira base foi de açougueiro, a transição de garçom de volta para açougueiro foi tranquila. Do tempo de garçom, aprendeu mais sobre como atender, servir os clientes e falar com o público, condição básica para desempenhar as duas funções.

“Peguei habilidade de atender, comecei a fazer entrega na rua. Hoje me ligam na San Remo, ‘quero falar com o João’. E a maioria dos clientes já são meus conhecidos aqui do Centro mesmo, onde morei quase 10 anos. Agora, estou morando há quase 25 anos em Viamão.”

 

Segredinhos do ofício

Sobre o seu trabalho, João diz que está sempre aprendendo, se aperfeiçoando. “Com o tempo, a gente vai pegando a prática.” O veterano passa a sua experiência para os novatos do açougue, ensinando e dando dicas. “Às vezes, o cliente quer que eu atenda, mas passo para outro, mostrando como o cliente quer.” Na banca, são aproximadamente 25 profissionais, sendo que apenas outros dois estão há mais tempo, como ele — Marlon e Carlinhos, este último um pouco mais antigo do que ele.

A rotina é simples: entra às 7h30 e vai até as 19h30, no máximo. Nos últimos meses, vem se concentrando mais no atendimento e no balcão, principalmente quando as carnes são de frango e de porco — cada atendente tem funções definidas, uns ficam com carne e bifes, por exemplo. Sobre as mudanças de procedimentos do açougue desde o tempo em que entrou, diz que, a cada ano, a banca vai melhorando em termos de qualidade e nos próprios cortes de carnes. Para ele, o Mercado é uma grande referência em açougue. “Acho que mundial, porque tem gente que vai morar nos Estados Unidos e, quando viaja para cá, vêm comprar aqui.”

 

A importância do Mercado

Trabalhar no Mercado, para ele, “é uma vida”. Já está bem acostumado: vai para casa, toma banho, conversa com a esposa, com o filho, olha televisão e no outro dia volta para o trabalho. “Na realidade, o Mercado é a casa da gente. Os meus primeiros patrões, João Moacir Gomes e o irmão, Maurício, vizinhos do pai, todos os domingos iam para Santo Antônio da Patrulha e eu ia de carona com eles, para ver o pai e a mãe. A gente se sentia em família.” Saudades do Mercado antigo João praticamente não tem, mesmo porque, quando ele chegou, o prédio já estava em reforma. Mas lembra ainda do antigo telhado de zinco. “Conforme a chuva, alagava todo o Mercado.”

Lembra também da sua juventude: logo no início, trabalhando na Estação Pastel, passou pela fase de encantamento pelos fliperamas da capital, e, uma vez, esqueceu-se da hora a ponto de o patrão, Gima ir buscá-lo, bem-humorado, no flíper. João conhece muita gente no Mercado, desse tempo todo. É quieto, mas gosta de fazer as suas “pegadinhas”. Dos acontecimentos mais marcantes, assim como muitos mercadeiros, lembra o incêndio de julho de 2013, quando ele e os colegas da banca ficaram mais de um mês parados, esperando, sem saber se ia reabrir ou não.

Depois de todos esses anos trabalhando, para João, o Mercado representa a sua própria vida, e uma escola onde se aprende de tudo. “Tudo o que eu adquiri, foi do Mercado — só coisa boa. Se eu não estivesse aqui, estaria na roça trabalhando. O Mercado é a vida da gente.”

 

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