João Alberto Cruz de Melo: “O Mercado de hoje é muito melhor do que o antigo”

Como muitas histórias dos personagens do Mercado, a de João tem em comum o fato de ser de origem portuguesa e ter começado ainda pequeno nas lidas mercadeiras. Natural de Porto Alegre, solteiro, nascido em 1978, hoje ele administra o tradicional Restaurante Gambrinus. E foi nele que começou quando era ainda um garoto. Seu pai, João Dias de Melo, e seu tio, Antônio Melo, o Toninho, uma das figuras históricas do Mercado, eram sócios no restaurante. Quando o pai faleceu, em 1988, o tio convidou o rapaz para ir trabalhar lá.

 

“Eu era pequeno e vim aprender. O tempo foi passando e eu fui ficando. Saía da aula e vinha direto para cá. Foi uma forma de ganhar algum dinheiro e ajudar a pagar os estudos. Terminou o colégio, continuei trabalhando”, lembra. No começo “fazia de tudo”, recolhendo copos, limpando mesas, balcão, abastecendo a geladeira, até que passou para o serviço de organização interna da empresa. “Aprendi muito com meus colegas, que me ensinaram bastante, como o Zezinho (José Carlos Lopes Tavares, um dos mais antigos garçons do Mercado). Também sempre fui de observar muito o cliente e aprendi bastante com isso”, diz. Na faculdade UniRitter começou a fazer Informática. Porém lá mesmo descobriu o curso Tecnólogo em Processos Gerenciais, com enfoque em administração. Não teve dúvidas: mesmo com todo mundo achando “esquisito”, mudou de curso. E se encontrou nele. “Me dei conta que eu gostava mesmo era disso, de trabalhar com pessoas”, registra. Quando garoto, começou vindo para o Mercado aos sábados, trazido pelas mãos do pai, para tomar café. O sábado, segundo ele, não era um dia tão “forte” como é hoje: “Era bem mais calmo, um dia para se reorganizar, fazer limpeza”.

 

Mercado, antes e agora

 

Ele não tem a menor dúvida ao dizer que prefere o Mercado atual ao antigo, que, afirma, era muito mais barulhento, desorganizado, sem proteção contra as chuvas. “Quando enchia, nas datas principais – dia das Mães, Páscoa –, era impossível caminhar dentro do Mercado. Hoje, apesar de todos os problemas que a gente sabe que ele tem, é muito mais organizado, limpo e seguro do que antigamente. Talvez não tenha aquela característica tão popular como tinha, mas é que as exigências eram outras. Tudo mudou”, constata. João Alberto também acompanhou toda a reforma do Mercado nos anos 90. Ao contrário de muitas bancas e lojas, o Gambrinus não precisou mudar de lugar, mas passou por um período difícil. “A gente pagava dois aluguéis, um no dia cinco e outro no dia 20, para levantar fundos para fazer a reforma. Foi muito traumático para muita gente, muitos ‘quebraram’. Nós passamos por aperto, tivemos que readequar tudo, até as contas da família. E a reforma da loja correndo junto – todas as lojas, para ficarem condizentes com o novo Mercado”. O Gambrinus procurou manter ao máximo as suas características, mas perdeu o salão, onde hoje ficam as mesas, no lado externo.

 

As boas lembranças do Mercado

 

Ele lembra também que antes da reforma os riscos de acidentes eram constantes, sem tanta segurança como existe hoje. “Todos os motores e máquinas de refrigeração ficavam para o lado externo das bancas e lojas. Era muito barulho mesmo”. Lembra de um mercadeiro que vendia galinhas e pintos e, não raras vezes, eles escapavam, se espalhando pelo Mercado: “Tinha que correr atrás pelos corredores, era muito engraçado e divertido. Também lembro do tempo em que o gelo vinha em barra. Peguei ainda um pouco o finzinho do tempo do barril de chope de madeira”. E não se esquece de pessoas que foram importantes para ele e seu aprendizado, como Gabriel Mendo, da Japesca, e Alexandre Novo, da Banca A, seus contemporâneos, e outros mais antigos, como Manuel Carvalhal, do Armazém do Mercado, Silvino Novo, da Banca A, e alguns clientes que até hoje são amigos e que sempre foram muito próximos. Também evoca os tempos da Casa de Portugal, quando toda a comunidade lusitana do Mercado convivia nos fins semana, com churrascos e torneios esportivos.

 

Mais que clientes, amigos

 

Depois de quase três décadas no Gambrinus, destaca como mais importante no restaurante a relação com seus clientes. Para ele, cliente ilustre é aquele que vem sempre, e não esporadicamente. A casa preza a proximidade, saber o que o cliente gosta, o seu nome, o que ele faz. “Nos preocupamos se algum não aparece, ligamos para saber como está. Temos muitos amigos e gente muito antiga, pessoas amigas, desde quando o meu pai tinha um bar (Bar Minas Gerais) na Av. João Pessoa, que sempre aparecem aqui. Minha mãe, Maria Locy, morava na frente do bar, onde conheceu meu pai, mas nunca trabalhou aqui”, diz. O cardápio não mudou quase nada em todos esses anos, apenas antes era maior – com a redução do espaço, teve que ser reduzido também. Antes da reforma não havia propriamente um cardápio, era apenas um quadro pendurado no meio do salão com os pratos do dia. Este quadro está lá até hoje, como relíquia. Nos domingos e feriados, João sente-se ansioso por não estar no Gambrinus e no Mercado. “É onde eu vivo todos os dias, às vezes mais do que na minha casa. É minha vida, uma escola para mim, de pessoas que batalham muito, desde cedo do dia, que são um exemplo. O dia mais difícil foi o do incêndio. Depois que ‘caiu a ficha’, de que poderia ter perdido toda a minha vida, fiquei até depressivo”, diz. A grande lição que aprendeu no Mercado? “É como o tio me disse: ‘em um momento difícil, abaixa a cabeça e trabalha que tudo passa’. Acho que é o resumo do que aprendi trabalhando aqui estes anos todos”, conclui.

 

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