Jane Tutikian: Minha bandeira de Patrona da Feira é a formação do leitor

Ela é 4ª mulher a ser escolhida como Patrona em 57 anos de Feira do Livro. Jane Tutikian é pós-doutora em Literatura, professora de Literatura e Diretora do Instituto de Letras da UFRGS. Autora premiada, tem uma grande produção literária, dividindo-se entre livros infanto-juvenis e adultos. Com uma movimentada agenda com a função de Patrona, Jane nos recebeu em plena Feira do Livro para uma conversa sobre literatura e seus processos, novos leitores, realidade do livro no Rio Grande e Brasil e, claro, a própria Feira do Livro.

 

Família, escola e professor: o tripé da leitura

 

A minha bandeira como Patrona da Feira é a questão da formação do leitor. Talvez as pessoas pensem que isso já é um tema batido. Não, não é. Eu sei disso, porque uma vez por semana saio para conversar com adolescentes nas escolas. As pessoas ficam insistindo que o adolescente tem que ler. Bom, se a gente tomar a luta por este lado, é uma luta perdida. Está na hora de reverter o quadro: pai, mãe e professor têm quer ler. Porque, literatura é paixão e só posso transmitir paixão por aquilo que eu conheço. A escola acha que quem forma é a família, a família acha que é a escola. A mídia, por sua vez, colocou um manto de invisibilidade sobre a literatura infantil e juvenil que trabalha com a formação, assim como a Universidade. Então, ninguém está formando ninguém, a gente só está mandando ler. Isto tem que ser repensado. E tem que ser uma campanha que inicia na família e não se detenha em determinados segmentos. Não só os pais, a escola, a mídia e o governo – está na hora da gente abraçar mesmo esta questão. Esta é a minha bandeira, não só de Patrona, mas uma bandeira de vida.

Relação com os adolescentes

 

Há 30 anos estou na estrada e vou nas escolas. E digo: professor não lê e nunca, nesses 30 anos, ninguém se levantou e me disse que não é verdade. E a família também não lê. Ou porque está empobrecida ou porque não quer. As de classes mais abastadas preferem investir mais nos pés do que na cabeça. Preferem comprar um tênis fantástico para o filho, que custa uma fortuna, mas não compra um livro. Está na hora de rever isto.

 

Limitações dos professores?

 

Vamos pensar o seguinte: da primeira à oitava série não existe uma obrigatoriedade de literatura ou de leitura. Todos os projetos pedagógicos de todas as escolas dizem: “vamos formar um cidadão crítico”. Mas não existe uma hora de leitura que seja semanal, uma cadeira de literatura que leve à leitura. O professor faz se quiser e ao mesmo tempo não é preparado para estar dentro da sala e lidar com a leitura do jovem. A literatura só funciona se o ser humano conseguir se reconhecer no texto e se questionar a partir disto. Tu achas que eu posso começar a formar um leitor com autores tombados, como o maior escritor brasileiro, Machado de Assis? Ele é o maior e vai continuar sendo, mas não na formação do leitor. Então a gente dá todas as possibilidades do jovem odiar literatura.

 

Caminhos para a leitura

 

Em primeiro lugar, pai, mãe e professor têm que ler, para que consigam transmitir uma motivação grande para o seu filho ou aluno. E, um bom texto escrito para criança ou adolescente é bom para qualquer idade. Um bom livro vale para qualquer idade. A literatura não está aí para ensinar nada, está aí para fazer com que as pessoas se perguntem. E para isto tem que se reconhecer. A literatura é um espelho crítico, tem que se reconhecer no que se lê.

 

Realidade gaúcha de leitura

 

O Rio Grande do Sul é o terceiro pólo mundial em qualidade de literatura infantil e juvenil e o Brasil é o primeiro do mundo. E tem muita coisa boa para oferecer para os jovens e aí precisamos do auxilio da mídia. Tem um exemplo fantástico. Quando passou aquela mini-série Os Maias que transformou o livro do Eça de Queiroz, escrito no século XIX, num best-seller no Brasil no século XX e XXI. Ou nós trabalhamos juntos, ou vamos ter uma geração inteira capaz de fazer, mas incapaz de refletir aquilo que faz. As redes sociais exigem muita pressa nas mensagens, cada vez mais a gente vai diminuindo o vocabulário, é quase uma língua paralela. Então a gente tem jovens que sabem usar máquinas como ninguém, mas não sabem refletir sobre aquilo que estão fazendo.

 

A realidade no resto do país

 

Estou vendo alguns esforços bem interessantes em relação à leitura. Quando a gente anda pelo Brasil, fora das capitais, as pequenas cidades tem farmácias e não tem livraria. Aí é preciso uma vontade política e um projeto político muito forte. Nós queremos um povo brasileiro que pense ou não? Temos exemplos na Coréia, naChina. Se nós queremos um país melhor tem que passar pela educação e pela leitura. De outra maneira, não adianta ser o grande país que nós somos, ter toda a riqueza de solo, se não tivermos um povo que possa decidir o seu destino de cidadão através da cultura. Eu estive com a Ana de Holanda (Ministra da Cultura), ela tem falado muito sobre os projetos de leituras, sobre as bibliotecas ambulantes, acho isso tudo muito interessante, mas acho que não pode ser só o Ministério da Cultura, tem que ter o Ministério da Educação junto.

 

O futuro do livro

 

Quanto ao futuro do livro, de ser digital, ou acabar, vejo isso com muita tranqüilidade. Os jornais estão on line e por que as pessoas não perguntam: “ah, os jornais vão acabar?” Existe o livro em outros formatos, mas o livro de papel não vai desaparecer. O homem levou séculos e séculos para chegar à escrita, ao papel, ao livro. E cada livro, por mais simples que seja a edição, é um patrimônio cultural da humanidade. A gente não vai abrir mão disso, fora o prazer de poder marcar e sublinhar. Eu tinha um professor, Guilhermino Cesar, que dizia que o maior respeito que a gente pode mostrar por um autor é sublinhar as partes que a gente gosta de um livro e até as que não gosta.

 

O crescimento da Feira

Eu vejo as pessoas dizerem que a Feira cresceu demais, não é mais a mesma, que se descaracterizou ou que é comercial. Mas são as mesmas pessoas que se orgulham de dizer que é a maior feira do livro a céu aberto da América Latina. Se a gente parar para pensar e ver as últimas décadas dos séculos XX e XXI, o mundo é outro, as fronteiras geográficas mudaram totalmente. Só o fato do Império Soviético ter  se desfeito, as fronteiras políticas e ideológicas mudaram totalmente, o fim do Muro de Berlim, se passar na questão da economia, a globalização está aí, na comunicação é espantoso o que mudou. Nós seríamos extremamente ingênuos de achar que o homem também não mudou. Se nós tivéssemos a mesma Feira, com as barraquinhas, estaríamos reclamando. O mundo mudou e a Feira acompanhou. A maior feira do mundo é a de Frankfurt, que leva escritores, editores, é uma feira comercial, fechada, de livreiros. Agora, a nossa, vamos dar uma passeada neste colorido, no coração de Porto Alegre, tem gente de todas as crenças, raças, opções e ideologia, o que torna a Feira mais democrática. A Feira faz parte da identidade do portoalegrense e da identidade cultural do gaúcho, é muito forte em nós este sentimento de pertencimento. A Feira não se descaracterizou, pelo contrário, ela acompanhou toda a evolução e não perdeu este traço humano.

 

Patronato

 

Embora freqüente a Feira desde os 11 anos de idade, desde 1966, eu não tinha ideia do que era o patronato. E a cada dia vou ficando mais surpresa com isso. A Feira é das pessoas e em algum momento tens que personificar a Feira e isto se faz na figura do Patrono. As mensagens, os abraços das pessoas é muito lindo e muito curioso que as pessoas, quando têm alguma reclamação da Feira, vem fazer pra mim.

 

A literatura gaúcha

 

Durante muitos anos nós mantivemos uma espécie de orgulho gaúcho que dizia: aqui produzimos e aqui consumimos. E a gente tinha uma distribuição muito precária, que chegava até a divisa do Rio Grande. Felizmente acho que isto está mudando. O mercado do centro do país está nos olhando de uma outra forma. Durante muito tempo nos olhou como uma literatura regional e, portanto, deixa lá, ou é uma literatura secundária em relação ao que nós fazemos no centro. Era impossível falar de um autor sem fazer referência a um autor do centro do país, ao qual este autor local estaria alinhado. Estou vendo isto de uma forma muito alegre e feliz, tem que sair daqui a literatura riograndense. Um livro só cumpre seu destino de livro quanto mais pessoas ele puder encontrar. Acho que hoje o centro do país percebeu a importância da literatura que se faz aqui e há um interesse muito grande dos editores pelos nossos livros. Na Feira, no final de tarde é um momento que a gente encontra editores de todo o país e até internacionais. A Feira tem oportunizado este encontro livro-autor-leitor, mas também autor-livro-editor e boas parcerias se tiram daí.

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