Jane Roberta Pappen Vieira: “Digo para os meus filhos que eles também são filhos do Mercado”

A primeira vez que ela chegou ao Mercado, tinha nove anos. Nascida em 11 de outubro de 1979, veio para Porto Alegre com os pais Léo e Maria Pappen e o irmão Jonas em 1989. Léo é sócio da filha há 13 anos na loja Mercado Doce.

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Foto: Letícia Garcia

 

 

 

 

 

 

 

 “A história da minha família no Mercado começou com meu avô (Ernesto Rodrigues da Costa) há muitos e muitos anos. Ele é do interior, de Gramado Xavier, cidade vizinha de Boqueirão do Leão, onde eu nasci. Veio servir no quartel e vinha ao Mercado fazer compras e abastecer os alojamentos. Ficava fascinado com tudo o que via: o movimento, as pessoas, o comércio de tantas mercadorias diferentes. E ele sempre sonhava, quem sabe, um dia, em ter um cantinho dele aqui.” Anos se passaram e o avô Ernesto voltou para a terra natal, casou e teve seis filhas. Até que uma tia de Jane também casou e veio para Porto Alegre. Por intermédio de um conhecido e amigo, souberam que havia uma banca à venda. “Foram os primeiros a chegar aqui. Eu tinha uns cinco anos. Vieram trabalhar, voltaram com novidades. Tinham um trabalho mais tranquilo, enquanto a gente passava muito trabalho – meus pais eram agricultores, plantavam fumo.” Então Léo teve um problema grave de saúde e o médico pediu que ele se afastasse da lavoura. “Meu pai não sabia fazer outra coisa além de plantar. Foi então que a ideia de vir também para a cidade passou a rondar minha família”, conta Jane. “O pai veio trabalhar na banca de parentes e a mãe cuidava da casa, de mim e de meu irmão e fazia alguns bicos para ajudar nas despesas.”

DESCOBRINDO O MERCADO

Com o tempo, Léo teve outros negócios – restaurante, revenda de automóveis –, mas, como o avô de Jane, sempre desejou uma banca no Mercado. Até que a Banca 25 ficou à venda. Primeiro veio a mãe, em 2001, “sem nenhuma noção de comércio, mas tudo se aprende quando há força de vontade e persistência”, pontua Jane. “A mãe chamou eu e o mano para trabalhar com ela, e não pensamos duas vezes. Na época eu tinha 21 anos e prestava vestibular. Deixei os estudos e vim ajudar a mãe. Nunca mais saí daqui, adoro este lugar. Foi um aprendizado em todos os sentidos, uma verdadeira escola para todos nós.” Em 2003, surgiu a oportunidade de Jane ter sua própria loja, a atual Mercado Doce. “Viemos eu, meu pai e meu noivo (hoje marido) Ivan Konig Vieira para a banca 81. Na época não sabíamos que ramo colocar, aí tive a ideia de trabalharmos com doces e guloseimas – e minha sugestão foi aceita.” A banca tem uma grande variedade de doces. Em 2007, Ivan foi trabalhar no ramo de carnes, no Costelão do Mercado, e Jane permaneceu com seu pai no Mercado Doce.

LEMBRANÇAS DO MERCADO

Jane tem muitas lembranças do período que veio para a cidade. Como deixar para trás o cachorro de estimação Duque, que logo depois morreu de tristeza. “Achava que na cidade não podia ter animais”, conta. “Quando chegamos a Porto Alegre pela primeira vez, estava anoitecendo e viemos direto ao Mercado. Me encantei com tudo o que vi. Muita gente, muitas coisas para vender que eu nunca tinha visto, a mistura dos aromas das frutas, carnes e peixes.” Aquele movimento todo era impressionante para ela. Quando veio para o Mercado, ele não havia sido reformado ainda. Tudo era bem diferente. As bancas do centro eram de diversos ramos – peixarias, fiambrerias, frutas e até animais estavam à venda. “Tudo isso me marcou, ver coisas que eu nem sabia que existiam. Eu tinha nove anos, a idade da minha filha. Conto muitas coisas daqui para meus filhos, Isabel e Miguel, que adoram o Mercado, que me enche de orgulho. Passei minhas duas gestações aqui, trabalhei até os últimos dias.” Lembra também que, quando começou a trabalhar com a mãe na banca, a atual Banca 25, os clientes pediam produtos que eles não conheciam. “Mas tudo foi um grande aprendizado para nós. Tentávamos ler e descobrir tudo sobre os artigos vendidos. A força de vontade pode mover montanhas, tenho certeza”, diz.

PRIMEIRO, O CHIMARRÃO

De lá para cá, ela registra grandes mudanças: “Depois que nós chegamos, o Mercado foi reformado e modernizado. Acho que ele está mais organizado. Hoje, nós, lojistas, temos oportunidade de oferecer um mix maior de mercadorias e mais conforto aos clientes. Cada banca foi se adequando aos novos tempos”. A rotina é a mesma há 14 anos: chega antes das 7h, organiza a loja, atende fornecedores e entregadores de mercadorias. Mas faz uma ressalva: “O chimarrão em primeiro lugar, para começarmos bem o dia!”. E, claro, atende muitos clientes no decorrer do dia até as 19h. “Tentamos sempre ter um ambiente familiar e descontraído, para que todos se sintam bem aqui.” Trabalhar em família tem seu lado bom: “Tenho uma boa sintonia com o pai”. O dia deles é sempre corrido. Dizendo que o Mercado “é parte da sua vida”, Jane não consegue se imaginar fora dele. “Muitas lembranças e histórias levarei no coração, contarei aos netos um dia, mas, para mim, o momento mais marcante e triste foi o dia do incêndio. Nunca vou esquecer”, conta. “Mas também não me esquecerei do dia que ele reabriu: as pessoas vieram esperar os portões abrirem, chovia muito e, mesmo assim, tinha dezenas de pessoas ali. Entraram aplaudindo o Mercado Público, foi um momento muito emocionante para mim. Inesquecível.”

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