Ipanema, admirada no mundo e pela concorrência

Ipanema, admirada no mundo e pela concorrência

 

Ele vem de São João do Polêsine, próximo de Santa Maria. Eron Dal Molin, 46 anos, comunicador da Ipanema que já exerceu o cargo de gerente geral, mas abriu mão do cargo para poder ficar livre e fazer o que mais gosta – um trabalho mais artístico. Acha que errou na escolha da faculdade: fez propaganda e publicidade e depois se deu conta que deveria ter feito jornalismo ou direito. Trabalhou em agências de publicidade e logo estava fazendo rádio. Começou numa pequena rádio em Faxinal de Soturno e em Santa Maria nas rádios Guarathan e Atlântida de lá. “Uma questão de oportunidade, não posso dizer que foi uma identificação com o perfil da rádio”, constata. Em música começou com a Bandamole, hoje ataca com Myjonus Brothers, “um troço diferente”, brega com rock, fundindo músicas de Wando, Odair José, Nelson Ned, com Metallica, Coldplay, Guns and Roses, Police e outras pirações. Literatura: Sthepen King e Erico Veríssimo. Cinema: Groucho Marx, Carlitos, Peter Sellers. Mercado Público: brechós, livros, restaurantes e suplementos naturais.

 

 

Programas

 

     Comecei na Atlântida de Santa Maria em 1984. Já conhecia de ouvir falar. A gente vinha em excursões para Porto Alegre para shows e ouvia a Ipanema, meu Deus do céu! Eu pensava, é o que a gente faz lá, só que muito mais liberado, não tem que ficar tocando tais coisinhas porque é sucesso, me encantei com isso. Me formei e vim para Porto Alegre em 1987. Teve emprego justamente na Atlântida daqui. Aí passei a conhecer e conviver com muita gente que trabalhava aqui na Ipanema. O ouvinte imagina que o cara gosta daquilo que ele está fazendo. É que nem o músico tocando em baile, mas com o sonho de ter uma banda de metal. Tem muito isto com os locutores. Agora, é praticamente impossível alguém que trabalhe na Ipanema não gostar da Ipanema. É uma das poucas rádios onde o locutor faz o que quer.  Conheço vários colegas de outras rádios e o sonho deles é trabalhar aqui, é uma rádio muito ouvida pela concorrência. Enfim, estou na rádio que eu sonhava trabalhar, consegui realizar este sonho

 

 

A carreira de idas e vindas

 

     Só para ter uma ideia saí umas quatro vezes da Atlântida. Vivia sempre nesta gangorra entre teatro-rádio, rádio-teatro. Agora que eu tô quieto e espero conciliar as duas coisas. É a segunda vez que estou na Ipanema. Vim em 1999 quando a Kátia Suman saiu, depois de 16 anos, num stress com a antiga direção. Casualmente saí da Atlântida no mesmo período – foi uma troca grande que teve nas rádios, e o Bira Valdez, já falecido, me trouxe pra cá. Foi até um choque, pô um cara da Atlântida vindo pra Ipanema. Mas tinha gente aqui dentro que já eram meus amigos e diziam, “o cara trabalha na Atlântida, mas a praia dele é aqui mesmo”. E eu tinha um programa na Atlântida, o “Feras do Rock” que cheguei a fazer aqui também. Vim como gerente. De lá para cá passei pela Pop Rock, fiz  o “Cafezinho”, quando convivi com o Mauro Borba e o Arthur de Faria, que foram duas grandes amizades que fiz, e em 2009 o Meneghetti, que assumiu no lugar do Bira, me chamou de volta com uma proposta, foi irrecusável. Aí falei, se é assim com liberdade, “vombora” e tô aqui desde então. Mas como sou mambembe mesmo, em seguida cheguei pro Meneghetti e larguei uma bomba no colo dele: cara, não dá mais, não posso ficar como gestor. O que eu sempre quis é ficar quietinho no meu canto, tocando rock and roll. Mas poucas pessoas conseguem viver do que realmente gostam. Não quero ser gestor, estou com 46 anos, quero ficar só na parte artística.

 

 

 

Público e Ipanema            

 

     A Ipanema é uma jóia, sou um apaixonado, sempre fui ouvinte. É uma rádio admirada no mundo, atualizada e conectada com todos os meios. A gente tem contato com gente de fora. É a única rádio onde a parte artística é 99 por cento liberada, a loucura não é total, mas é quase. A Ipanema é um case, o anunciante tem audiência e essa loucuragem tem respaldo do ouvinte. Os caras de São Paulo vêm pra cá e dizem “vocês estão loucos!” As próprias rádios que eram assim, morreram – a 97, foi pra “banha”, a Fluminense, do Rio de Janeiro, que nasceu no mesmo ano da Ipanema, em 83, fechou também. Aqui talvez tenha um tipo de público que não tem em outros lugares. É um milagre sustentar isto durante 27 anos.

 

Paixão pelo rádio

 

     Me considero  muito profissional, toco o que eu acho que o público  merece ouvir. Tenho responsabilidade de saber quem que estou atingindo. Eu preciso agradar a mim, não tenho vergonha de nada que toco. Um exemplo: pedem Chico Buarque, eu não gosto, sei que é uma puta música, respeito, vejo qualidade então, eu toco. Agora, se me pedissem Ivete, não toco. Canta bem, mas pra mim não tem valor musical. O que mais toco é aquilo que eu mais curto e que eu acho que o ouvinte merece ouvir nesse horário. Temos contato com as pessoas e sabemos o que elas gostam de ouvir. Muitos ouvintes me pedem coisas pesadas de manhã cedo e fico tentado, mas me seguro o quanto posso. Nessa hora a grande maioria tá no carro indo pro trabalho, ou com a família. Procuro tocar música boa, de qualidade, que agregue o maior número de ouvintes.

 

 

Preferências musicais

 

     Metal em primeiro lugar e rock tradicional clássico, Beatles, Stones, Pink Floyd, toda essa efervescência criativa dos anos 60, 70.  Tem muita banda que consegue ser nova e boa, Kings of Leon, por exemplo. Quando toca, já se sabe quem é. Isto está cada vez mais difícil. Mas não é só rock que aprendi aqui na Ipanema. Aqui tem uma troca muito grande de informação. Eu não conhecia nada de reggae. Hoje consigo ser metaleiro e regueiro. Eu procuro tocar outras coisas, música boa. O importante é nunca perder esta veia de vanguarda, de estar à frente. Não pode parar no tempo, senão vira um museu. Não quero ser óbvio, me policio para tocar as chamadas bandas confirmadas, raramente pedem novidades. O critério, em primeiro lugar, é se tu acha bom e se os ouvintes merecem ouvir. Se é velho, se é novo, se é rock, se é reggae, tudo vem depois de ser bom. Isso é o que importa. É fácil saber o que é bom do passado, difícil é pegar uma coisa nova e saber se é bom. Um exercício que faço pra saber, é ouvir um som novo imaginando se vou querer tocar daqui há 5 anos. Funciona.

 

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