Indígenas no Sul

Dentre as muitas histórias que formam o Rio Grande do Sul está a indígena, múltipla e diversa. As suas heranças estão no nosso cotidiano e existem comunidades presentes em todo estado. Nesta segunda matéria, que encerra a abordagem sobre os povos indígenas do RS, trago relações, legados e ações que valorizam e preservam os saberes nativos atualmente.

 

CULTURA GAÚCHA, por Letícia Garcia

Charrua*, guarani, kaingang, minuano e xokleng: é das interações entre esses povos indígenas e com as demais etnias que se construíram as características regionais do RS. “É preciso haver um conhecimento dessas diferentes culturas e dessas cinco matrizes étnicas do estado”, destaca Rodrigo Venzon, coordenador institucional do Conselho Estadual dos Povos Indígenas (Cepi) do RS. “Não existe um gaúcho: existe uma multiplicidade de relações a nível regional. É importante recontar essa história das relações entre os povos indígenas e com as outras populações que chegaram nessas regiões.”

Uma das heranças dessas inter-relações está na alimentação. Muitos ingredientes da gastronomia rio-grandense (e brasileira) são plantas domesticadas pelos indígenas. “A nossa alimentação tem muito a ver com a alimentação guarani: feijão, milho, mandioca, batata doce, amendoim”, explica Rodrigo. “Além dos alimentos indígenas propriamente ditos, temos alimentos sincréticos: broa de polvilho, bolo de fubá, pé de moleque, canjica, polenta e feijoada demonstram uma interação dos alimentos de origem indígena com as culturas europeias e africanas.”

 

Gauchismo

“A nossa mais popular bebida, que é o mate ou chimarrão, foi uma cultura que os gaúchos argentinos, uruguaios e rio-grandenses absorveram dos hábitos dos índios guaranis”, destaca Cláudio Knierim, historiador, pesquisador e professor de História. Apesar disso, a presença indígena ainda é tímida no gauchismo: na história de Sepé Tiaraju, em algumas pesquisas de Barbosa Lessa e na vertente artística do missioneirismo, principalmente. “A contribuição dos povos indígenas na cultura e identidade do gaúcho é, em grande parte, fruto de uma produção intelectual de seleção de elementos pinçados ou escolhidos meticulosamente durante um longo processo de construção da história sul-rio-grandense”, pondera Cláudio. “Nesse processo, muitos elementos da cultura desses povos foram, de forma voluntária ou não, esquecidos ou deixados de lado na contribuição identitária do gauchismo.”

 

Foto: Eduardo Rocha/Projeto Influência

Comunidades

Existem hoje cerca de 34 mil indígenas organizados em mais de uma centena de comunidades no RS, principalmente no alto Uruguai. Em Porto Alegre, são cinco aldeias kaingang, três guarani e uma charrua. Há uma grande circulação de indígenas que vem do interior tanto por questões de saúde quanto de comércio: existe toda uma rede familiar de trocas. A interação com a população urbana se dá, principalmente, por meio do artesanato, que lhes permite o acesso à renda.

Apenas recentemente os indígenas conquistaram a oportunidade de constituir comunidades nos seus antigos territórios. “São pequenos espaços, como todos os outros espaços indígenas no estado, mas demonstram pontinhos no território para o modo de viver dos indígenas. A manutenção desse modo de viver tem sido impactada pela expansão da urbanização, que acaba destruindo as áreas naturais que ainda existem”, diz Rodrigo. “Por fazerem o manejo ambiental, é importante que esses ambientes sejam mantidos enquanto espaços naturais, para a própria saúde do ambiente urbano”, avalia.

 

Meio ambiente

Esse manejo é uma das principais características dos povos autóctones: a adaptação aos ambientes, e não a sua transformação. “Os povos pesquisaram a biodiversidade de cada região e adensaram ao que já existia”, conta Rodrigo. Exemplos são a araucária, uma árvore em grande parte cultivada pelos kaingang e xokleng, assim como o coqueiro jerivá, cultivado pelos guarani.

Para Rodrigo, a manutenção do modo de viver indígena está ligada à própria sobrevivência sustentável, preservando o meio ambiente para as próximas gerações. “Apesar de vermos interesses anti-indígenas, acredito que eles são segmentados, de alguns grupos ou pessoas que não pensam na própria sustentabilidade, pois uma contribuição fundamental dos indígenas é no equilíbrio ambiental do planeta: a maioria das áreas ambientalmente preservadas o são exatamente porque existem indígenas que cuidam delas”, analisa. “Acredito que tem lugar para todo mundo e os espaços onde os indígenas mantêm vínculos de relação com a terra precisam ser respeitados.”

 

Preservação

Em 2007, a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas estabeleceu diretrizes no plano internacional, como o direito de autonomia e de autodeterminação. Um grande passo para essas sociedades e a sua forma própria de fazer política, economia e cultura.

A resistência cultural desses povos é antiga, mas as conquistas políticas são bem recentes. Rodrigo lembra que, antes da Constituição Federal de 1988, essas populações eram vitimadas por políticas de tutela: o Estado, que deveria protegê-los, explorava as suas terras e a sua mão de obra. Apenas nas últimas décadas houve alguma reparação: foram devolvidos às comunidades indígenas cerca de 20 mil hectares de terras colonizadas (sendo que o Estado indenizou os agricultores retirados para que refizessem o seu trabalho em outra região).

A melhora também é sentida na constituição de escolas indígenas, na maior manifestação da sua cultura e na presença indígena em universidades, seja como fonte de pesquisa ou, efetivamente, como pesquisadores. “Em geral, tem-se avançado pela própria luta dos indígenas, que, mesmo com toda a pressão contrária, é muito pacífica: eles conseguem avançar na constituição de políticas públicas e no reconhecimento de terras mesmo que leve muito tempo”, diz Rodrigo.

 

Reconhecimento e diálogo

O reconhecimento da história e da presença desses povos na cultura regional é tão importante que, em 2008, foi instituída a Lei nº 11.645, que incluiu no currículo oficial da rede de ensino fundamental e médio o tema “História e cultura afro-brasileira e indígena”. “É mais um esforço para que consigamos incorporar ao nosso processo educativo e civilizatório conhecimentos da diversidade cultural brasileira”, avalia Cláudio. “Mas ainda existe um longo caminho para percorrer até que a sociedade perceba e atribua valor e importância à contribuição dos indígenas e africanos. Exposições em museus, publicações de fácil acesso, produção de filmes e minisséries poderão ser movimentos que ajudem a popularizar esses conhecimentos.” Para Rodrigo, também é fundamental dialogar com os próprios povos indígenas que existem, no sentido de compartilhar esses conhecimentos a partir do ponto de vista deles, pois muito pouco está registrado por escrito.

 

*Na grafia adotada pelos estudiosos do tema, não há plural nas palavras indígenas. Portanto, “os charrua”, “os guarani” e assim por diante.

 

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