Ildo Pozzebon: “O Mercado foi uma escola de vida para mim”

PERSONAGEM

Ildo Pozzebon: “O Mercado foi uma escola de vida para mim”

“Vim para o Mercado em 1980. Quer saber o dia? 21 de julho. No outro dia eu já estava trabalhando”, Ildo lembra-se bem do jovem de 26 anos, que veio diretamente de Progresso, para trabalhar na Banca 24, de Luís Salami naqueles heróicos tempos de Mercado. Em todos esses anos viu muita gente entrar e sair de lá. Mas o importante é que aprendeu muita coisa, desde o seu ofício, até tratar com os clientes. Muito disposto, se diz um guri até hoje. “No começo foi difícil, acostumado lá fora, mas aguentei firme”, diz.

    Assim como muitos no Mercado, Ildo veio seguindo os irmãos que já estavam aqui. O mais velho trabalhava na Banca, e conta que Salami sempre insistia para que ele também viesse, o que acabou acontecendo então no início dos anos 80. A Banca era onde ficam os quadrantes de frutas atualmente.  Ele conta que veio, de ônibus, direto para o seu futuro emprego, para trabalhar com seu futuro patrão, Salami. Inicialmente foi morar no bairro Petrópolis, com os outros irmãos que não trabalhavam no Mercado. Ali ficou três anos e depois mudou-se para Cachoeirinha, onde está até hoje, sempre sozinho, porque nunca se casou. “Está bom assim”, brinca ele. A banca era um açougue, que naquela época proliferavam no Mercado, com mais de 20 deles. Acha que muito pouco mudou na rotina dos açougues de lá para cá. A Banca 24 comercializava todo o tipo de carne – ovelha, gado, galinha, porco, carneiro. A única coisa diferente foi a crise de escassez de carne, em meados da década de 80. Nesse período trabalhava até o meio dia, uma hora da tarde. Fechava porque não tinha mais carne para vender.

Progredindo no Mercado

     O tempo foi passando e o então jovem de Progresso passou a justificar o nome do seu município: começou a crescer e progredir no Mercado. Em 1986, saiu da Banca 24 e comprou um açougue em sociedade com Salami. O estabelecimento ficava, então, nos fundos onde hoje é o bar/restaurante Nova Vida, ao lado da Peixaria São Pedro, que depois da reforma deu lugar à Banca 40. Sobre a diminuição do número de açougues no Mercado Público, Ildo lembra que isto se deve, muito possivelmente, aos novos empreedimentos na cidade, como supermercados e shoppings. E também ao número de açougues que foram se instalando nos bairros. “Antigamente não tinha muitos lugares, vinham procurar carne aqui no Mercado’. Dos mais de vinte açougues do Mercado, restaram apenas sete hoje. Na nova banca, depois de comprar, finalmente, em 2001 a parte do sócio Salami, Ildo ficou até 1996, quando veio a grande reforma do Mercado. Depois dela fixou-se definitivamente, onde está até hoje, junto à avenida Júlio de Castilhos. Ou seja, ele sempre trabalhou com carne – arrumando, cortando ou atendendo no balcão, que é o que ele mais gosta de fazer, atendendo os clientes.

A gratidão ao Mercado

     Sempre solteiro, sem filhos, aproveitou a juventude de “sair por aí, de vez em quando”. Mas não chegou a ter uma vida propriamente boêmia. Por exemplo, não conheceu o famoso Treviso, referência da noite naqueles anos de Mercado. As mudanças? “Acho que o Mercado hoje está melhor, mais limpo e seguro”. Para trabalhar com a carne considera que está tudo a mesma coisa, mas registra que “antigamente se vendia muito mais”. E que melhorou, em termos financeiros, para ele depois que ficou sozinho no negócio, sem sócios. Considera-se realizado com o seu trabalho e os muitos amigos que fez no Mercado. “Isto aqui representa tudo na minha vida. Se não fosse o Mercado não sei, acho que não saberia fazer outra coisa, seria muito difícil. E tenho amizade com todo mundo”, afirma. Amizade que também se mistura com negócios: ele atende vários restaurantes e bares do Mercado, que são abastecidos de carne pelo seu açougue. Gambrinus, Taberna 32, Marco Zero, são alguns deles. “Normalmente eles já sabem o que querem. Ligam pedindo o que querem, e a gente manda”, informa.

Dedicação completa ao trabalho

     Para dar conta do seu trabalho intenso e diário, nosso personagem chega todos os dias no Mercado às cinco e meia da manhã. A primeira coisa que faz é um chimarrão. “Os guris já vão arrumando o balcão, fazendo os pedidos e atendendo os clientes que começam a chegar a partir das seis da manhã”, relata ele. Ali pelas sete horas, o café, quando já tira uma febre de como será o dia. “Dependendo do dia, o movimento é forte. Mas na maioria dos dias é sempre bom. E quando é fraco, é fraco para todos”. Assim corre a manhã. Na hora do almoço, é sempre o último, primeiro vão os funcionários. A tarde também é sem maiores transtornos. E os dias de movimento mais forte são sexta-feira e sábado. E, como nos velhos tempos, ainda abre aos domingos de manhã, embora já não trabalhe com a mesma intensidade. “Fico algumas horas e vou embora”, diz. Hoje, mais de 30 anos depois, reconhece que aprendeu tudo com o Mercado, até fazer contas. “A primeira coisa que aprendi foi a tratar com os clientes. Para mim, isto aqui foi uma faculdade”, resume. O segredo? Trabalhar e ter muita paciência.

Foto: Fabrício Scalco

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