Iara Fátima Rufino: “É um orgulho estar no Mercado”

Liderança comunitária, nascida em 21 de agosto de 1956, natural de Carazinho/RS, casada, três filhos, está à frente da sorveteria e cafeteria Beijo Frio, consagrada pelos seus sorvetes artesanais, da Associação de Mulheres Solidárias da Zona Norte, loja que se instalou no Mercado Público em 2009. Mas antes passou por uma longa trajetória e lutas na chamada economia solidária, que acabou lhe abrindo caminhos para essa chegada no secular Mercado.

 

Foto: Letícia Garcia

“Nós éramos um grupo de mulheres, no ano de 2000, todas desempregadas, de pouca escolaridade, feirantes. Começamos a trabalhar no Fórum Social Mundial. Nesse meio tempo, a gente se registrou como uma associação. Começamos fazendo pizzas e tortas. E aí compramos uma máquina de sorvete, porque até então a gente só vendia sorvete de terceiros. Começamos a fazer feiras com sorvete.” Resultado: nas feiras seguintes, passaram a incluir também o sorvete. Foi na tradicional Feira do Pêssego de Porto Alegre, da Vila Nova, que tiveram o maior sucesso, com um sorvete de pêssego de receita própria que ficou famoso. “Até hoje nós estamos lá (na Feira) e temos clientes que compram caixas fechadas para levar para casa. Mas o que nós queríamos mesmo era um espaço fixo, centralizado.” O primeiro contato foi com Adeli Sell, então secretário da extinta Secretaria Municipal de Produção, Indústria e Comércio (SMIC), mas o anseio só foi ser atendido na gestão do ex-prefeito José Fogaça, com o secretário Idenir Cecchim. “Ele nos chamou e nós acabamos entrando no Mercado.”

 

A difícil chegada ao Mercado

Ela lembra bem daquela chegada em 2009: “A gente achava que não ia ter sucesso aqui. Ainda nos perguntaram: ‘Qual tamanho do espaço que vocês querem?’. A gente estava acostumada com espaços de 4 x 4 m e nos deram uma sala de 30 m² — nos sentimos realizadas! Aí montamos uma loja muito bem montada, era um espaço bem aconchegante. Ninguém dava nada por nós, os próprios permissionários olhavam para a gente um pouco assustados: ‘Como?’. Mas tiramos de letra, e hoje temos um bom relacionamento com eles, temos respeito dos dois lados. Hoje vemos que não tem diferença, mas, quando chegamos, a gente sentia a diferença na flor da pele.” Felizmente, hoje a situação é bem diferente, diz. A aproximação foi natural e a integração veio aos poucos. “Estamos aqui para trabalhar, sem conflitos com ninguém. E o nosso sorvete, graças a Deus, é um sucesso.” A Associação continua com os sorvetes, pizzas (estas, mais para os grandes eventos, que, por sua vez, também estão mais escassos). A tapioca é a mais recente novidade. As expectativas se concentram na Feira do Pêssego, em novembro, na Feira da Economia Solidária e na Feira dos Navegantes de 2019.

 

Inspiração do nome

Com o incêndio de 2013, tudo mudou. Assim como as outras lojas do piso superior que foram atingidas pelo fogo, a Beijo Frio está alojada temporariamente no Espaço de Eventos, no andar térreo. “Aqui é apertado, não é aconchegante. Não estamos bem localizados — não só a gente, mas os outros colegas também. Mas acredito que tudo vai dar certo e estamos torcendo para voltarmos novamente ao nosso lugar.” As perspectivas são as melhores: a nova loja vai ser maior, com 90 m², terá um espaço de reuniões (especialmente para o movimento negro, que procura muito a banca) e um espaço de leitura, onde os clientes poderão sentar, tomar um cafezinho, ler jornais. Além disso, um buffet de tortas. “Estamos sonhando grande, em dar um passo a mais, não estamos mais pequenos.” O nome “Beijo Frio” veio de uma sorveteria de João Pessoa, na Paraíba, num evento do qual Iara participou representando as Promotoras Legais Populares do RS em 2000. “Fui numa sorveteria chamada Beijo Frio, achei interessante esse nome. Na volta, a primeira feira que fiz da Economia Solidária aqui, coloquei a placa ‘Beijo Frio’. O pessoal olhava para ela e para nós. Aí eu disse: ‘Beijo Frio é só o nosso sorvete, o resto é tudo normal. E pegou!”

 

Origens mercadeiras

O mundo mercadeiro não é exatamente uma novidade para ela. O seu pai, Pedro Marques, tinha duas bancas no antigo Mercado Livre, onde hoje está situada a estação Mercado do Trensurb. “Então eu sou filha de feirante, permissionário antigo. Eu me criei nesse meio. O meu pai era chamado aqui dentro de ‘inspetor Marques’, tinha as bancas 1 e 2, de abacate. Quando era a safra do abacate, a gente ficava em Porto Alegre, e quando acabava, ia para o interior.” Família de quatro irmãos, ela foi a única que seguiu no ramo mercadeiro. “Feirante, ambulante (em 1998, teve uma banca de frutas na Av. Assis Brasil), sou só eu, porque andava sempre com ele. Só não era frequentadora do Mercado Público, mas vinha sempre comprar peixe, única carne que ele comia.” Assim como muitos mercadeiros, ela aponta o último incêndio como o acontecimento mais marcante que vivenciou no Mercado. Mas, agora, tudo é muita esperança de voltar para o seu espaço. “Lá em cima é outro nível de ambiente, higiene, uma coisa mais aconchegante, para nós e para nossos clientes. Nós queremos, todos aqui, voltar para a nossa casa.” Para ela, o Mercado Público é o coração da cidade. “É um orgulho estar aqui dentro, compartilhando junto com os outros mercadeiros. Para entrar aqui dentro é bem difícil, mas para sair é muito fácil. A gente entrou aqui não sei como. O que nos trouxe para cá não fui eu, nem a Associação, e sim nossos produtos, nossos sorvetes, que são muito bem quistos.”

 

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