Histórias com o Mercado

Concurso cultural “Minha história com o Mercado” premiou os três melhores textos de frequentadores, que agora são publicados aqui no JM.

 

A relação das pessoas com o Mercado Público é sempre repleta de lembranças, alegrias e saudade, e foi pensando em reunir os relatos dos frequentadores e visitantes que a Associação do Comércio do Mercado Público Central (Ascomepc), que representa os mercadeiros, lançou o concurso “Minha história com o Mercado”. Destacar essas histórias foi uma forma para também celebrar os 150 anos do prédio histórico.

Os textos foram avaliados por uma banca julgadora formada por membros da Ascomepc e jornalistas convidados da Rádio Guaíba, do SBT e do Jornal do Mercado. Todos os textos participantes estiveram expostos pelo Mercado no dia 3 de outubro, durante a festa de aniversário do Mercadão, e, neste mesmo dia, os três vencedores foram anunciados: Benjamin Borsatto, Gisele Santos e Luciamem Winck. “A motivação foi espontânea e instantânea”, conta Benjamin. “Em cinco minutos, escrevi o texto. Se tivesse que repetir a experiência, talvez teria um resultado insatisfatório — foi pura inspiração. É uma história real que vivi nos anos 1970, quando era estudante”, acrescenta, dizendo ter sido gratificante compartilhar a sua história.

Os vencedores receberam como prêmio uma cesta com produtos tradicionais do Mercado cada um, além da publicação da sua história nesta edição do JM, que você confere a seguir*.

 

O mondongo do Mercado Público Central

Por Benjamin Borsatto

Eram tempos especiais, difíceis e radicais. Foi no tempo de estudante universitário. Vindo do interior, deslumbrado com a capital do Estado. A referência no centro da cidade era o Mercado Público. Todos os caminhos passavam por ele.

As bancas, que eram tantas, agora talvez não mais, eram alvo de miragem na densidade das mercadorias.

Quando a fome apertava e o dinheiro era escasso: de noite, na Voluntários da Pátria, a carrocinha vendia cachorro-quente. Uma pequena caixa de som repetia — “olha o cachorrinho, olha o cachorrinho, por um cruzeiro… Olha o cachorrinho”.

No almoço, o possível com pouco dinheiro era um prato de mondongo, que era servido num bar do Mercado, bem na saída da parada do Trensurb. Bem, aí tem uma controvérsia: é saída ou entrada? Isso não importa agora, o que vale falar é do mondongo.

A comida vinha acompanhada com um pouco de tempero verde, queijo ralado e algumas fatias de pão. Mas o que mesmo valia era o caldo, que era saboroso, quentinho, dourado, aromático, enfim, o melhor dos alimentos em tempos de penúria.

Quando a barriga ronca, quando a cabeça doí, é sinal de fome mesmo. Sim, quando se tem fome, os olhos se dilatam e bate uma tontura…

É claro, o dinheiro dava para servir somente uma vez. Mas os olhos, o estômago, o paladar sentiam vontade de devorar vários pratos de mondongo.

O mondongo do Mercado Público Central era o melhor mondongo do mundo.

 

 

O Mercado Público de Porto Alegre mudou a minha vida

Por Gisele Santos

 

Minha história com o Mercado Público começou em 2011. Eu sou natural de Laguna/SC e minha mãe precisou vir a Porto Alegre colocar uma prótese de quadril. Era para ser um mês de recuperação, porém, por causa da depressão, o médico avisou que a recuperação dela ia durar bem mais, em torno de seis meses. Fiquei um pouco desesperada, pois eu não sabia o que ia ficar fazendo seis meses em Porto Alegre, apesar de meu namorado, hoje meu marido, já estar morando aqui, mas, naquele momento, não era minha pretensão me mudar pra cá.

Depois de um tempo, já conformada que iria ter que ficar aqui mais tempo do que o previsto, um dia ele me levou para passear no Mercado Público, porque eu estava chateada, e, andando pelo Mercado, me deparo com uma placa onde estava escrito “curso de alfajores”.

Me encantei porque era um dos doces que meu pai mais gostava e aquilo que encheu de alegria, saber que eu poderia aprender algo que nunca imaginei. Me inscrevi, fiz o curso e, logo após o término da aula, já comprei os ingredientes no Mercado Público mesmo e, chegando em casa, coloquei em prática o que aprendi, para não esquecer. Ofereci para o pessoal do prédio e todos adoraram. No outro dia, meu marido levou para o trabalho dele e o pessoal amou, e foi aí que comecei a fazer pra vender.

Um dia, resolvi sair pela Cidade Baixa para vender nos estabelecimentos e então entrei numa loja. A proprietária gostou e me perguntou se eu poderia fazer em versão mini para um coquetel que iria oferecer aos clientes, e eu disse que sim, mesmo sem ter ideia de como faria os alfajores numa versão menor. Cheguei em casa, arregacei as mangas, procurei algum utensílio que pudesse cortá-lo no tamanho que considerava ideal e, desde então, nunca mais parei de trabalhar com doces. O minialfajor virou um sucesso, eu vendia muitos e muitos por semana. Após isso, comecei a fazer outros cursos de doces, porque eu descobri a Comercial Martini, a loja do coelhinho, loja da “Adri”.

A Adri, inclusive, virou minha grande amiga e incentivadora, além de um dos presentes que o Mercado Público me deu. Aí então comecei a comprar mercadorias na loja dela e ganhava cursos. Não parei mais e trabalho com doces até hoje, sendo que o que mais vendo atualmente são brigadeiros, que vim a fazer um tempo depois dos alfajores. Descobri em mim um talento para gastronomia na área da confeitaria por causa do Mercado Público de Porto Alegre, uma vez que, até então, nunca tinha trabalhado com comida e nunca tinha feito nada para vender e nem me achava capaz.

Realmente, isso mudou a minha vida e eu acabei me mudando pra cá de vez, pois foi um negócio mais promissor ao que eu fazia em Laguna. Provavelmente lá não ia ter muita evolução, tanto que vivo disso até hoje e é algo que eu consigo fazer em casa e ficar com minha mãe, que ainda precisa de cuidados, ter a minha renda e fazer algo que amo e descobri por acaso. Portanto, a minha história com o Mercado é que ele realmente mudou a minha vida. Mudei de profissão, de cidade e me descobri confeiteira. O Mercado Público, então, tem uma parcela importante na virada que a minha vida deu para “muito melhor”. Sou muito grata por isso.

 

 

Presente precioso

Por Luciamem Winck

 

Sempre que percorro as alamedas internas do Mercado Público, sinto renascer uma saudade infinita. É como se embarcasse no túnel do tempo, sendo lançada rapidamente de 2019 para 1980. Em pensamento, deixo a modernidade, recheada de avanços tecnológicos e redes sociais, para voltar ao passado. Eu com 16 anos e meu pai, Jairo Winck, com 38 anos. Sim, foi no dia 10 de dezembro — data em que comemorei meu 16° aniversário — que conheci a Banca 40 e fui presenteada com uma Bomba Royal (sobremesa que leva três sabores de sorvete, frutas e uma porção generosa de nata).

Servidor público municipal, meu pai passava por dificuldades financeiras. O dinheiro que tinha na carteira foi reservado para me dar o melhor presente que eu poderia receber naquele dia: a Bomba Royal e a atenção de meu pai, que deu uma “fugidinha” da Prefeitura para passear comigo. O momento foi tão especial que, passados 39 anos, nunca esqueci. E depois desse dia, foram infinitas as vezes em que visitamos a Banca 40 para comer salada de frutas com sorvete. Ah, e quase esqueci de mencionar algo muito importante: tomar a água geladinha ofertada pelos atendentes.

Hoje, sigo frequentando a Banca 40. Procuro sentar em local estratégico a fim de que as pessoas não percebam as lágrimas deslizando em minha face. Continuo comendo o “meu presente precioso”, mas sem a companhia que lá me levava todas as sextas-feiras para saboreá-lo. Meu pai partiu há 25 anos. O tempo passou. Mas sempre que visito o Mercado Público tenho a esperança de encontrá-lo me aguardando na Banca 40. E para lá sigo. Por vezes me emociono. Afinal, a saudade cresce a cada dia.

Mas acabo saboreando a salada de frutas por nós dois. E fico a divagar. O pensamento voa na mesma velocidade em que o tempo passa. Ah, se eu pudesse voltar ao passado. Um tempo bom, onde os pais conversavam com os filhos. Hoje, cada vez usamos mais os telefones celulares. Mas, ao mesmo tempo, eles estão se transformando em um dos principais obstáculos para a comunicação interpessoal. Os celulares nos aproximam dos que estão longe, mas cada vez nos afastam mais dos que estão perto…

 

* Textos publicados em ordem alfabética do primeiro nome do autor. Não houve 1º, 2º e 3º lugares: a premiação contemplou igualmente os três vencedores.

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