História negra resgatada

A cultura negra está presente desde o início da ocupação das terras do RS e tem heranças que vão da culinária até manifestações regionais atuais, como detalhei na edição passada do JM. Nesta segunda parte, um olhar sobre o modo como foi registrada a história dos povos negros no estado ao longo do tempo. A matéria faz parte da série sobre as culturas presentes na formação histórica do RS.

 

CULTURA GAÚCHA, por Letícia Garcia

Foto: Dazzle Jam/Nappy

Por muitos anos, a historiografia oficial relativizou a presença do povo negro e até mesmo o processo de escravidão no RS, muito baseado no relato do naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire que, no século XIX, escreveu que no estado “os negros são tratados com brandura”. “O Rio Grande do Sul sempre tentou firmar-se como uma sociedade constituída preponderantemente por lusitanos, alemães, italianos, poloneses e outros imigrantes europeus, negando ou minimizando a participação dos negros e dos indígenas. Esse foi um discurso hegemônico habilmente elaborado e amparado nos pressupostos do racialismo científico”, explica Cláudio Knierim, professor de História e pesquisador da área.

“Dentro de um sistema racista, o valor do ser humano não é determinado por sua construção histórica e antropológica, mas sim pelo seu pertencimento a uma ‘nação racial coletiva’. A literatura regionalista, as narrativas da história local e a construção do regionalismo gaúcho são estruturados no final do século XIX e início do século XX, quando essas teorias estavam na moda. Portanto, a estruturação da nossa historiografia regional ocorre sob a égide das teorias do racialismo científico.”

Para inverter esse paulatino apagamento da memória negra no RS, estudos passaram a recuperar versões históricas, rompendo a visão de democracia racial estancieira e o discurso historiográfico dominante, que negava o uso de mão de obra negra escravizada. Talvez a pesquisa mais importante nesse sentido seja a de Fernando Henrique Cardoso, “Capitalismo e escravidão no Brasil Meridional” (1962).

“No momento da sua publicação, a obra sofreu duríssimas críticas dos setores tradicionais que pretendiam manter escondido debaixo do poncho o preconceito racial e as desigualdades existentes entre brancos e negros na sociedade rio-grandense”, destaca Cláudio. A partir disso, passou-se a estudar a presença do negro escravizado, que era a base da economia capitalista rio-grandense.

“Por conta do mito da democracia racial, tentou-se, por muito tempo, amenizar este processo, como se pudesse haver situação amena na ausência de liberdade e no trabalho forçado”, diz Lúcia Regina Brito Pereira, historiadora, professora e escritora sobre o tema.

 

Escravidão e a formação do gaúcho

O trabalho do povo negro está nas construções de ruas, avenidas e prédios, inclusive o próprio Mercado Público. “Por vezes nos esquecemos que os lindos prédios históricos que admiramos foram construídos pelos negros. Admiramos a arquitetura, os nomes estrangeiros de seus idealizadores, mas os trabalhadores permanecem incógnitos”, ressalta Lúcia. Durante o período escravocrata, uma das formas de resistência mais difundidas eram os quilombos, entre eles o quilombo pastoril.

Nele, revela Cláudio, “os negros abatiam o gado selvagem, extraíam o couro, os chifres e outros acessórios para vendê-los aos aventureiros portugueses ou castelhanos. Abrigavam nos seus quilombos brancos e índios, mas mantinham o controle da comunidade e do processo de produção. O gaúcho foi o tipo étnico e social produzido por tais quilombos”.

Mesmo assim, o mito de formação do tipo gaúcho não inclui o povo negro. Por quê? “Não é possível incluir o escravo na construção de um mito de liberdade”, resume Pedro Vargas, historiador, museólogo e um dos idealizadores do Museu do Percurso do Negro em Porto Alegre. A presença do negro escravizado foi relativizada, por exemplo, nas fazendas da campanha, nas quais é destacado já o gaúcho como mão de obra.

Ao mesmo tempo, a ideia de trabalho é ligada aos imigrantes europeus, secundários a esse mito. “Então foi preciso desconstruir o negro escravizado como trabalhador e construir para ele a figura de um ‘malandro’, ‘preguiçoso’. É uma coisa meio fora do lugar”, avalia Pedro. “A população negra também é responsável pelo desenvolvimento do estado. O falado mito da democracia racial não faz jus a essa participação”, acrescenta Lúcia. Felizmente, essa história está sendo revista — e recontada. Como no caso do Massacre dos Porongos, que abordarei na terceira e última parte da matéria, na próxima edição.

COMENTÁRIOS