História das Bancas: os “tomateiros” do Mercado

Antes da reforma, eles ficavam exatamente nas quatro entradas do Mercado Público com suas pequenas banquinhas, o que conferia um aspecto típico do comércio popular e informal, característica básica dos mercados e feiras. Após a reforma as oito banquinhas foram agrupadas em um dos corredores centrais do Mercado, mais precisamente em frente à banca 26. No começo muitos estranharam, mas aos poucos foram se acostumando com os antigos “tomateiros”, (assim chamados porque antes só podiam vender tomate) hoje enfileirados um atrás do outro, nas 8 bancas. Continuam conhecidos como “tomateiros” do Mercado. Lidam diretamente com o público, chamando os fregueses, como os verdureiros que ficam no lado externo do Mercado. Hoje em suas bancas se encontram mais coisas, além do tomate: batata, cenoura, alho, moranga, pimentão, vagem, chá. E muito mais.

Eloici Pereira, conhecido como Bagé, tem 43 anos de Mercado, é proprietário do Box 3. Está ali desde antes da reforma do Mercado. Já tinha duas banquinhas, mas também trabalhou como garçom e gerente em estabelecimentos no Mercado. “Antes 95% do Mercado era de restaurantes”, informa. Conta que naquela época vendiam tomate, alho, cebola, sacola de ráfia, chás. Acha que foi uma troca para melhor. “A minha vida foi na volta do Mercado”, conclui.

Já Eli Pereira dos Santos, do Box 8, está há 23 anos no Mercado e também pegou o tempo em que se trabalhava no lado externo, no caso dele, vendendo sacolas, perto do Café Pan Americano. Os que ali trabalham contam que passaram muitas dificuldades na época da reforma, praticamente  sem ganhar nada, “tendo que se virar por outros lados.” Contam que tinha dias que vendiam 10, 15 reais. Acham que a reforma durou tempo demais e todo mês continuavam pagando aluguel e ainda enfrentavam um mês de contribuição. Também não esquecem que todas as ban­quinhas foram colocadas no andar superior do Mercado, numa loja só, que nem reformada estava. “Deu até inimizade entre nós. Teve gente até que desistiu”, conta Eli.

A dura vida de um “tomateiro”
Cláudio está há 40 anos no Mercado, quando comprou uma banquinha ao lado da Borges. Depois passou para o lado do Largo Glenio Peres. Eli diz que dava um “movi­mentão” e um bom dinheiro. Hoje nem se compara, tem muitas despesas, porque agora é obrigado a ter firma registrada – contador e outros tributos, mais aluguel do Mercado.  Para ele tudo começou a piorar quando saíram os ônibus do atual Largo Glenio Peres. “Caiu 50% do movimento. E hoje está caindo o movimento no Mercado, com o remanejo dos ônibus. E com essa política de tirar os ônibus do centro, vai piorar ainda mais. O que está acabando com a gente também são os supermercados com estacionamento.” Reclama que hoje, quando chega um cliente com carro, logo é importunado por dois ou três “guardadores”. Claudio foi o primeiro deles a ter chegado no Mercado. Diz que o horário ali é das “7 e meia às 19:30h” e no começo chegava a trabalhar aos domingos. O ritmo é puxado: 4.15 da manhã vai no CEASA, chega no Mercado às 5 e meia e só vai sair às 20h.

Já nos Boxes 6 e 7 o dono é Antônio Pereira dos Santos, mas são administrados por Claudio Daniel Faleiro e sua esposa. No Box 2, Jorge Surtika é um dos sócios. Mas também é gerente do Box 4, de propriedade de João Carlos Batista, hoje aposentado. Ele é um dos mais novos, tendo começado em novembro de 2000, onde tornou-se sócio de Raul Viana, seu cunhado, no Box 2. Raul já é mais veterano, com 17  anos de Mercado; pegou ainda o tempo das banquinhas.

Outro que sofreu na época da reforma foi Mauro Luiz Wendt. Era motorista em 1995. Saiu da empresa depois de 16 anos de trabalho e comprou a banquinha. Diz que não se arrepende porque no Mercado se aprende muito. Para ele no tempo da “banquinha” era melhor do que hoje.  Lembra que na reforma ele e outros “tomateiros” rodaram por vários lugares do Mercado, o que impedia que se criasse uma freguesia. Apesar da reforma ter trazido muitos transtornos e prejuízos, Mauro acha que valeu a pena. “Antes era tudo muito sujo, sem higiene, tudo meio atirado”, diz, lembrando que até chovia dentro.

Já Mateus Lemos, do Box 1, Poliervas, é a nova geração chegando. Seu pai, Benedito Lemos, anda com problemas de saúde e ele teve que assumir, há três anos. O pai já está no Mercado há mais de 40 anos, também foi um dos que trabalhou nos portões. Mateus conta que vai ao Mercado desde criança e que agora “pretende tocar o trabalho do velho”.

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