Há um ano, um espaço consolidado na cultura da cidade

Centro Histórico, por Emílio

Depois de longo processo, desde a concepção até a sua concretização, o Centro Histórico Cultural Santa Casa completou, em 7 de junho, o seu primeiro ano de existência.

Fotos: Emílio Chagas

Um verdadeiro equipamento cultural, com vários espaços para espetáculos, mostras, cursos, oficinas, além de um museu. Um projeto que veio enriquecer a vida cultural da cidade, especialmente do Centro Histórico.

A arquivologista Rosani Maria Porto Silveira, diretora administrativa do espaço, explica que o projeto nasceu dentro do Centro de Documentação
e Pesquisa (CEDOP) do hospital, “que congregava todo o acervo do arquivo e biblioteca”. Em 1989, diz, pensou-se em elaborar o projeto de
transformar “as casinhas” (oito casas, construídas em 1907, contíguas à Av. Independência) na sede do Centro Histórico Cultural. Quem criou o CEDOP, informa Rosani, a historiadora e professora Luiza Kliemann, “descobriu” a Lei Rouanet, que viabilizou o CHC, embora a obra tenha demorado alguns anos para ficar pronta. “As obras começaram em 2006, mas a inauguração foi em 2014, com um custo total de R$ 3 milhões”, acrescenta Rosani. Ela lembra que foi acordado com a Mesa Diretiva da Santa Casa que os recursos teriam que vir de fora, captados via outros meios que não os próprios do hospital – que mantinha, porém, o acervo com toda a documentação da Santa Casa.

Rosani Maria P. Silveira, a diretora administrativa

São livros de registros diversos: de escravos, cemitério, prontuários de médicos e pacientes, documentos da Casa da Roda (onde fi cavam expostas as crianças abandonadas, para adoção), entre outros. “Nosso acervo é muito rico, temos um índice de pesquisa altíssimo, em todas as áreas do conhecimento humano: antropologia, sociologia e até arquitetura, sempre com um grande número de pesquisadores daqui e de fora, diariamente.”

 

Um espaço diversificado
Duas linhas norteiam o espaço: uma que compreende o Acervo e outra que a diretora define como “entretenimento”, ou seja, a parte que envolve as
áreas culturais – música, teatro, exposições, artes cênicas, etc. “A gente trabalha com editais públicos. As propostas são selecionadas a partir de uma curadoria feita por pessoas dessas áreas. Agora estamos montando o nosso Plano Anual para 2016”, informa, acrescentando que, porém, são deixados espaço e datas para locações por parte dos artistas – locais, principalmente. O importante é que o espaço seja autossustentável – e os recursos vêm de várias frentes, das já citadas locações e dos espaços terceirizados. A elaboração dos projetos é feita pela produtora cultural Simone Pedroso. O complexo inclui arquivo (fotográfico e documental), biblioteca (com mais de cinco mil títulos), dois laboratórios de restauração, de história oral e fotográfico, que está sendo digitalizado e informatizado, teatro (284 lugares, projetado pela arquiteta Ceres Storchi), museu, sala de múltiplos usos, sala de ação educativa, bistrô, loja e átrio central.

 

Trabalho reconhecido

Depois de um ano, a avaliação de Rosani sobre a experiência do CHC é de que “está sendo muito boa, a gente nunca fez uma grande divulgação – só agora estamos com assessoria de imprensa, agência de publicidade e refazendo o site. Mesmo assim, temos tido um ótimo reconhecimento. Mas esperamos muito mais, para dar retorno para a sociedade.” O Centro também desenvolve parcerias com o Instituto de Artes da UFRGS e o Ipedai, entidade voltada à educação musical de pessoas da periferia, por exemplo. Em setembro, vai receber espetáculos do Porto Alegre em Cena, um dos maiores festivais de teatro do país. Para isso, conta com a infraestrutura do excelente teatro que, dos espaços do Centro, é o que mais se sobressai, com grande procura, como registra a diretora. Cita os espetáculos do Porto Verão Alegre (festival de teatro) e as apresentações da Orquestra Unisinos como grande sucesso de público, o que contribui para tornar o local mais conhecido.

Detalhe da biblioteca

Vista parcial do teatro de 284 lugares

 

Museu, fragmentos da história
Um dos pilares deste equipamento cultural, o Museu Joaquim Francisco do Livramento (homenagem ao fundador da Santa Casa) reúne um acervo com mais de sete mil objetos datados entre os séculos XIX e XXI. São instrumentais médicos, imagens sacras, utensílios farmacêuticos, roupas, entre outros, que compõem um painel formando uma verdadeira linha do tempo da memória da Santa Casa. Dirigido pela historiador Amanda Mensch Eltz, o Museu também realiza atividades como visitas guiadas, ações e oficinas sócio-educativas, além de organizar exposições de curta duração. Outra atividade consiste na incorporação de doações, conservação, inventário e pesquisa histórica dos objetos que estão sob
sua guarda, informa a coordenação. Atualmente, revela Amanda, o Museu está com a exposição “Fragmentos de uma História de todos nós”, de longo prazo, a qual difunde a memória da Santa Casa no contexto da vida cidade e do estado “e das relações e vínculos com a comunidade e com o poder público na conformação da nossa multifacetada sociedade contemporânea.” A mostra expõe momentos significativos, com as enfermarias (século XIX e XX), a Casa da Roda, o Pátio e a Botica/Farmácia, o contexto físico da Santa Casa, também de séculos passados, maternidade, práticas médicas e cirúrgicas, etc.

Amanda M. Eitz, coordenadora do Museu

Um meio de “oportunizar reconstituições de memória e legitimar diferentes identidades no local social das práticas, dos saberes e fazeres profissionais,
no caso, na Santa Casa”, encerra a historiadora.

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