Grupo Chão de Areia – O resgate da viola

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

O som é conhecido no interior, geralmente ligado à música caipira. Mas o instrumento, mesmo pouco usual nos palcos regionalistas, tem uma antiga história no Rio Grande do Sul – chegou com os açorianos e teve seu uso reforçado pelos tropeiros, em seu caminho de Sorocaba/SP até aqui. A viola caipira vai ganhando os palcos do estado através do Grupo Chão de Areia, trio de Tramandaí que se propõe a resgatar toda a musicalidade da viola no sul do Brasil.

Mário Tressoldi, Flávio Junior e Chico Saga começaram na música tocando para grupos de danças tradicionais em CTGs do litoral. Foi assim que se encontraram no início dos anos 2000, e a parceria logo se formou. Então passaram a percorrer diferentes festivais. “Nossa música é regional brasileira, voltada para a viola. Uma música diferente do que geralmente se faz no Rio Grande do Sul, porque, apesar de a viola ser um dos primeiros instrumentos do nosso estado, ela foi há tempos esquecida da cultura gaúcha”, assinala Mário Tressoldi, que afirma: “A viola está na raiz da cultura gaúcha”. Para fazer este resgate, o trio tem diversas inspirações, como os tocadores de moda de viola Almir Sater, Renato Teixeira e Tião Carreira, mas também a influência da música regional gaúcha. “Acho que são as cargas de vida de cada um. Como a gente viveu este mundo da música tradicional gaúcha, da música folclórica do Rio Grande do Sul, e também temos esta paixão pela música da viola, acho que nossa música é uma mistura de tudo isso”, aponta Mário.

Foto: Divulgação

Cordas no palco

Flávio é o percussionista e pesquisador, enquanto Mário e Chico são arranjadores e compositores, Mário ficando ainda com a regência e Chico com as letras das canções – a maior parte das músicas do grupo é autoral. “Tentamos buscar algo que está dentro de uma realidade e uma localidade próxima da gente e transformamos isso em música”, conta Flávio. Este desejo de retratar vivências, segundo Mário, vem do tempo de CTGs, que buscam contar a história de suas cidades. O primeiro CD do grupo, “Quem somos nós”, foi lançado em 2011, mas o trio tem quase 15 anos de histórias, modas, milongas, catiras e cateretês. Nomes como Ivo Ladislau e Carlos Catuípe já estiveram entre as parcerias do grupo,  e a cantora Loma é a companheira mais frequente. Com ela está sendo produzido um trabalho intitulado “Paixão de viola e tambor”, trazendo a cultura da viola e os ritmos africanos em suas relações com a música gaúcha. A obra de Loma e Chão de Areia é fruto de um espetáculo lançado em 2014 pelo Arte Sesc, que viajou o estado.

Viola nos festivais

Inseridos no cenário nativista, acreditam que essa música também perdeu espaço dos anos 1980 para cá. “Mas ela continua viva, continua na raiz do Rio Grande do Sul. O que precisaria é de mais mídia em cima do nativismo. E no meio dos festivais, de um modo geral há bastante espaço para a música campeira, mas a música urbana que é feita no Rio Grande do Sul tem pouco espaço ainda – não só do que fala do campo, do cavalo, mas de outros aspectos da cultura gaúcha, isso ainda falta bastante. E é o trabalho que a gente tenta realizar, buscando inspiração nas coisas simples do dia a dia”, diz Mário. Neste tempo de carreira, o trio já foi agraciado em diferentes festivais, levando o primeiro lugar na 20ª Moenda da Canção de Santo Antônio da Patrulha, no 3º Acorde da Canção Nativa de Camaquã com a canção “Mãos” (Chico Saga e Mário Tressoldi, apresentado com Loma) e no 10º Festival Viola de Todos os Cantos com “De volta a Sorocaba” (Chico Saga, Ivo Ladislau e Mário Tressoldi). Além disso, foram os mais populares no 36º Festival Nacional da Canção com “A moenda e o tempo” (Chico Saga, Mário Simas e Mário Tressoldi) e na 24ª Moenda da Canção de Santo Antônio da Patrulha com “Violas do sul do Brasil” (Chico Saga e Mário Tressoldi). “A gente procura passar a nossa verdade, o que vem da nossa alma, o que sai da corda da viola e das nossas vozes naturalmente”, finaliza Mário.

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