Gostinho caseiro

Foto: FreeImages.com/Michaela Kobyakov

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

O arroz doce, também chamado arroz de leite, é uma das sobremesas mais conhecidas no Rio Grande do Sul. Sua base simples – arroz cozido no leite com cravo e canela – ajudou a popularizar a receita. Mas se engana quem pensa que o doce nasceu nos pagos gaúchos: sua história começa na antiga Índia, passando pela Europa e atravessando o mar com os portugueses. Chegando aqui, se espalhou pelo país inteiro, e foi adotado no RS como doce caseiro. Para desvendar este quitute, conversei com a profª da UFRGS Maria Eunice Maciel, doutora em Antropologia Social que trabalha a antropologia da alimentação.

Apesar de ser considerada uma sobremesa gaúcha, suas raízes estão bem longe. A história começou nos países orientais, onde o arroz tinha plantio extenso e fazia parte da cultura alimentar local. “Trata-se de um dos mais antigos pratos doces registrados, sendo que a referência mais remota é da ‘M?nasoll?sa’, espécie de enciclopédia de 1130”, conta Maria Eunice. “A maior parte dos historiadores da alimentação coloca sua origem na Índia, país em que, como em todo o Oriente, o arroz é comida básica para toda a população.” Por lá, o arroz é apresentado de diversas formas, em pratos salgados e doces. “Arroz com coco e especiarias é um prato comum em todo o subcontinente indiano. Na Índia, encontra-se o famoso kheer, doce feito de leite e arroz, ou uma espécie de massinha de arroz, temperado com especiarias açafrão, cardamomo, passas, pistache e frutas. A receita pode mudar variando tanto nas especiarias como no aspecto, mais líquido ou mais cremoso, e recebendo nomes variados”, pontua a antropóloga.  O caminho do quitute até o Brasil provavelmente está ligado aos mouros, povo árabe que dominou a Península Ibérica no séc. VIII e ajudou a espalhar o arroz doce pela Europa. Os portugueses adotaram a sobremesa, acrescentando a ela a canela, especiaria cobiçada na época das grandes navegações. Mesmo não sendo os criadores, foram eles que difundiram a receita pelo mundo com a colonização. “No Brasil, o chamado arroz de leite ou arroz doce chegou com os portugueses e tornou-se uma das mais apreciadas sobremesas cotidianas em todo o país”, ressalta a professora.

LEITE, AÇÚCAR E MAIS

A receita de arroz doce já é citada no segundo livro culinário editado no Brasil, o “Cozinheiro nacional”, publicado na segunda metade do séc. XIX, assim como no mais tradicional livro de gastronomia popular brasileira, “Comer bem – Dona Benta”, lançado em 1940. “Normalmente, é feito com arroz, açúcar e leite temperado com canela e cravo. Também aqui há a versão mais cremosa e a mais líquida, sendo que hoje é comum o uso de leite condensado em sua receita”, resume Maria Eunice. O arroz branco e o arbóreo são os mais utilizados, por sua maior concentração de amido, e o leite bovino é o mais usado entre os gaúchos, enquanto no Nordeste é o leite de coco. Existem preparos que adicionam a gemada (gemas batidas com açúcar) e receitas portuguesas que incluem cítricos, como cascas de limão. A inventividade não tem limites – há quem coloque baunilha, caramelo, chocolate, frutas outras especiarias. A professora dá a dica: “Há arroz doce feito na panela ou no forno, mas, para ter sucesso, há que ter o cuidado de, ao fim do cozimento, estar um pouco líquido, pois o amido contido no arroz vai deixar a sobremesa mais compacta ao resfriar”. A sobremesa tem seus valores nutricionais: arroz é rico em carboidratos, vitamina B1 e proteínas, enquanto o leite integral é fonte de vitaminas A, B12, B6, proteínas e minerais como cálcio, potássio e magnésio. Para potencializar seus benefícios, é possível usar arroz integral, rico em fibras e magnésio, e substituir o açúcar branco pelo mascavo. Veganos podem usar leite de coco, de amêndoas e de soja, por exemplo, no lugar do leite bovino.

DOCE ARROZ PELO MUNDO

Apesar de sua popularidade entre os gaúchos, o arroz de leite é uma sobremesa internacional. Diversos países adotaram e adaptaram a receita. Na Tailândia, é famoso o khao neow piag lamyai, um creme de arroz doce com a típica fruta longan e creme de coco. Portugal e Dinamarca servem a receita inclusive no Natal. O kheer indiano é, ao mesmo tempo, sobremesa para festividades religiosas e doce popular. Já na cosmopolita cidade de Nova Iorque, onde o doce é chamado rice

pudding, há uma loja especializada em arroz doce, a Rice to Riches, com inúmeros e criativos sabores da sobremesa. Por aqui, arroz doce é sobremesa do dia a dia. “É doce de infância, ‘doce de mãe’, estando dentro da chamada comfort food, aquela que remete a memórias e afetos familiares”, avalia a Maria Eunice, que conclui: “Familiar a todos nós, embora tenha uma origem geograficamente distante, o arroz doce tem uma longa história e chega a ser considerado muito ‘nosso’, envolvendo um sentimento de pertencimento que o coloca entre as chamadas ‘comidas típicas’ locais”.

 

cop

 

COMENTÁRIOS