Gilmar Antônio Giovanaz: “Hoje a gente tem orgulho de dizer que trabalha no Mercado”

Como tantos outros, a história de Gilmar Antônio Giovanaz, 53, casado, pai de dois filhos, no Mercado começou cedo: entre os 10 e os 12 anos, depois dos estudos vinha trazer viandas para três tios e uma tia no Mercado Público. Vindos do interior, não tinham o hábito de almoçar em restaurantes e, além de economizar, não dispensavam a comidinha caseira da mãe. Então ele ficava na banca, não sabe se “trabalhando ou atrapalhando”, brinca. Depois, voltava para casa, carregado de compras para a comida do dia seguinte.

 

Foto: Leticia Garcia

E foi com o tio Reni João Groff que o menino aprendeu tudo, sendo muito grato a ele até hoje. Nas férias, passava o dia todo na banca. O momento mais esperado, quando os olhinhos brilhavam, era o café da tarde para comer um sanduíche de mortadela – pago pelo tio, claro. “Passou esse período e o meu tio começou a expandir, comprando outras bancas, e não precisava mais trazer as viandas, mas eu vinha nas férias trazer almoço”. O menino cresceu, estava chegando a hora de prestar o serviço militar. Antes, porém, trabalhou por um tempo na banca do tio. “Depois fui para a Base Aérea, onde fiquei quatro anos e fiz cursos, mas saí em julho de 1982”, lembra. Passados dois meses já estava no Mercado, trabalhando novamente com o tio. Algum tempo depois, Reni resolveu passar o bastão: chamou Gilmar e Adão (este, sobrinho da esposa) e anunciou a retirada gradual. “E estamos aí até hoje. Sinto muita gratidão pelo o que fez por nós, tanto que eu doaria até algum órgão para ele”, registra agradecido.

Da vida na roça para o Mercado

 Reni foi, na verdade, um dos pioneiros na introdução da erva-mate no Mercado. Ele não sabe exatamente como o tio adquiriu a banca 33, mas ela era a referência da erva no Mercado. Enquanto ia se firmando, Reni ia trazendo os parentes. Os primeiros foram os pais. “A vida na roça era muito sofrida. Quando vinha um para a cidade, era a porta de entrada para os outros”, explica. Tempos em que se vendiam também passarinhos – e a 33 era o ponto de encontro dos “passarinheiros” no Mercado. Passarinhos e caturritas ficavam no porão da sua casa, no Jardim Sabará. “Com a proibição (do IBAMA) ele largou e a gente começou a investir mais na erva-mate, que era o carro-chefe. O tio já dava mais liberdade para nós, mas sempre acompanhava”, diz. Os sucessores inovaram. “Eu e o Adão passamos a investir no artesanato, porque vêm muitos executivos e turistas para almoçar e acabam comprando algum. E também porque o pessoal do interior é muito ligado nisso, está no DNA da gente”, registra. O tio continuou a crescer: comprou a banca 16, trazendo mais parentes “de fora”, que vieram a herdar a banca, e comprou também a banca 2, “onde botou mais tios”, tudo com papel passado.

Mercado, família, clientes e amizades

A banca, uma das mais tradicionais no seu setor, tem muitos clientes, anônimos e famosos. O ator Tiago Lacerda é um deles, que conhece os donos pelo nome. Esteve na banca e comprou todos os apetrechos de chimarrão. A banca manda erva para ele, assim como para todo o Brasil e até exterior, principalmente Alemanha. O atendimento, para Gilmar, exige psicologia e paciência. “Temos muitos clientes antigos, uma clientela fiel, com muitos laços de amizade. A melhor propaganda é o bom cliente”. A banca também tem clientes das famosas “misturas”, ou seja, adição de dois tipos de ervas, como a barbaquá (tradicional) e a pura folha, inventadas por fregueses. Tem a mistura do Eninho (ou Surfista), do Prefeito (Clovis Asman) e a do Aviador, que era de um piloto internacional da Varig. Assim, prefeitos do interior, pilotos e passageiros sempre aparecem na banca em busca dessas misturas originais. “Aqui para a gente é uma família, passamos mais aqui do que em casa, até 12 horas. A gente vai ‘passear’ em casa para ver a família, quando chega os filhos já estão dormindo, e volta de manhã. A nossa família mesmo é aqui”, resume.

O “novo” Mercado

Das mudanças que o Mercado sofreu, acha que antes ele era mais “povão e a elite não vinha muito”. Lembra das discriminações quando tentava fazer um crediário no comércio. “Quando   gente dizia que trabalhava no Mercado se sentia meio discriminado, diferente de hoje, que a gente não tem mais vergonha e diz que trabalha aqui de peito aberto”. Acredita que a mudança que atraiu até a “classe alta” se deve às melhorias. “A gente melhorou na questão da higiene, fizemos cursos do PAS (Programa de Alimento Seguro), cuidamos mais dos nossos colaboradores, orientamos”, afirma. Na 33, hoje são cinco funcionários, seis quando o seu filho, que estuda Enfermagem, vem à tarde para “dar uma mãozinha”. Hoje, depois de levar “uns sustos” com a saúde, principalmente devido à diabetes, está se cuidando bem mais. Parou com as cervejinhas, emagreceu e vem se revezando com o sócio Adão no comando da banca. Acha que hoje o cliente está bem mais exigente. “É uma grande escola. Tenho muito respeito pelos mais antigos, como o meu tio. A maioria veio do interior para progredir e trabalhava da manhã à noite”, observa. Nunca vai esquecer o pontapé inicial de seu tio e se diz muito agradecido ao Mercado, que é tudo para ele: “O sucesso, a realização. Não tenho muito, mas o que consegui foi fruto do Mercado, não consigo me imaginar fora dele”, resume. Também não quer ser pretensioso, mas diz que foi um dos pioneiros a andar de bombacha no Mercado – o que lhe valeu também o apelido de “Bombachudo”.

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