Gilberto Monteiro – Poesia gaiteada

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

Acompanhando seus movimentos, a gaita parece dançar com Gilberto Monteiro. Uma dança harmoniosa, marcada pelo abrir e fechar do fole, pelo dedilhar no teclado, pelo choro tremido da cordeona. De olhos fechados, Gilberto vai conduzindo sua dama, até o ponto em que a gaita se torna uma extensão dele mesmo. Com mais de 30 anos de música, o acordeonista e compositor vem encantando gerações e integra a história da música regional.

Foto: Letícia Garcia

Natural de Santiago, região missioneira do Rio Grande do Sul, a gaita é sua conhecida desde cedo. “Me criei com a cordeona na mão”, começa contando Monteiro. A música está na raiz de sua família: “Os meus ancestrais eram músicos de fundo de campo, de estâncias. Em 1870, minha bisavó tocava piano em Santa Maria para o pessoal da Corte – da cúpula da cidade, juízes, oficiais, toda a gente”. Isso pelo lado português – o lado espanhol vem do Uruguai, terra de milongas, de onde também surgiram músicos. Na juventude, Monteiro foi servir a aeronáutica na base de Canoas – e a cordeona foi com ele. “Eu achei que meu sonho era ser piloto. Cheguei a inventar umas asas com couro de cavalo”, conta. Acabou ficando lá apenas por um ano e retornou à cidade natal. O destino de Gilberto foi guiado pela melodia da gaita: recebeu um convite para tocar numa grande festa, onde surgiu sua milonga mais famosa – aquela para as Missões. “Ali a coisa começou a pegar fogo, começou a andar, e meu lado profissional ‘só foi’”, diz.

Mestre da cordeona

O marco de sua trajetória é “Milonga para as Missões”, talvez a melodia mais conhecida do estado. A música ganhou o público através de Renato Borghetti, que a gravou em seu primeiro disco, “Gaita ponto”, em 1984. De lá para cá, já foi regravada por diversos artistas, como os forrozeiros Mastruz com Leite e os sertanejos Victor e Leo. Com cada um, a gaita ganha um sotaque diferente, mas todos carregam pelo país a assinatura do mestre Gilberto. É através da canção da cordeona que ele se expressa, em composições que hoje são representativas dos pagos do sul: “Prelúdio de um beija-flor”, “Pra ti guria” e “De lua e sol” talvez não sejam reconhecidas pelo nome, mas no cantarolar vão soar familiares a muitos ouvidos gaúchos. Monteiro confessa que nunca parou para contar quantas melodias já compôs. “Mas eu tenho alguma coisa”, brinca. O fato é que suas canções e seu trabalho ajudaram a formar e popularizar a gaita ponto e a música instrumental no estado. Em suas composições, mistura ritmos regionais do sul – rio-grandenses, argentinos e uruguaios. Mas não se limita: “Tu pode tocar qualquer coisa, pode fazer jazz, por exemplo. Eu faço jazz na gaita, faço qualquer ritmo. O que vale é a interpretação, a ‘pegada’ do músico”, afirma.

Festivais e discos

Muito antes de gravar o primeiro LP, Monteiro era aplaudido em festivais pelo estado. Esteve em Califórnias da Canção Nativa de Uruguaiana/RS, que começaram na década de 70, participando inclusive da gravação do LP dos vencedores da 16ª edição: acompanhou João de Almeida Neto na canção “Provinciano” (Mário Eleú e Mário Barros) e Juliano Javoski em “Quati-mundéu” (Moisés Menezes e Juliano Javoski). Já tocou muito em países fronteiriços, como na Argentina, região de chamamés. O primeiro disco veio em 1987, “Pra ti guria”, e o segundo, “De lua e sol”, foi lançado 10 anos depois. Ambos carregam apenas composições do próprio Gilberto.

Sotaque gaudério

O reconhecimento, além da aclamação do público e dos colegas, veio em premiações: em 2005, recebeu o 1º Prêmio Vitor Mateus Teixeira (Teixeirinha) da Assembleia Legislativa como melhor instrumentista gaúcho, e, em 2013, foi homenageado com o Troféu Guri do Grupo RBS. Em 2011 e 2012, Gilberto percorreu o país com sua gaita através do projeto Sonora Brasil – Formação de Ouvintes Musicais, promovido pelo SESC, que levou shows itinerantes para todos os estados. O instrumentista integrou as apresentações “Sotaques do Fole”, resgatando temas antigos do sul e levando suas composições para um público diverso. “Fiz 118 apresentações por todo o país, todas as capitais, fora as pequenas grandes cidades”, conta.

Alma de compositor

Gilberto é crítico ao falar de si mesmo: “Acho que agora estou atingindo uma maturidade no trabalho, estou me sentindo mais em condições”, declara. “Sou crítico porque escuto muito – já escutei altos músicos, então me sinto sempre aquém”. Essa autoavaliação não revela, mas seu trabalho é referência para diversos músicos, muitos dos quais ajudou a introduzir no meio artístico. “Estou sempre procurando me superar – e acho que estou me superando tecnicamente, criando novos temas”. Suas criações são inspiradas em histórias que lê, em passagens da sua vida, às vezes até na energia da própria plateia. “Eu subo no palco e já saio criando”, ri. “Sou um músico eternamente inspirado. Minha inspiração vem de berço e também de grandes músicos com quem eu convivi e com quem toquei muitos anos, como Lucio Yanel, meu amigo e um músico maravilhoso”. As apresentações de Gilberto são permeadas por conversas – onde explica, por exemplo, que um dos vaneirões que interpreta no palco  era tocado pelos gaiteiros para tropas da Revolução Federalista de 1893. Tocando, parece sentir cada nota das canções. “Eu não posso olhar o teclado. Se olhar, me perco”, segreda. Os olhos fechados ajudam a criar uma aura de profunda conexão com o instrumento. A cordeona chora, respira fundo e solta sua voz nas mãos de Gilberto, para encanto dos amantes da música instrumental.

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