Gilberto Esteves: “Existe o Beto antes do Mercado e o Beto depois do Mercado”

Ele foi trazido para o Mercado Público pelo cupido: quando jovem, bancário aplicado, começou a namorar Leila, _ lha de um dos “patriarcas” do Mercado, Deomiro Salami. O futuro sogro tinha, então, o movimentado Supermercadode Carnes Laçador. E viu no genro um apoio para ajudar a tocar os negócios. O convite foi feito e a transição aconteceu por etapas. Beto começou vindo pela manhã, enquanto levava o banco à tarde, onde era chefe da Carteira de Títulos. Hoje, aos 52 anos, comanda o Mamma Julia ao lado da esposa, mas o início foi aos poucos.

 

 

 


Foto: Letícia Garcia

“Comecei a me inteirar e me aprofundar no mundo mercadeiro. Era o Salami, um gerente de confiança dele e o meu cunhado. Mas havia espaço para mais um, então comecei a vir assim, meio que informalmente”, lembra. Isso era lá pelos anos 80, quando começou o namoro. A saída do banco foi em 1982. Depois de “um ano e pouco” ajudando na banca e nos fi ns de semana, fi nalmente passou a viver o mundo mercadeiro. “Casei em 1983, portanto já são 31 anos de casamento e 32 de Mercado”, contabiliza. Do casamento com Leila, tem o fi lho Bruno, de 25 anos que, porém, não abraçou o Mercado como destino. Desde então, Beto nunca mais saiu do Mercado, a não ser por um curto período, quando ele e o cunhado foram para o garimpo da família no Rio Madeira, no Acre. “Nesse período, minha esposa e minha cunhada, que eram professoras, entraram para o Mercado por causa da nossa ausência”, recorda.

 

Começa a nascer o Mamma Julia

Foi nos meios dos anos 90, com a grande reforma do Mercado, que a ideia do restaurante começou a tomar forma. O açougue era onde fi cam os chamados “tomateiros”, um corredor nobre e central. “Muitas bancas saíram de um local para o outro e o sogro não achou muito legal ficar no lado externo. Ia perder portas, então resolveu subir (para o 2º piso, para onde foram realocadas várias bancas)”, diz. E é nesse momento que entram em ação as ideias de Beto, que já havia tido uma experiência com restaurante em uma das maiores academias que a cidade já teve, o Centro Gaúcho de Esportes: “Começamos a montar o restaurante. Quando abriu era uma cafeteria. Tinha sorvete e algumas opções de almoço, ali por 1996”, registra. O Mamma Julia (nome em referência à mãe de Salami, Mercedes Julia) primeiro alojou-se onde está a administração do Mercado, até mudar defi nitivamente para onde é o seu local defi nitivo, ao lado do Memorial do Mercado.

 

O aprendizado com o “professor” Salami


Ao longo dos anos, o Mamma foi criando uma identidade. A questão da qualidade, diz, é da maior importância. “O Mamma é um pouco eclético – tem massas, carnes e frutos do mar, pelo qual somos mais conhecidos. E pela questão da telha (tainha e picanha são servidas numa telha de barro), que fi cou sendo uma marca”, ressalta. Ele e Leila se dividem nas tarefas, ela cuidando da parte administrativa e ele na parte mais “funcional”: criar os pratos, manter o conceito de atendimento de qualidade. “Sempre formamos uma dupla bem legal, em casa e no trabalho. O Mamma foi como uma criança que a gente viu nascer e se desenvolver como a gente queria. Isso nos marca muito mesmo”, diz emocionado, fazendo questão de ressaltar a importância do sogro, com quem diz ter aprendido a trabalhar. “Foi um professor”, resume. Depois Salami se aposentou e foi morar num sítio com a esposa, falecida em 2003, deixando a responsabilidade para Beto e Leila.

 

O velho Mercado


Gilberto lembra que nos anos 80 tinha muito movimento no Mercado: “Acho que o poder aquisitivo era melhor, lembro que cedo já tinha fi la nos portões. Era porque ele era mesmo um centro de abastecimento. Quando entrei tinha uma circulação maior e também uma relação mais aprofundada entre os colegas. Eram concorrentes, mas era uma concorrência diferente, as famílias eram amigas. Eu peguei o final da geração do meu sogro, os ‘feitores’ e grandes patriarcas. Hoje são os filhos e netos que tocam. Tive o privilégio de pegar aquele finalzinho, aprende a trabalhar com essas pessoas”, registra.Uma das gratas lembranças que ele tem é de quando os mercadeiros mais velhos se encontravam nos corredores ou cafés para conversar. “Era uma turma alegre, uma coisa bem marcante essa relação entre eles. Hoje cada um vai para o seu casulinho. Mas isso também é um pouco pela mudança dos tempos”, diz. Outro ponto que ele destaca no Mercado é o atendimento, pelo qual sempre foi famoso: “O Mercado é conhecido por isto. É um atendimento mais caloroso, tem intimidade com o cliente. É uma característica dele”.

 

O Mercado e o Mamma Julia, hoje

 

Procurando manter os ensinamentos do passado, ele toca o negócio com a realidade de hoje. Atualmente o Mamma está no térreo, na provisória área de alimentação instalada no Espaço de Eventos, enquanto os sete restaurantes atingidos pelo incêndio não voltam para os seus lugares originais – em obras de recuperação. “Neste momento, eu diria que é muito interessante estar aqui em baixo. O importante é não perder a identidade e a relação com o cliente. É enriquecedor, se trabalha mais porque é um espaço pequeno. Lá, a Leila e eu éramos mais administradores, aqui fazemos parte do processo. A gente acha muito simpático com os colegas mais próximos”, diz. “O Mercado representa mais da metade da minha vida”, sintetiza um emocionado mercadeiro.

 


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