Geraldo Valdemir da Silva: “O Mercado mudou bastante. Antes a gente trabalhava mais, mas era mais divertido”

Quando ele começou, o Mercado ainda era aberto, com cobertura de zinco. Fazia um serviço aqui, outro ali, na volta do Mercado, sem nenhum emprego fixo. Trabalhava também na feira do peixe, que era realizada onde hoje está localizada a Trensurb. Lembra, principalmente, do inverno, quando chovia e ventava, na beira do Guaíba. Trabalho duro. Porém, em 1989, novos ventos: passou a trabalhar fixo, com carteira assinada, na JL Cunha, razão social até hoje da Japesca.

 

“A banca era no meio do Mercado, bem central, com seis portas. Toda a volta era nossa, era um movimento muito bom. De manhã, quando abria o portão do Mercado, era um tropel de gente, vinham direto, lotava”, recorda. O movimento só parava mesmo quando fechava, sempre cheio de gente. Conta que as pessoas entravam e não queriam sair. Além de tudo, sempre deixavam o peixe como última compra, para levar um pescado bem fresquinho. E mesmo quando fechava, às oito horas da noite, era comum continuar atendendo gente até as nove. A diferença é que agora, segundo Geraldo, o movimento caiu um pouco. A causa? O número de supermercados que passaram a ter peixarias. “Antes o foco era o Mercado, todo mundo vinha, era aqui que tinha peixe, em grande variedade”, diz. As grandes bancas (e concorrentes) eram Japesca e  São Pedro, as que “tinham nome” – sempre lotadas. Tinha, também, a extinta “Coréia” – região onde os peixes eram expostos em banquinhas de pedra, mais popular. Mesmo com as mudanças, ele diz que a banca continua com a sua freguesia, com gente que vem de trem de São Leopoldo e Novo Hamburgo, inclusive. Acha que a Trensurb ajuda bastante, principalmente nos dias de chuva porque as pessoas, praticamente, não se molham para chegar do trem até o Mercado.

 

Entre idas e vindas no Mercado

 

Mas de onde veio, e como foi parar no Mercado, o nosso personagem? Nascido em 1962, natural de Santiago, ele veio para cá atrás do seu irmão Luiz Zalmir, que já trabalhava no atacado de pescado. Quando veio do interior tinha apenas 12 anos, diretamente para Canoas, estudando de manhã e trabalhando à noite em um bar como auxiliar – cortava lenha, carregava sacos de mantimentos, entre outros serviços. Porém, não conseguiu prosseguir os estudos. Foi aí que começaram os serviços avulsos, na volta do Mercado. O pai, Carlos Jaime da Silva, viúvo, também já havia vindo na frente para a capital. Quando, finalmente, teve emprego fixo, ficou três anos trabalhando na “graxeira” da peixaria – onde se faz o trabalho pesado, de lavar, limpar o peixe com água gelada, e tirar o filé. Depois, “deu um tempo”, isto é, se afastou do Mercado durante dois anos, trabalhando com transporte. Mas, como muitos que saem do Mercado, acabou voltando. Desta vez para trabalhar no balcão da peixaria, no início dos anos 90. Porém, a Japesca sempre foi a grande fornecedora de peixe para os supermercados. E, junto com as remessas de peixe, sempre enviava um ou dois funcionários como promotores. Um deles, Geraldo, que passou 10 anos nessa função, nos antigos supermercados Real (atual BIG), porém sempre ligado à Japesca. Dessa experiência, pôde comparar as diferenças dos públicos: o do supermercado não é tão apressado, como o das bancas do Mercado, que quer o peixe rápido, limpo e está sempre “na corrida”. Quando voltou, definitivamente, para o Mercado, o balcão ainda o esperava. E nele está há 13 anos. 

 

Clientes pelo Brasil afora

 

Trabalhar com peixe é bom, mas no começo é ruim, segundo ele. “Depois acostuma, a gente ganha muita amizade. Tenho freguês até do Acre. Eles vêm para cá e levam peixe, às vezes até telefonam de lá. Aí, é só botar no isopor para gelar, mandar para o aeroporto e já está no Acre”, revela. Também tem clientes do Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso. Muitos moraram aqui e mudaram de estado. E também muitos clientes do interior do estado: Lajeado, Santa Cruz, Estrela e outras cidades. “Tem um de Erechim que entra no portão e já vem gritando meu nome. Fico satisfeito de ser bem quisto. Isto é o bom atendimento, a gente ganha a confiança e eles sempre voltam”, explica. Teve, inclusive, um cliente de Sapucaia que veio até com um presente no dia do seu aniversário. “A gente cativa as pessoas e elas não esquecem da gente”, explica. E são muitos fregueses, políticos, delegados de polícia, ex-jogadores como Falcão, Jair, Iúri, que costumam passar pelo seu balcão. Hoje o trabalho não tem o movimento de antigamente, “aquele vai e vem que a gente nem podia piscar”. Tem dias que é mais “pegado”, quinta, sexta, sábado, e início do mês. “No mais, é tranquilo, normal, caiu mesmo em comparação aos tempos antigos”, afirma.

 

A vida no Mercado, ontem e hoje

 

Confessa que sente saudades do velho Mercado. “Mas estamos sempre trabalhando, não deixamos a tristeza pegar. Se a gente está meio aborrecido, outro vem, brinca e alegra o ambiente. A gente trabalhava mais, mas era mais divertido. Agora tem mais qualidade, antes era meio atirado, mais bagunçado. Não tinha escada rolante, nem a parte de cima com os restaurantes, os eventos eram raros”. Das lembranças marcantes, não esquece a Semana Santa: davam o grito de guerra quando ela começava. E do cordão humano que os peixeiros faziam no encerramento. Também lembra que o patrão, João Lopes Cunha, por promessa, distribuía o que sobrava da feira, e vinha gente de toda a cidade para buscar, com filas enormes. Para ele, o Mercado representa tudo o que tem e conquistou na vida. Inclusive a companheira, Maria Elisabeth, antiga freguesa, a quem um dia convidou para um baile e com quem vive até hoje, 13 anos depois, com os dois enteados, Marcos, 23, e Cleri, 29, além da netinha de 9 anos. “O Mercado é o meu passado e o meu presente. O futuro não sei o que vai ser”, conclui.

 

Foto: Letícia Garcia

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