Geison Machado Gonçalves: “O Mercado é um lugar de oportunidades”

Nascido em 14 março de 1982, casado, três filhos, ele começou a trabalhar no Mercado em 2003, levado por um amigo (que já não está mais no MP). Era um mundo completamente novo para ele, em que nunca tinha entrado. Começou direto na tradicional Banca 40, famosa pelos seus sorvetes, caldos e saladas de frutas.

Foto: Letícia Garcia

Geison trabalhou oito anos com a antiga proprietária, dona Maria Madalena de Melo, nora do fundador Manoel Maria Martins. A banca, que completou 90 anos no ano passado, é uma das referências do Mercado Público e há pouco tempo foi adquirida por novos proprietários. A nova direção trouxe uma série de mudanças e modernizações, com novos procedimentos e produtos, inclusive uma nova loja na Rua Padre Chagas, no Bairro Moinhos de Vento, mantendo, porém, a tradição conquistada ao longo de décadas. Como é natural nessas mudanças de curso, muitos ajustes são feitos, inclusive no quadro pessoal — eram 30 pessoas, hoje são 23. Geison foi um dos que permaneceu nos novos tempos da banca. E não bastasse isso, ainda agregou gente para o Mercado: trouxe os irmãos Anderson e Douglas para a Banca 40 e, depois, a própria esposa, Fernanda, que trabalha na Temakeria Japesca. E mais: nessa nova fase na Banca 40, Geison assumiu como o coordenador de toda a loja, graças aos conhecimentos que trouxe dos tempos anteriores. Quando começou, foi na cozinha e na copa, como auxiliar, onde ficou 10 anos. Nesse período, aprendeu a fazer sorvete, salada de frutas e a famosa nata da casa. “A minha rotina é tratar direto com os funcionários, fazer as compras e falar com os fornecedores. Fico mais com o operacional da loja.”

 

Clientes com muitas histórias

Quando começou na cozinha, foi aprendendo, mas tudo não era exatamente uma novidade para Geison. Ele já tinha trabalhado em padaria desde muito cedo, pois o pai era padeiro. “Trabalhei com ele, que me levava com seis anos para a padaria, onde eu ajudava. Comecei a aprender rápido. Para mim era mais fácil trabalhar em produção, eu gostava e algumas coisas eu já sabia, ‘tirei de letra’ aqui, foi fácil.” Antes, porém, teve outra experiência: com 14 anos já tinha a carteira de trabalho assinada como empacotador no supermercado Nacional. “Mas não deu certo, aí voltei para a padaria e de lá vim direto para cá. Como eu trabalhava na cozinha, por meu próprio interesse, aprendi a fazer café e outras coisas da banca. A única coisa que faltava era ir para o salão (onde ficam os clientes).” Por falar em clientes, Geison diz que a banca tem todos os tipos de público: idosos, jovens, muita gente que vem conhecer a 40 pela fama e o tempo de existência. “Os avós trazem os netos para conhecer a história deles, a gente vê até casos de pessoas que começaram a namorar aqui dentro. Tem casais com 70 anos que vêm aqui e muitas pessoas lembram e falam do tempo em que a banca era do outro lado, antes da reforma do Mercado.” Ele gosta mesmo é quando tem público, com bastante movimento.

 

Lugar do sustento da família

Contando as duas fases, são 15 anos na banca e de Mercado. Tempo em que pôde fazer muitas amizades no seu ambiente de trabalho, mesmo que, com algumas pessoas, seja apenas de cumprimentar à distância. “Tenho muita amizade, gente que saiu e foi para outras bancas. Continuamos amigos, mesmo fora daqui.” Entre os momentos marcantes, lembra de trazer os filhos ao Mercado quando ainda eram bebês. Como todos, também aponta como lembrança o último incêndio, de 2013. “Ficou estranho, eu recém tinha iniciado (como coordenador) e existia um medo de os funcionários ficarem desempregados, mas não aconteceu porque a empresa segurou. Ninguém sabia o que ia acontecer.” A banca não chegou a ser atingida, apenas ficou suja, cheia de fuligem do incêndio e todos os produtos foram praticamente perdidos porque ficou parada vários dias. Sobre os produtos da loja, no meio de tantas delícias, Geison prefere a famosa Bomba Royal (criada em 1945, durante Segunda Guerra, a pedido de alemães refugiados que queriam sorvete com nata, segundo reza a lenda), que é o carro-chefe da casa. “Vai tudo junto, sorvete, nata, salada de frutas.” Do Mercado em si, ele acha que está um pouco abandonado pelo poder público, deixando a desejar nos quesitos limpeza, segurança e até movimento: “Antigamente tinha música aqui dentro, a galera vinha, ficava curtindo até mais tarde”, diz, referindo-se aos tempos anteriores ao incêndio, quando o segundo piso funcionava com os bares e a praça de alimentação com centenas de clientes. Definição do Mercado? Para ele é, antes de tudo, o lugar de sustento da família, com muitas oportunidades.

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