Gaúcho do Rio Grande

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

Pintura de Vasco Machado

O gaúcho identifica os nascidos no Rio Grande do Sul, símbolo das tradições que hoje representam o estado para o Brasil e para o mundo. Mas o que é esta figura, e como ela surgiu? Fui conversar com Giovanni Mesquita, historiador e museólogo da equipe de pesquisa do Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (IGTF), para buscar um olhar sobre as origens do gaúcho.

A origem histórico-cultural do gaúcho está no século XVII. Neste período, homens sem vínculo de trabalho fixo começaram a viver no pampa, livre do domínio dos colonizadores portugueses ou espanhóis. “Hoje, cultura gaúcha é o que é feito do Rio Grande do Sul, mas, originalmente, é a cultura ligada ao homem do pampa”, diz Giovanni Mesquita. O pampa é uma região pastoril de planícies e coxilhas que se estende pelo Rio Grande do Sul, Argentina e Uruguai, as “três pátrias” da origem gaúcha. Para sobreviver, estes homens pampeanos caçavam o gado selvagem, churrasqueando a carne e vendendo couro, sebo e chifres no comércio local. Acampando em campo aberto, à noite eles cantavam – e vem daí uma das explicações para o termo gaúcho. “Dizem que foram os índios que colocaram este nome, que significa ‘o homem que canta triste’, em uma expressão em quéchua”, explica Giovanni. Neste tempo, ser chamado de gaúcho era uma ofensa, pois denominava um marginal da sociedade. Este “gaúcho primitivo” acabaria desaparecendo após 1801, com a Guerra das Laranjas entre Portugal e Espanha, que levou a região ao domínio português, expandindo o território rio-grandense em sesmarias pelo pampa. A figura do gaúcho passou a ser a do peão de estância, que trabalhava para os donos de terra na lida com o gado. Sempre a cavalo, ele ficou conhecido como o “centauro dos pampas”, e lutou na cavalaria nas tantas guerras do período, como a Guerra do Paraguai – provavelmente vem daí a origem do gaúcho guerreiro e cavaleiro.

 

Regionalismo

O termo gaúcho só sairia da margem no final do século XIX, quando se espalhou pelo país um processo de valorização do homem regional. Um dos marcos foi o escritor José de Alencar, que criou o regionalismo no movimento literário Romantismo, com os livros “O gaúcho” e “O sertanejo”. É neste período que começa a reconstrução do personagem histórico e do status do gaúcho na sociedade, até então desprezado pela elite. Aqui no estado, o movimento Partenon Literário teve uma produção voltada para o regional, como “O vaqueano”, de Apolinário Porto Alegre, e recuperou escritos como “O corsário”, de Caldre e Fião. Também o Grêmio Gaúcho, fundado por Cezimbra Jacques, retomou tradições do homem do campo. O movimento iniciado por Jacques não durou muito, mas ganhou continuidade anos mais tarde, já no século XX, através de Barbosa Lessa, Glaucus Saraiva e Paixão Cortes, que iniciaram na capital do estado o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG).

 

Tradicionalismo

A leitura tradicionalista do gaúcho está ligada ao êxodo rural para Porto Alegre, muito forte nas décadas de 40-50. Intelectuais que tiveram parte da vida ligada ao campo e viviam na capital quiseram manter vivos os costumes pampeanos com o Tradicionalismo. “É um movimento de saudade, de memória, de procurar manter um elo com a sua origem”, diz Giovanni. Nascido da classe média urbana, o tradicionalismo buscou no gaúcho primitivo e no peão de estância as bases sociais, materiais e culturais para a construção do gaúcho tradicionalista que hoje identifi ca os nascidos no estado. Este gaúcho se construiu com contribuições de diferentes culturas – de povos indígenas, africanos e europeus. Barbosa Lessa e Paixão Cortes empreenderam pesquisas pelo interior do estado, recuperando o folclore regional em histórias e música. Com o movimento tradicionalista nasceram os Centros de Tradições Gaúchas (CTG’s), para difundir o que foi institucionalizado como hábitos e costumes gaúchos, como a pilcha, o churrasco, o chimarrão, a dança de fandango e valores como o amor à terra em que se nasceu. A música regional, que ganhou força nos festivais dos anos 70 e foi difundida em larga escala pelos meios de comunicação a partir dos anos 80, ajudou a fixar o gaúcho como tipo regional. Hoje, o imaginário que envolve a fi gura do gaúcho está estabelecido e é parte do que constitui a identidade dos nascidos no Rio Grande do Sul.

 

Rio Grandes’s gaucho

The gaucho identifies who is born in Rio Grande do Sul, symbol of the traditions that today represent the state to Brazil and to the world. But what is this figure, and how it came about? I talked to Giovanni Mesquita, historian and museologist of the research team of the Institute Gaucho of Tradition and Folklore (IGTF), searching for a look to the gaucho origins.

The historical and cultural origin of the gaucho is in 17th century. During this period, men without ties regular work began to live in the Pampa, free of the Spanish or Portuguese colonizers’s domain. “Today, gaucho culture is what is done in Rio Grande do Sul, but originally the culture is linked to the pampean man”, says Giovanni Mesquita. The Pampa is a pastoral region of plains and grassy hills that spread in Rio Grande do Sul, Argentina and Uruguay, the “three homelands” of the gaucho origin. To survive, these pampean men hunted wild cattle, making with the meat and selling leather, tallow and horns in local trade. Camping in the open fi eld, at night they sang – and it comes from there an explanation for the term gaucho. “They say it was the Indians who put this name, which means ‘the man who sings sad’, in a speech in Quechua”, explains Giovanni. At this time, be called gaucho was an offense, because termed a marginal in the society. This “primitive gaucho” would disappear after 1801, with the War of the Oranges between Portugal and Spain, that led the region to the Portuguese domain, expanding the Rio Grande lands with allotments into Pampa. The image of the gaucho has become the ranch worker, that worked for landowners in dealing with cattle. Always riding, he became known as  the “Centaur of the Pampas”, and he fought in the cavalry in many wars in the period, as the Paraguayan War – it probably comes from there the origin of the warrior and rider gaucho.

 

Regionalism

The term gaucho would only leave the margin at the end of the 19th century, when spread across the country a process of appreciation of regional man. One of the milestones was the writer José de Alencar, who created the regionalism in the literary movement Romanticism, with books “The Gaucho” and “The Sertanejo”. It’s during this period that begins the reconstruction of the historical character and the gaucho status in society, until then despised by the elite. Here in the state,

the movement Literary Parthenon had a production for regional, as “The vaqueano”, by Apolinário Porto Alegre, and recovered writings as “The Corsário”, by Caldre e Fião. The Gaucho Guild, founded by Cezimbra Jacques, also retake traditions of the fi eld’s man. The movement started by Jacques didn’t last so long, but it gained continuity years later, in the 20th century, by Barbosa Lessa, Glaucus Saraiva and Paixão Cortes who start in the state capital the Gaucho Traditionalist Movement (MTG).

 

Traditionalism

 

The traditionalist view about the gaucho is linked to the rural exodus to Porto Alegre, which was very strong in the  40-50 decades Intellectuals who had part of life in the fi eld and lived a  the capital wanted to keep alive the Pampean customswith the Traditionalism. “It’s a movement of homesick, memory, to keep a link with their origin”, says Giovanni. Born from the urban middle class, the traditionalism sought in primitive gaucho and worker ranch the social, material and cultural bases for the construction of the traditionalist gaucho, that identify es who is born in state today. This gaucho was madewith contributions of different cultures – like Indian, African and European people. Barbosa Lessa and Paixão Cortes have made research in the state, recovering regional folklore in stories and music. With the traditionalist movement comes the Gaucho Traditions Centers (CTG ‘s), to spread what has been institutionalized as gaucho’s habits and customs, as the pilcha, the churrasco (a local barbacue), the chimarrão, the fandango dance and values like the love to the birth’s land. The regional music, that get stronger in 70s festivals and that was spread largely by the media after the 80s, helped to set the gaucho as a regional type. Today, the imagery that surrounds the gaucho is established and is part of what make the identity of those born in Rio Grande do Sul.

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