Walter Galvani

     
 
O nosso Mercado

     Por Walter Galvani    

     Foi em 1972. Enchi de ouvir falar em viadutos, era só do que tratava o prefeito de então, Telmo Thompson Flores. E descobri, até porque ele anunciou publicamente, que estaria derrubando “aquela velharia”, o Mercado Público, para abrir uma grande avenida, ligando a Siqueira Campos com a Julio de Castilhos. Foi aplaudidíssimo pelos que diziam que era preciso transformar Porto Alegre numa metrópole.

     Aquilo me irritou. Como? Derrubar o Mercado? Um prédio do fim do século XIX, harmônico em suas linhas simples, mas, indiscutivelmente uma marca do centro da capital gaúcha, uma referência histórica e sentimental? O estômago da cidade? Essa não!
     Embora não confiando no meu taco (mentira, tinha quase certeza de que metendo na parada o velho “Correio do Povo”, testemunha da inauguração, derrubaria os defensores do “progressismo besta”) Mas havia muito trabalho pela frente.
     Comecei com modestas matérias no caderno especial de domingo do “Correião” e decidi ir incorporando os amigos e colegas, um atrás do outro. E assim foi que conquistei, primeiro o P.F.Gastal, depois o Mario Quintana, em seguida o Jayme Copstein, o Liberato Vieira da Cunha, o Antonio Carlos Ribeiro, o Alberto André e outros que se foram somando, um atrás do outro. A cada domingo publicávamos uma opinião. Ou várias, como quando fiz uma enquête entre os leitores do jornal.A campanha foi crescendo e recebendo adesões, inclusive na Câmara de Vereadores. Eu nem pensava em vitória, mas vitória é o que viria. 
     Na Feira do Livro de 1972, eu estava lançando um livro, “Informação ou Morte”, sobre jornalismo, procurando fazer comparações entre o jornalismo que se praticava no mundo de um modo geral e nos Estados Unidos, de um modo particular, e fui procurado em minha sessão de autógrafos, pelo Alberto André, que era meu colega no “Correio do Povo” e diretor da Famecos/PUC e o prefeito Telmo Thompson Flores.
     – O Telmo tem algo a te dizer! – falou-me o André, sorridente, junto à mesa de autógrafos na Feira.
     – Sim, prefeito!
     – Não vamos mais derrubar o Mercado!
     Não poderia ter ouvido notícia melhor. E assim, com o apoio dos mais importantes jornalistas do estado na época e com a simpatia de todos, derrubamos a proposta utilitarista. E aí está o nosso Mercado Público e espero que permaneça por mais alguns dois ou três séculos ou mais…

* Foto: Luis Ventura

 

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