Gabriel Romano Gonzalez e Grupo – Caleidoscópio musical ao toque da gaita

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

Ao soltar do fole, o pontear do violão, o ritmar da percussão, Gabriel Romano Gonzalez e Grupo transformam suas influências diversas, que vão do jazz ao regional, em um expressivo trabalho autoral. Gabriel leva a velha conhecida cordeona a testar muitos ritmos, ao lado da guitarra de Fabricio Gambogi, do violão de Neuro Júnior, da bateria de Ricardo Panéla e do contrabaixo de Wagner Lagemann. O resultado: música instrumental latino-americana diversa e plural.

Foto: Letícia Garcia

Gabriel Romano Gonzalez começou a tocar gaita aos nove anos. “Foi um sonho do meu avô, que ele acabou realizando através de mim. Foi ele que me colocou em aula de acordeon”, começa contando Gabriel. Assim, ele passou pelo Conservatório Carlos Gomes de Esteio/RS e fez aula de acordeon com os professores Osmar Manara e André Machado. Ao estudo, passou a unir-se a experiência: por volta dos 12 anos, foi tocar em CTGs, acompanhando grupos de dança em invernadas. “Essa se tornou minha principal renda, e até hoje trabalho tocando para CTGs”, explica. Passou a compor e foi premiado em 2012: o chamamé “Correntes andarilhas” levou o primeiro lugar na categoria instrumental do 17º Acampamento da Arte Gaúcha de Tapes/RS. Aos 18 anos, Gabriel foi estudar composição musical na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde então conheceu Fabricio, Ricardo e Wagner, além de Ivan Andrade, violinista que esteve com o grupo até 2014. Já o violonista, Neuro, Gabriel conheceu através dos festivais nativistas. O pessoal se uniu em 2013 para a gravação do CD e DVD “Sobre nós!” – e assim surgiu, oficialmente, Gabriel Romano Gonzalez e Grupo. Com dez composições próprias e um choro de Nabor Pires Camargo, o trabalho recebeu duas indicações ao Prêmio Açorianos de Música 2014 – intérprete (Neuro) e revelação.

Vivência musical

O caldeirão musical do grupo reflete a história dos próprios integrantes. Gabriel e Neuro estão bastante ligados à música regional, seja por CTGs ou por festivais. Fabrício e Ricardo têm um lado rockeiro e Wagner transita em diversos estilos. Assim, os ritmos do grupo têm influência de nomes como Astor Piazzolla, Bob Marley, Django Reinhardt, Dominguinhos, Gilberto Monteiro, Hermeto Pascoal, Richard Galliano e Sivuca – do choro ao jazz, do xote ao regional gaúcho, e além. “Procuramos expressar a nossa vivência musical, aquilo que escutamos e vivemos”, resume Gabriel. Para isso, o repertório é quase todo de canções autorais, como “Urucungo do malungo”, “A força que orienta” e “Djangô”. Para Gabriel, que compõe parte das canções em parceria com Neuro, a inspiração vem exatamente das “infinitas possibilidades de criação”: “Enquanto estou compondo, me sinto livre e essa sensação é a responsável pela vontade e inspiração para compor”, diz.

Música livre

A aposta do grupo, neste tempo de estrada, tem sido mesmo a liberdade. Mesmo ao chamamé premiado, “Correntes andarilhas” se misturam diferentes linguagens musicais, marca do trabalho do atual quinteto. Quando começaram a fazer shows, foi difícil até encontrarem lugares para tocar, como conta Gabriel: “Não tinha espaço para um som novo. A gente acabou conseguindo tocar em alguns lugares, como casas de jazz”. Para ele, isso pode ser reflexo de certos limites que restringiram a criação dos músicos gaúchos. Gabriel também acredita que a questão do mercado pode influenciar muitos a permanecerem num estilo mais campeiro de fazer música. “Mas vejo que tem uma necessidade de tocar outras coisas, e foi através desta necessidade que acabei formando este grupo e compondo este tipo de música – uma música livre”, diz.

Sem fronteiras

“A cultura gaúcha, cultura de um povo que vive no sul da América, está sofrendo um estreitamento muito grande. É uma cultura tão bonita e tão grande, pegando países como Uruguai, boa parte da Argentina, Paraguai e o sul do Brasil. Essa cultura é rica, uma mistura de várias outras culturas, dos índios, dos negros que vieram como escravos para cá e também dos europeus”, resume Gabriel. No trabalho de romper fronteiras, ele cita Luiz Carlos Borges, que foi protagonista no processo de trazer o estilo chamamé para o Rio Grande do Sul, inclusive para que fosse aceito em concursos tradicionais de acordeon. E essa mistura Gabriel e Grupo não esquecem em suas composições. “Vejo que o cenário da música do Rio Grande do Sul está muito preso ainda a algumas formas de se compor, de se expressar. Teve um movimento da galera que quis transformar os festivais, a galera da Califórnia da Canção (Nativa de Uruguaiana) que evoluiu esta parte criativa, e acabou que hoje a gente está precisando de alguma coisa nova. A gente está se propondo a cumprir este papel”, declara, sorrindo.

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