Gabriel Antônio Mendo da Cunha: “O Mercado não pode parar no tempo”

Gabriel Antônio Mendo da Cunha: “O Mercado não pode parar no tempo”

Dos seus 40 anos, ele já está há mais de 25 convivendo com o Mercado. Assim como muitos outros, começou a sua vida nesse grande patrimônio da cidade, ainda criança, com seis ou sete anos – quando o prédio ainda abria aos domingos. Hoje, formado advogado, casado e pai de uma menina de cinco anos, Gabriel é uma das mais expressivas lideranças da nova geração de mercadeiros. E apesar de ser de uma nova geração, viu muitas coisas e fatos marcantes na vida do velho Mercado.

Foto: Letícia Garcia

“Vinha com meu pai no começo, quando pequeno. Depois, ali pelos 13 anos, é que comecei efetivamente a trabalhar no Mercado, aos sábados porque já não abria mais aos domingos. Era o dia que não tinha aula e ficava até fechar”, lembra. O pai, João Lopes da Cunha figura histórica do Mercado, chegou no fim da década de 60 e tinha uma peixaria em sociedade, a qual terminou para se dedicar a novos negócios na indústria de pescado, em São Lourenço. Porém, o velho Chinga acabou retornando ao Mercado para recomprar a banca e nela se instalar definitivamente. “A minha história surge a partir deste momento, quando passei a vir com ele, já sem sócio. Vinha nas sextas, depois nas quintas e quando vi já estava trabalhando direto aqui”, registra. O caixa foi o seu começo, “aprendendo o serviço básico”. Lá pelos 16 anos já estava inteirado de todo processo da peixaria – atendimento no balcão, limpeza do peixe na manipulação e cobrindo férias do gerente de vendas. “Eram vendas por atacado, para os feirantes e bancas aqui dentro. Isso acontecia por volta de três e meia da manhã. Hoje o atacado começa às seis e meia, mudou muita coisa, dificilmente alguém chega aqui antes disso, pelo menos nas peixarias”, observa. Sempre trabalhou na área dos pescados, o que permitiu que Gabriel “conhecesse todo mundo, ganhando uma nova escola e um novo aprendizado”.

Mercado, um aprendizado

“Digamos que meus professores aqui são uma família de muitos irmãos. Três deles continuam aqui, um foi o primeiro a se aposentar e continua trabalhando: é a família Brandão – Antonio Cesar, Luiz Carlos e Alceu Rio Brandão. E também tem o Carlos Cesar Vasconcelos, que ainda está trabalhando conosco desde aquela época, e outros. Muita gente passou, mas esses foram os meus grandes professores aqui dentro. Me levavam pela mão para ir tomar café ou ao banheiro”. A Japesca ficava onde hoje é a Banca Central. “Ela começou com as bancas 6 e 7, depois meu pai comprou a 4 e 5, e no fundo dos corredores tinha um refeitório e um escritório, e bancas por letras”, lembra. Essa vivência dentro do Mercado e, principalmente, dentro da banca, permitiu que Gabriel logo se integrasse com tudo e com todos, ganhando confiança. “Isso facilitou a minha entrada no Mercado e da empresa e a transição do meu pai para mim. Foi um processo natural, por eu estar na empresa desde muito cedo, presente no dia a dia”, avalia. Para Gabriel, aconteceu tudo junto, ou seja, o crescimento da empresa, das pessoas e dele mesmo. “Isso foi fundamental na minha trajetória profissional”.

Sem saudosismos

Embora respeite a história e tradição do Mercado, não se considera um saudosista. Ao contrário, saúda os novos tempos, achando que o Mercado tem que evoluir, se modernizar, trazer novos produtos. “Ele não pode parar no tempo, embora seja histórico. Tem que saber manter isto, mas olhando para o futuro”. Em relação ao passado, constata que aconteceram muitas mudanças, “da água para o vinho”. E cita duas mudanças que considera clássicas: “Naquela época era comum as pessoas atenderem fumando em qualquer lugar. E as compras, principalmente o peixe, eram enroladas com papel de jornal velho. Só isso já são mudanças gigantes”. Também menciona a tecnologia de hoje, com o computador, as máquinas e equipamentos para corte de frios e outras inovações. Ele vê, ainda, um novo perfil de público no Mercado, principalmente depois da reforma dos anos 90. “Antes o Mercado tinha só quatro corredores. Com a reforma, os corredores secundários se transformaram de circulação das pessoas e de lojas. Isso atraiu um outro tipo de público, que não frequentava o Mercado antes”. Mas da época da reforma não tem muitas boas lembranças: “Para nós foi bem traumático, tivemos que fechar e acabamos por demitir todos os funcionários até conseguir nos restabelecer nos novos espaços e readmitir todos novamente. Foi bem difícil para todos e perdemos o nosso faturamento principal”, contabiliza.

A grande comunidade Mercado 

Nas dificuldades, acredita Gabriel, é que surgem as alternativas. Passou, então, a comercializar pescados para os supermercados, que começavam a vender peixes frescos também – o que foi decisivo naquele momento difícil. A partir de 2009, nova experiência com a criação da Temaqueria Japesca, que praticamente (ao lado de outros espaços de culinária japonesa) renovou boa parte dos frequentadores no Mercado, trazendo um público mais jovem. Hoje já são oito temaquerias Japesca na cidade, todas independentes. Momento difícil para ele foi, também, o incêndio de julho de 2013 – não só porque suas lojas foram atingidas pela infiltração, mas por toda a destruição. Um momento em que ele pôde constatar a dimensão de como o Mercado é importante e querido para a população. E mostrar a sua garra: “Acho que é uma característica dos mercadeiros: não desistir e trabalhar sempre para superar situações negativas”, constata. Para Gabriel, que já foi presidente da Ascomepc (Associação do Comércio do Mercado Público Central), o Mercado ensina a conhecer um pouco de tudo, de hábitos, crenças e ideologias políticas diversas. “O Mercado é uma grande comunidade”, conclui.

 

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