Francisco Assis dos Santos Nunes, o Chico: “O Mercado não parou no tempo”

Assim como muitos dos mercadeiros, Chico, como é mais conhecido por todos, tem uma imensa gratidão pelo Mercado, ao qual agradece por, praticamente, tudo o que tem. Pudera: desde os oito anos de idade o santa-mariense de 59 anos frequenta este grande patrimônio gaúcho trazido – também, como muitos – pelo seu pai, Pedro Nunes. Hoje, sócio-proprietário junto com a esposa Sandora, comanda o Sayuri, restaurante japonês pioneiro no Mercado.

 

O começo é curioso: o menino era louco por pintado ensopado, que o pai e os funcionários da sua peixaria sempre faziam. “Eram 28 bancas de peixe e o meu pai era o dono da 25, e eles faziam a comida, simples, na panelinha, na própria peixaria. Quando tinha pintado, o pai avisava. Eu pegava um ônibus e vinha. Adorava!”, recorda. Isso ainda nos tempos da lendária “Coréia”, onde ficavam as peixarias. Nesse tempo não havia refrigeração nos balcões e os peixes eram expostos nas bancas de pedra. Às nove horas da manhã, vinham os fiscais e cortavam o rabo do peixe, sinal de que ele estava “condenado”, ou seja, já não estava mais em condições de ser consumido. Relembrando isso hoje, Chico faz uma associação de por que os portões, às 7 horas, quando abria o Mercado, já estavam tão lotados. “Abriam e as pessoas entravam como uma manada para comprar peixe. Era porque, agora que estou me dando conta, só tinham duas horas para comprar o peixe”, constata. O garoto cresceu e, quando terminou o ginásio (na época), aos 15 anos, veio definitivamente para o Mercado trabalhar com o pai. No começo, só aos fins de semana, depois a semana toda. Naquela época começava cedo, das cinco horas da manhã às seis da tarde, fazendo todo o aprendizado com o pescado. “A gente só conhece mesmo quando tem o contato físico com o peixe: agarrar, limpar, escamar e eviscerar. É uma escola, o peixe tem muita particularidade, nuances diferentes. Às vezes, a gente olha uma mercadoria e pensa que está boa e não está. Mas até para chegar nesse ponto, tem que conhecer”, diz ele, acrescentando que o importante é ter vontade de aprender. A rotina era pesada para um adolescente, chegando às cinco horas da manhã para comprar nos caminhões e abrir a peixaria duas horas depois, quando “o pessoal já estava quase derrubando o portão”.  Para Chico, o pescado sempre foi o carro chefe do Mercado, ontem e hoje.

 

Abrindo o Sayuri, pioneiro em culinária japonesa no Mercado 

 

O experiente Chico trabalhou com pescado até o ano 2000. Ele lembra que, ainda durante a grande reforma da metade dos anos 90, surgiu a oportunidade de trocar de ramo, o que veio ao encontro do que já queria, sentindo-se saturado de trabalhar com peixe. Durante dois anos, a prefeitura ficou num impasse sobre a natureza do novo negócio e a sua localização: um bazar/loja de produtos japoneses. Os agentes queriam a loja no andar superior, o que para Chico era inviável, pela circulação e espécie de público. “Em cima eu não sobreviveria. Até que eles se convenceram de que eu tinha razão, mas ainda pressionaram para ter um bazar. Começou assim, e depois ficou só restaurante. Entenderam que o meu conhecimento era maior que o deles. Chegam cheios de ideias, mas não têm conhecimento do Mercado”. Por falar em conhecimento, de pescado Chico tinha de sobra. E sua segunda esposa, que conheceu no Mercado, Sandora Sayuri Suzuky, também conhecia tudo de culinária japonesa: sua mãe era dona do primeiro restaurante japonês da cidade, o lendário Sakaes, que por muitos anos foi conhecido como o melhor no gênero, aclamado e muito citado por Luis Fernando Veríssimo, notório glutão e gourmet. “Aí juntamos os conhecimentos. O início foi um pouco difícil, por ser no segundo piso do Mercado e apresentar uma proposta diferente. Na época não existia muito (casas do gênero), não era um público como tem hoje”, resume. Mas, a partir de 2004, o negócio deslanchou. Durante muito tempo, o Sayuri foi o único japonês do centro da cidade, firmando sua imagem de restaurante tradicional, com a parte fria (sushis e sashimis) e os pratos quentes. Para Chico, a vantagem da culinária japonesa em relação à nossa é que ela é bem mais light, até na fritura. “Por várias exigências que tem na cozinha japonesa. O óleo tem quer ser numa temperatura bem alta, para não deixar a comida gordurosa. E, também, é usado só nas primeiras frituras, depois já fica saturado”, explica. São dois tipos de clientes do Sayuri: o do dia a dia, que trabalha no centro, e o do sábado, que é um cliente diferenciado, mais elitizado, buscando uma alimentação mais saudável.

 

A relação com o Mercado

 

“Analiso o Mercado como uma nova família que a gente forma, porque passamos mais tempo aqui do que em casa, que é uma hospedaria, onde só vamos para dormir”, diz. Dos cinco filhos, quatro já estão formados, faltando apenas a menor, que tem 12 anos. Ainda hoje, Jefferson e Michele, filhos do segundo casamento, ajudam no restaurante aos sábados. Chico gosta que venham para saber “de onde saiu tudo o que eles têm hoje, tanto o material, como o intelectual”. Porém, sempre diz para eles que o futuro não é ali. “Dei estudo para eles, justamente para não dependerem do Mercado. Acabo trazendo porque não tenho tempo para ficar com eles em casa. Mas, se a veia comercial deles falar mais alto, eles já terão conhecimento para tocar”. Quanto ao Mercado, acha que antes havia um espírito de união mais forte, onde se lutava por um todo. “Hoje se perdeu um pouco o amor pela instituição que é o Mercado. Vejo, hoje, um individualismo muito grande, cuidam mais do seu ramo e não pensam no todo, o que é um erro. Enquanto a gente for unido e lutar pelo Mercado, vamos ter a nossa casa em pé”. Diferença dos tempos? Ele diz que antes se trabalhava mais com o corpo e hoje, com a cabeça. Atuante pela causa do Mercado, participou de gestões da Associação Comercial do Mercado Público, ASCOMEPC, de 2000 a 2006. “Foi bom e gratificante pensar no coletivo”, resume. Do Mercado antigo tem boas recordações, das brincadeiras, colegas, amizades, mas não sente saudades. E, claro, a maior lembrança ainda é do pintado ensopado.

 

Foto: Letícia Garcia

 

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