Foi o 20 de setembro…

Pintura de Vasco Machado

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

Por que este dia entrou para a história? E o que movia os farroupilhas? Conversei com Giovanni Mesquita, historiador e museólogo que estuda o Rio Grande do Sul, pare entender os antecedentes e os acontecimentos desta data tão marcante para o imaginário gaúcho. 

 

Era a madrugada de 19 para 20 de setembro de 1835. No morro da Azenha, cerca de 200 farroupilhas acampavam sob o comando de Gomes Jardim e Onofre Pires. Militares experientes, os dois haviam colocado patrulhas em pontos estratégicos do entorno, para impedir que fossem atacados durante a noite por soldados imperiais.  Um deles, com 30 homens, estava na ponte da Azenha. A madrugada avançava, neste que tinha sido um dia de levantes farroupilhas. No estado inteiro, lideranças se mobilizaram para pressionar a saída do governador Fernandes Braga, que media forças contra a Assembleia e a maior independência da província. Braga, claro, já sabia da movimentação. Enviou Visconde da Camamu com seus homens para investigar a capital. “Não sei se Camamu era muito impetuoso ou muito inexperiente, porque resolveu forçar a passagem da ponte guardada”, observa o professor Mesquita. “A coisa degenerou para um combate.” Os farroupilhas atacaram com fúria, e seu pequeno número, organizado para defesa, conseguiu impedir a passagem. No combate, dois ou três imperiais morreram e Cabo Rocha acertou Camamu na coxa. Foi o que bastou: bateram em retirada para informar o governador do ataque farrapo. Fernandes Braga até tentou mobilizar as forças da cidade, mas muitos já estavam do lado rebelde. Então esvaziou os cofres da cidade e foi para Rio Grande – que se tornaria o ponto de resistência imperial durante toda a guerra. Enquanto isso, os farroupilhas aguardavam. Por que os imperiais não reagiam? “Eles passaram o dia 20 inteiro sem entrar em Porto Alegre. Ficaram parados para observar o que tinha acontecido”, explica Giovanni. Bento Gonçalves, que ficara em Guaíba, soube do confronto vencido e rumou para Porto Alegre com seus homens. Dia 21, aproximou-se dos portões da cidade – que se abriram sem luta. Tudo porque o comandante do 8º Batalhão, João Manuel de Lima e Silva, colocou-se ao lado dos farrapos, que entraram na capital. “Dia 25, os farroupilhas já consideravam o movimento encerrado”, conta Mesquita. Afinal, a pressão tinha levado à saída do governador Braga, objetivo do levante. Bento escreveu à Corte dando vivas ao imperador e mostrando que os farroupilhas estavam dispostos a conversar sobre um novo governador. Mas o Império enviou à capital uma verdadeira esquadra de guerra – sem diálogo, sem diplomacia, sem acordos. Então teve início uma revolução que duraria quase 10 anos.

 

Antes do dia 20 

“A gente imagina que desde o princípio eles tinham por objetivo uma revolução, uma oposição ao império e em larga escala. Não era nada disso”, explica o prof. Mesquita. A Revolução Farroupilha nasceu de insatisfações políticas e econômicas. Por aqui, havia duas lideranças políticas: conservadores e liberais. Eram chamados “farroupilhas” os liberais exaltados, que defendiam a reformulação política, tarifária e administrativa, maior autonomia da província, comércio livre e sem o monopólio imperial, que não revertia as riquezas para a província. A Província de São Pedro, aliás, não era isolada: 1800 era um período de revoluções burguesas em todo o mundo e, no Brasil, de insurreições motivadas pelo instável poder regencial – quando D. Pedro I voltou a Portugal e D. Pedro II não tinha idade para assumir o trono. Os farroupilhas que lideravam o movimento eram bem informados, conheciam as ideologias da época e sabiam desses acontecimentos, mesmo porque revoltosos de toda parte se refugiavam no Prata e iam parar também em Porto Alegre. Naquele dia 20, as manifestações não pretendiam implantar a república, apenas forçar a saída do governador Braga. Os próprios liberais não tinham bandeiras definitivas e eram divididos entre si: “Entre eles, a gente podia ter, por exemplo, republicanos, republicanos abolicionistas e monarquistas parlamentaristas”, diz Mesquita. Tanto que, em 1836, a própria república rio-grandense foi proclamada sem esta unidade, devido ao momento de liderança do general Neto, republicano. Em 1830, cinco anos antes do início da revolução, o governo central criou as Assembleias Provinciais, exatamente para dar mais autonomia às províncias. A primeira teve maioria farroupilha. Mas Fernades Braga tentava coibir o poder da Assembleia, a convivência era difícil e os farroupilhas começaram a pedir a indicação de um novo governador. “Obviamente, movimento nenhum é puramente ideológico, puramente teórico”, destaca Giovanni. “Sempre tem na sua base um jogo de interesses econômicos, dentro de uma sociedade. Os interesses em questão eram envolvidos ao gado e ao charque, base da nossa economia”.

 

A questão do charque

O Rio Grande foi um campo de batalha desde muito cedo. Por aqui, militares tinham número e prestígio. “Eles eram o sustentáculo da defesa das fronteiras e mesmo dos interesses expansionistas do império. Haviam lutado por 11 anos no Prata”, informa Giovanni. O próprio Bento Gonçalves se tornou general levando a política do Império à fronteira. Mas esses militares eram muito negligenciados – chegavam a passar anos sem receber o soldo imperial. Durante as guerras, eles ainda se mantinham através do saque, prática de guerra comum do período e que tinha o aval do governo. Na época em que o Uruguai, então chamado Banda Oriental, era domínio brasileiro, o Rio Grande passou um bom tempo usufruindo do gado daquela região. Superaquecida, a economia do charque transformou a província em importante sociedade agropecuária. Com a independência do Uruguai, o país se tornou concorrente do charque gaúcho. Um percentual muito grande dos rio-grandenses estava envolvido com esta base econômica, direta ou indiretamente, inclusive a elite militar, que começou a se inflamar contra a situação. Em meio às reclamações, a resposta foi outra: o charque passou a ser sobretaxado, com aumento de impostos sobre ele e sobre o sal. Tudo temperado pela falta de compreensão de um ou outro governador no poder. Charqueadores e proprietários de terra eram representados na política pelos farroupilhas – e assim se chegou ao 20 de setembro.

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