Flávio Hanssen – De festivais e canções

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

A voz possante de Flávio Hanssen carrega a marca dos festivais nativistas. Já no primeiro em que participou, ainda com o Grupo Raiz Nativa, a música que interpretou venceu como mais popular. Alguns anos depois, sua trajetória solo seguiu nos festivais pelo estado, nos quais venceu diversas vezes como intérprete. Ao todo, o porto-alegrense já tem mais de 50 prêmios, três discos e cerca de 600 músicas interpretadas gravadas em discos de festivais. Um trecho de “De cima do arreio” (Érlon Péricles) é destacado por Hanssen para sintetizar sua trajetória de 30 anos de canções: “A estrada é comprida e andar vale a pena/ Pois quem busca sonhos de alma serena/ Tocando pra frente sabe aonde vai!”.

 

A história de Flávio Hanssen tem os dois pés nos festivais de música gaúcha, que marcaram época no estado, apesar de seu início ter sido na cidade grande. Com o Grupo Raiz Nativa, varava madrugadas na noite porto- -alegrense. “Comecei a cantar quando aconteceu a explosão da música gaúcha na capital, em 1983, e fui um dos primeiros tocar no La Pulperia, famoso bar que existia em Porto Alegre, por onde vários artistas, hoje de renome, passaram”, conta. Foi exatamente neste palco que o contato com artistas e compositores de diversas partes do estado começou, abrindo possibilidades para o ciclo de festivais.

Foto: Letícia Garcia

Festivais pelo Rio Grande

O primeiro festival foi a 5ª Tertúlia Musical Nativista em Santa Maria, que trouxe o prêmio de música mais popular em 1984. “Começamos com o pé direito”, comemora. “A música ‘Limpa banco’ falava da situação política e econômica do país. Era época da ditadura, com gente lutando pelas diretas, e a música tinha tudo a ver com isso e estourou, tocava muito nas rádios”. Vieram convites para outros festivais pelo estado – na época, eram cerca de 50 por ano. Separou-se do grupo e seguiu carreira solo nos festivais. Seu nome se destacou, pois conquistou diversos prêmios – no Reponte da Canção em São Lourenço do Sul, Um Canto para Martin Fierro em Santana do Livramento, Comparsa da Canção Nativa de Pinheiro Machado, Ponche Verde da Canção Gaúcha em Dom Pedrito, Carijo da Canção Gaúcha em Palmeira das Missões, Coxilha Nativista em Cruz Alta, para citar alguns.

Canções que tocam

Grande cantador de milongas, músicas como “Magia da milonga” (Vaine Darde e Pedro Guerra), “A morte de Felicio” (Carlos Moacir e Carlos Madruga), “Uns e outros” (Carlos Osmar Vilela Gomes e Tuny Brum Santa Maria), “Coisas de quem é campo” (Xiru Antunes e Carlos Madruga) e “O rio das canoas” (Vaine Darde e Clóvis Braga) já passaram por sua voz. Hanssen canta o que lhe transmite significado, seja emocional ou social. “Já fiz várias músicas de protesto, falando sobre ecologia, sobre crianças de rua. O artista tem o poder da comunicação em cima do palco e pode estar protestando contra este tipo de coisa que acontece e que vemos no dia a dia”. Seu último disco, “Com o vento na cara”, revive alguns de seus clássicos, como “Pilchas” (Luis Coronel e Ayrton Pimentel) e “Me comparando ao Rio Grande” (Iedo Silva).

Ontem e hoje

Hanssen já cantou com muitos artistas, sejam compositores ou colegas de palco. Entre as parcerias, destaca Mauro Marques, Mauro Moraes e Osmar Carvalho, dos tempos de festival, Carlos Omar Villela Gomes e Rodrigo Bauer, poetas com os quais trabalhou mais recentemente, e Leandro Rodrigues, Luizinho Correia, Marcelinho Freitas e Rodrigo Maia, de sua banda. Não deixa de sublinhar o nome de Aparício Silva Rillo, “que para mim foi um dos poetas mais brilhantes do gauchismo que teve sua obra musicada”. Hanssen destaca a força da música regional, apesar de observar que as canções mais conhecidas continuam sendo as de seus tempos de festival. É nos festivais que vê uma renovação, tanto nos eventos em si quanto nos palcos, com o surgimento de novas vozes. “São muito importantes os festivais mirins e juvenis para incentivar a gurizada, isso é muito bacana. Chega a emocionar ver os piazinhos cantando”, registra. “A gente faz parte desta história”.

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