Flávio Alcaraz Gomes: “Não tem shopping, nada que se compare com o nosso Mercado”

Flávio é um dos maiores nomes do rádio-jornalismo do Rio Grande do Sul. Uma das vozes mais ouvidas entre os gaúchos, fez coberturas jornalísticas históricas e publicou livros onde narra sua trajetória como repórter e suas vivências. Aqui ele faz um pungente depoimento sobre o Mercado Público, das suas lembranças, reproduzidas com a sua conhecida verve de cronista da cidade, especialmente do centro. Flávio também foi um dos que se colocaram contra demolição do Mercado Público, onde teve uma atuação fundamental. Portanto, eis aqui um ilustre e especial depoimento para os leitores.

Desde menino, meu pai me levava no Mercado. Ali perto tinha a doca de frutas, onde vendiam à “cento”. Tinham os barcos, que estacionavam ali perto. Tinha também uma banca no Mercado que fazia muita propaganda, eu estava no ginásio, era a Banca 24. Fazia muito sucesso, tanto que os nossos colegas se apelidavam de “24”, tão famosos quanto a banca. Depois, já jornalista profissional ia sempre com meu amigo Maurício, (Sirotsky Sobrinho, fundador da RBS. NR) que tomava sorvete, ali na banca 40. Sou cliente até hoje da Banca do Holandês. Na enchente de 41 ficaram encobertas todas as bancas do Mercado, acho que cerca de 2 metros de altura. Meu pai era diretor comercial da Folha da Tarde e sugeriu que se colocasse uma placa no local até onde águas tinha chegado. Depois queriam demolir o Mercado. Foi salvo por uma campanha do mesmo jornal, a Folha da Tarde, comandada por Valter Galvani. Depois o Mercado Público foi remodelado. Hoje é moderno, mas ainda não perdeu a sabor de patrimônio da cidade.
Eu tirava plantão no jornal, no Correio do Povo, uma vez semana, saía às três horas da madrugada e ia tomar uma sopa, ou comer um filé no Treviso, que não fechava nunca. Essa tradição foi substituída pelo Gam­brinus, do Antonio Melo, querido companheiro, que mantém a tradição. Ali, no Treviso eu assisti várias vezes o Francisco Alves. O Antonio, do Gambrinus, herdou a cadeira onde o Francisco Alves sentava no Treviso. A tradição gastronômica veio de longe. Tem também o Naval,. O garçom dizia “salta um file com bailarina, carrega no entulho!” – uma bela tradição de Porto Alegre.
Eu sou freguês, tenho ido quase todos os sábados lá com meu neto. O que tem que ser providenciado é um estacionamento. Sou freguês da Japesca. O porto-alegrense tem um defeito: só consome peixe na semana santa, nós somos um povo carnívoro. Emile Zola disse que os mercados de Paris eram o ventre da cidade e eu posso repetir que o Mercado Público é o ventre de Porto Alegre.

 

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