Fiorindo Alves de Miranda: uma vida no Mercado

Ele chegou no Mercado em 1965, com apenas 19 anos, vindo de Lajeado, trazido por amigos que já estavam em Porto Alegre. Mesmo assim acabou retornando para a sua cidade natal. O período de adaptação na capital foi difícil, mas depois de 10 meses em Lajeado veio de vez para Porto Alegre. No interior ficaram os outros nove irmãos e o pai, vivo até hoje, com 92 anos.

 

    Começou na banca 44, cujo dono era sogro de Manoel Martins, proprietário da lendária Banca 40, para onde ele foi posteriormente, em 1979. Famosa pelos seus sorvetes, a banca na época não tinha a variedade de produtos oferecidos hoje, embora já tivesse também um grande movimento. Eram só salada de frutas simples, com nata, três tipos de sorvetes e  a Bomba Royal. Os “macetes” do novo trabalho em um mês ele já dominava, chegando, inclusive, à gerência até o ano passado. Ele é um “faz tudo”, principalmente as compras, e abre a banca pela manhã. Lembra que antes o sorvete era feito à mão. Depois é que vieram as batedeiras para dar conta do movimento. “Era fila da manhã à noite”, recorda. E o único acompanhamento dos sorvetes era um copo de água gelada, oferecido pela casa. Fiorindo também afirma que a antiga 40 era bem maior do que a atual, que mudou bastante. “A Banca é um ponto turístico do Mercado, conhecida no mundo inteiro. Tem muita gente que vem de fora, muito turista porque tem muito gaúcho que está lá fora e recomenda”, diz. Nesse tempo todo de Mercado, fez muitas amizades, com colegas e até fregueses. Viu muita gente se aposentar, outros que saíram, fazendo negócios fora. “Tenho muito conhecimento no Mercado, conheço todo mundo. E não paro de trabalhar, enquanto tiver saúde vou trabalhar. Não gosto de ficar parado”. 

 

 

Clientes, anônimos e famosos

 

    Dos tempos antigos do Mercado tem boas recordações. Chega até mesmo a dizer que “antigamente o Mercado era melhor”. Lembra da época em que as bancas eram cobertas apenas por lonas, com uma portinha na frente. “De noite só puxava a lona para cima, era a céu aberto e não tinha piso, era chão mesmo. E domingos e feriados trabalhava até a uma hora da tarde”. Também pegou os tempos do antigo Mercado Livre, que ficava junto ao Guaíba e onde se vendia exclusivamente frutas e verduras. “Depois da reforma foram tiradas, no mínimo, umas 80 bancas. A 40, por exemplo, tinha dois pisos e fazia fundos com a Japesca. “Antigamente só tinha corredorzinho, agora ficou bonito, mas tem mais espaço vazio do que antes”, compara. Quanto à clientela, acredita que dos antigos a maioria já morreu, mas de vez em quando chega um cliente daqueles tempos. Agora, informa, tem muito jovem e vem mais famílias. Dos clientes famosos, cita, principalmente o jurista Paulo Brossard que, quando esteve nos Estados Unidos fez muita propaganda da Banca 40. “Nunca se cobrava nada dele. Agora ele só dá uma passadinha, quando vem fazer compras na Banca 43. Ele não pode mais comer doces”, informa. Outros famosos que passam pela banca são Paulo Santana, Paulo Amorim, Ruy Carlos Ostermann, Anonymus Gourmet, recentemente o técnico gremista Vanderlei Luxemburgo e muitos comentaristas de futebol.

 

 

A Banca 40, ontem e hoje

 

    Por muito tempo a banca oferecia apenas os seus três conhecidos sorvetes e a famosa Bomba Royal, que surgiu durante a Segunda Guerra – com o mesmo preparo até hoje: salada de frutas embaixo, três sabores de sorvete, creme, morango e chocolate, mais nata e em cima o moranguinho para enfeitar. Fernando Martins, filho do velho Manoel, que assumiu a banca depois do falecimento do pai, era muito resistente em introduzir novos produtos. Um dia fez uma viagem para Portugal. Fiorindo e mais um gerente resolveram, então, fazer uma surpresa e criaram a Banana Split, que veio a ser tornar uma das grandes atrações da 40. “A gente fazia e dava para os clientes provarem. Dois anos depois estava vendendo mais de 300 por dia”, lembra. O dono, naturalmente, gostou. A salada de frutas também evoluiu, hoje é o “sorvetão”, com saladas de frutas embaixo, sorvete, nata e a cobertura por cima. Fiorindo acompanha toda a produção até hoje, menos as sopas. Além disso, atende quando falta alguém, corta as frutas de manhã, tira água de côco e se precisar dá uma mão para recolher a louça. E também ajuda a treinar a “gurizada” nova que chega para trabalhar. Mas o seu trabalho mesmo é fazer as compras, trabalho que hoje divide com mais quatro colegas e durante muito tempo fez sozinho, o que o levou pensar em até sair do emprego, de tão esgotado que se sentia. Muito diferente de hoje que, como ele diz, “ninguém quer nada com nada”. Garante que é muito difícil manter uma boa equipe hoje. “Tem gente que entra no primeiro dia, pega o dinheiro para almoçar e não volta mais”, conta.

 

 

Um homem realizado

 

    No ano passado a Banca foi vendida. “A dona Madalena estava muito cansada também e vendeu direto para o Gabriel (Mendo da Cunha) e o Paulo (Gottert)”. Os novos sócios pediram que ele continuasse, pedido que ele logo aceitou: “Sempre gostei de trabalhar na banca, faz parte. Gosto de lidar com o público, tenho amizade grande com os funcionários, é um ambiente de respeito. O dia que eu sair daqui vou sentir, é uma vida no Mercado, a gente passa mais tempo aqui que em casa”. Separado, tem um casal de filhos, que quase não vão no Mercado, porém. Ela, Adriana, é bancária e o filho Alexandre trabalha com vendas. “Meus filhos dizem, ‘larga de trabalhar, pai, não tem necessidade de estar trabalhando’. Mas se eu parar, vou fazer o quê? Estou em casa deitado, fico me lembrando do Mercado. Se fico fora, 15 dias na praia, esqueço, mas se ficar por aqui, fico com a cabeça sempre no Mercado”, diz. Mas mesmo assim, hoje pega mais leve: trabalha um sábado sim, outro não e sai às cinco da tarde. Se considera feliz, realizado. “A gente se criou praticamente aqui dentro. Dei estudo para os meus filhos, os quais têm muito orgulho do meu trabalho aqui no Mercado”. Construiu um bom patrimônio (com ajuda de ter ganho sozinho na Quina, o que lhe rendeu oito imóveis). Para ele, o Mercado é uma parte da história de Porto Alegre. E, principalmente, um lugar onde tem preço, qualidade e é cenário de muitas histórias. “É uma novela esse Mercado. O que a gente viu e vê de coisas, é impressionante”, resume.

 

 

Foto: Letícia Garcia

 

 

COMENTÁRIOS