Festejos de setembro

Este é o mês em que o tradicionalismo gaúcho encontra a sua mais ampla expressão nos Festejos Farroupilhas, que marcam a rememoração dos acontecimentos da Revolução Farroupilha e a celebração das tradições gaúchas. Mês para pensar o passado, mas também os rumos da cultura rio-grandense.

 

CULTURA GAÚCHA, por Letícia Garcia

A origem dos Festejos Farroupilhas está nos desfiles organizados pela Brigada Militar em homenagem ao 20 de setembro, marco inicial da Revolução. As comemorações aconteciam esporadicamente, como informa Nairo Callegaro, presidente do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG). A 1ª Ronda Crioula, realizada pelo Grupo dos Oito em 1947, pode ser considerada uma precursora da Semana Farroupilha, que foi oficializada pela Lei Estadual nº 4.850/64, estendendo-se de 14 a 20 de setembro. Depois disso, diversas entidades passaram a trabalhar juntas na comemoração da data.

 

Foto: Cristine Rochol/PMPA

Desfiles e acampamento

Em função dos desfiles, que continuaram acontecendo, surgiu espontaneamente o Acampamento Farroupilha nos anos 80 — um grupo que vinha a Porto Alegre para desfilar e se reunia no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho, o Parque da Harmonia, que hoje conta com uma estrutura organizada para receber acampados e visitantes. Fundamentais nos Festejos, o desfile é responsabilidade do Governo do Estado do RS (Comissão Estadual) e o Acampamento Farroupilha, da Prefeitura de Porto Alegre (Comissão Municipal), com participação do MTG em ambas as comissões.

 

40 dias de festejo

A proporção que os eventos alcançaram tornou a Semana Farroupilha pequena, tanto que hoje os Festejos ocupam mais de 40 dias. “Essa foi a grande mudança, por causa do crescimento e do envolvimento com a data”, diz Nairo. Este ano, a abertura oficial aconteceu em 11 de agosto na cidade de Iraí, com o acendimento e geração da Chama Crioula, que vai percorrer diversos locais em cavalgadas. As atividades, no entanto, continuam concentradas em setembro, com abertura em Porto Alegre no dia 7 e programação até o dia 20.

 

Tropeirismo

O tema dos Festejos Farroupilhas deste ano é o tropeirismo, movimento pastoril comercial de transporte de cargas animais, que legou traços à cultura campeira. “O tropeirismo reflete a nossa formação histórica e não é uma coisa exclusiva do Rio Grande do Sul”, salienta Nairo. Movimentando as riquezas e as populações em território sul-americano, os tropeiros abriam caminho a cavalo e participaram do povoamento de uma ampla região num período em que o Cone Sul começava a entrar nos mapas do poder, a partir do século XVII. Estão previstas palestras sobre o tema na programação desse ano.

 

Borghettinho

O patrono dos Festejos 2018 é Renato Borghetti, conhecido instrumentista regional de gaita-ponto. Borghettinho começou a sua trajetória musical no 35 CTG, mas hoje dialoga com sanfoneiros de todo o país, além de fazer experiências com jazz, rock, música erudita e argentina. Ele também é criador do projeto social Fábrica de Gaiteiros, que leva instrumentos e ensino da gaita-ponto para jovens carentes. “É interessante essa ligação que ele tem com a música, com o Sul, com o Brasil e com o mundo — ele leva a nossa cultura para o mundo. Por isso foi feito dessa forma, com uma visão mais contemporânea, olhando para o futuro de onde essa questão do tradicionalismo está”, diz Nairo.

 

Passado e presente

“Eu entendo que aquela sociedade que esquece de onde veio, suas origens, corre o risco de se perder — de olhar para o lado e se desconhecer. Acho que não só os tradicionalistas, mas a sociedade gaúcha como um todo tem isso como particularidade muito especial”, diz Callegaro. “Os Festejos Farroupilhas vêm para relembrarmos essa nossa formação histórica, que foi diferente [a exemplo da longa luta pelas fronteiras], esse nosso sentimento de pertencimento, a nossa identidade e a nossa cultura local.” A respeito do lugar do tradicionalismo hoje, a posição do presidente alinha-se àquela dos principais nomes criadores da tradição, Barbosa Lessa e Paixão Côrtes, que defendiam o caráter dinâmico da cultura. “Eu entendo que o Movimento Tradicionalista Gaúcho está em uma constante transformação, como a sociedade. É preciso saber que começamos o movimento há 70 anos, quando o processo social e o contexto eram outros, a sociedade tinha um modelo muito diferente do que é hoje. Nós temos que fazer uma releitura de todo esse processo dos 70 anos, de como se espera desse tradicionalismo gaúcho organizado algo positivo, que possa se encaixar ao modelo atual da sociedade, sem perdermos as referências, as origens e os valores fundamentais que nos trouxeram até aqui”, afirma.

 

Integração

Essa integração passado–presente aparece na convivência de gerações nos ambientes culturais tradicionalistas, na tecnologia como mecanismo de projeção e em ações como a adesão do MTG, em 2017, ao movimento ElesPorElas (HeForShe), da ONU Mulheres, iniciativa pela igualdade de gênero que busca envolver homens e meninos na desconstrução de estereótipos. “Em todos os eventos que nos envolvemos como tradicionalistas, nós defendemos essa bandeira e esse posicionamento”, diz Callegaro. “O movimento tradicionalista é uma parcela dessa sociedade e precisa dar a sua colaboração para esse todo coletivo realmente acontecer. Temos que fazer a nossa parte.”

 

Adeus a Paixão Côrtes

Foto: Ivo Gonçalves/Arquivo PMPA

No dia 27 de agosto, faleceu, aos 91 anos, o folclorista João Carlos D’Ávila Paixão Côrtes, um dos principais responsáveis pela criação do tradicionalismo gaúcho. Natural de Santana do Livramento, Paixão mudou-se para Porto Alegre num período tumultuado: ao mesmo tempo em que havia um avanço cultural norte-americano, o governo proibia manifestações culturais regionais a fim de fortalecer a identidade nacional. Desgostoso da situação e saudoso da sua vivência no campo, Paixão encontrou colegas na escola Júlio de Castilhos que compartilhavam esses sentimentos e com eles criou, em 1947, o Departamento de Tradições Gaúchas no Grêmio Estudantil do Julinho.

O Grupo dos Oito, como os jovens ficaram conhecidos, passou a adotar ações para valorizar práticas campeiras. Paixão liderou a criação da Chama Crioula, acesa a partir da centelha da Semana da Pátria, e a 1ª Ronda Crioula, que foi de 7 a 20 de setembro. Também foi um dos fundadores do primeiro Centro de Tradições Gaúchas, o 35 CTG, em 1948.

Nas décadas de 40–50, ao lado de Barbosa Lessa, ele percorreu o estado para recuperar saberes populares a partir da história oral. Catalogaram mais de duas dezenas de danças praticadas pelo Rio Grande do Sul, pesquisas que deram origem ao grupo de dança Tropeiros da Tradição, fundado em 1953, ao Manual de Danças Gaúchas, ao LP Danças Gaúchas (com Inezita Barroso) e a diversos livros.

Paixão foi modelo para a estátua do Laçador em 1954, ator no filme “Um certo capitão Rodrigo” em 1971 (baseado na obra de Erico Verissimo) e patrono da 56ª Feira do Livro de Porto Alegre em 2010. Foi radialista, músico, escritor, produtor e compositor. Formou-se em Agronomia pela Ufrgs e trabalhou na área, especialmente com ovinocultura, mas a sua paixão realmente foi a pesquisa cultural da história do RS — documentou as danças e os costumes campeiros, mas também o desenvolvimento da música urbana em Porto Alegre. Foi pesquisador até o fim da vida e um dos maiores responsáveis por organizar as tradições gaúchas, contribuindo, assim, para a própria construção da identidade do RS. Paixão ajudou a formatar o movimento de valorização regional do Rio Grande do Sul.

 

Aproveitando o caráter de rememoração de setembro, a partir da próxima edição começo a abordar as muitas culturas presentes na formação histórica do Rio Grande do Sul. O estado conta com uma multiplicidade étnica muitas vezes ignorada — a proposta é fazer ver essas diferenças e esses muitos recortes.

 

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