Feira de Ladra: Lisboa Antiga

Feira de Ladra: Lisboa Antiga

 

     Alfama, bairro antigo, medieval na arquitetura, com ladeiras íngremes, ruas estreitas, não perde as formas e as características de sempre. É o caminho para o Mercado de Santa Clara, na direção da Graça. Vencido pelos centros comerciais, agora acolhe artesãos, pintores e exposições. O elétrico 28, bonde tradicional, serve como alternativa; é a minha sugestão.

     Muitas residências e prédios requerem manutenção, o comércio não é rico, as lojas e armazéns pararam no tempo.

     Mas, duas vezes por semana, tradicional feira, séculos de costumes, aqui é soberana.

     A Feira de Ladra, como a denominação indica, era local para vender e comprar artigos cuja procedência não era questionada. Sua origem foi junto aos muros do Castelo de São Jorge; sem pagar tributos ao soberano todas as aquisições ou trocas eram permitidas.

     Agora, deslocada para a atual posição, faz parte das indicações dos guias turísticos. Como referencia utilize a cúpula da Igreja de Santa Engracia, atual Panteão Nacional. Nele encontramos as sepulturas de Amália Rodrigues, fadista famosa, e de escritores como Almeida Garret e Guerra Junqueiro. Especula-se que as cinzas de José Saramago, prêmio Nobel de literatura, falecido em 2010, num gesto de reconciliação com Portugal não teria no Panteão o lugar merecido de repouso.

     Como feira de pulgas, além de roupas novas ou usadas, uma infinidade de tendas oferecem bugigangas de todos os tipos. O que não tem mais lugar no nosso armário e baús tem aqui o destino adequado. Tempos difíceis, desemprego em alta, levam as pessoas à atividade de sobrevivência. O que vale a visita são as imagens, os sons, as barganhas entre pessoas.

     Não há muito para adquirir, a menos que estejamos interessados na coleção de livros antigos, de miniaturas diversas ou de discos de vinil. Para fanáticos e compulsivos colecionadores, no meio da confusão, sempre existe a possibilidade de encontrar o elo perdido. Encomende ao vendedor aquele disco 78 RPM preto, que agora é raridade, a peça que falta na nossa relação.

     É preciso paciência, ter tempo, para não comprar gato por lebre.

     O dito popular, “Mais outra obra de Santa Engracia”, nasceu aqui. Como a construção da igreja de Santa Engracia levou 284 anos, os pedidos permanentes de recursos para completar a obra constituíram um verdadeiro caso do “Conto do Vigário”.

     Antes de continuar o passeio em direção ao Castelo de São Jorge, baluarte muçulmano tomado em 1147, local adequado para uma visão ampla de Lisboa, se a fome apertar, a sugestão é comprar na tasca da esquina um “prego” — bife grelhado colocado no pão. O bacalhau e o vinho branco do Alentejo, um Marquês de Borba, ficarão para mais tarde.

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