Fábio Godoh: a Ipanema é minha religião

 

PAPO DA IPANEMA

Fábio Godoh: a Ipanema é minha religião

Desde 2006 na Ipanema, Fábio Godoh, 32 anos, o irrequieto apresentador do Chimia Geral, programa que sacode as madrugadas, já conseguiu ser expulso da Rádio da Universidade, onde apresentava um programa “muito agressivo sonoramente”, muito além dos cânones do tradicionalismo universitário. Sorte dele, acabou indo parar na Ipanema, onde começou fazendo um programa de pod cast de literatura, a convite de Eduardo Santos. Para ele, que vê a música como um braço armado da literatura, para a cultura gaúcha avançar na música, principalmente, é preciso um diálogo mais forte com Uruguai e Argentina. Lá, acredita, eles já passaram pelo que passamos e já construíram a sua identidade, que tem praticamente os mesmos símbolos que nós, o gaúcho, o chimarrão, entre outras coisas.

    Depois eu vi que tinha programa de reggae, de blues, então eu propus para o Edu fazer um programa de música de rock latino, que tem até hoje, o Circo Beat, isso em 2008. Um dia entrou o Eron Dalmolin e achou que eu podia ficar na madrugada, me passou o Chimia Geral. Eu não queria de madrugada, mas ele falou que eu podia fazer o que eu quisesse. Aí começaram a renascer aquelas coisas da Rádio Universidade. Pensei na poesia, como deveria ser um programa de poesia no rádio? A ideia era que a forma do conteúdo já falasse sobre o tema. Então, nesse formato do programa da noite a ideia sempre foi ser um compromisso com a contracultura clássica, Allen Ginsberg, Bob Dylan, poesia concreta, Glauber Rocha, vanguarda, Oswald de Andrade, toda essa coisa que aqui nunca teve, uma correspondência do Movimento de 22. Um movimento de vanguarda que pegasse os nossos símbolos e virasse do avesso e criasse outras coisas. Aqui a tradição sempre foi forte. Então a minha ideia era fazer um programa que falasse da música do Rio Grande a partir de uma ótica do deboche, da cultura do estado, desse bairrismo que está na moda agora de uma maneira com uma visão bem tropicalista, bem acadêmica.

A irreverência no ar

    Essa é a força motriz que faz com eu crie coisas que parecem malucas e sem sentido para muitos, mas que tem por trás essa coisa acadêmica. E fazer esta ligação do Rio Grande do Sul com a Argentina. O Rio Grande como centro da Argentina e do Brasil, o lugar onde essas coisas podem passar de uma maneira louca, se misturar e seguir. Esta é a ideia do Chimia Geral. O programa foi semanal durante um ano e depois o Pancho, que hoje está no comando da nave, teve a ideia de transformar em diário. Ele queria essa coisa do programa na madrugada, porque a rádio sempre teve essa história dos programas da madrugada, de serem mais livres, os ouvintes entram, falam. Tem um descompromisso com a formalidade. E ele queria isso, visualizou um programa maluco na madrugada. A Ipanema, que é a mais maluca de todas, não tinha nada na madrugada. Daí, para mim, foi a realização:  boto os ouvintes para falar, não tem produção, o cara liga e entra no ar. Uma das coisas que sempre me chamou a atenção foi o palavrão, um dos motivos que a gente foi expulso da Rádio da Universidade. Hoje com essa ditadura do politicamente correto, se tu falar palavrão num veículo de massa é uma bomba. Então eu tento trazer essa linguagem com o palavrão, com gíria, recuperar aquele clima da Osvaldo Aranha.

 

Ipanema e o rock gaúcho

    Acho que a cena do rock gaúcho tem muita coisa em potencial, a Dingo Bells, a Pondera, que é uma das minhas preferidas, não é uma banda pronta. A ideia do programa não é julgar, é dar espaço. Isso motiva as bandas a seguirem e surgir outras bandas. Estamos num momento não de julgar, mas de estimular cegamente, porque pela motivação como os caras estão produzindo rock, vão sair grandes bandas em breve. A Ipanema historicamente criou esta ideia do rock gaúcho. Outros já faziam isto antes, mas a Ipanema que fixou. Ela se desligou disso um bom tempo, teve uma certa saturação nos anos 80, 90 da ideia da música daqui.  Acho que poderia ter mais espaço para as bandas, não só na Ipanema, mas em todas as rádios. Na Argentina tem uma rádio FM, nacional, que só toca rock argentino, 24 horas por dia. Já imaginou ter uma rádio que só tocasse rock brasileiro? Ninguém pensa mercadologicamente essa ideia. É cultural, não comercial. A ideia de valorizar as coisas locais é fundamental para o encontro da identidade do lugar.

Provincianismo e identidade gaúcha

    Agora estamos vivendo uma esquizofrenia – essa coisa do provincianismo que está na moda é muito ridículo. A gente é melhor em tudo, só quando estamos falando para os outros. Porque, quando estamos falando para nós, os outros são melhores em tudo. Pergunta se o sujeito é mais gaúcho ou mais brasileiro? 80% vai dizer que é pelo estado, só que eles não consomem nada daqui. Não existe relação de afeto com o que é daqui, existe de fanfarronice com a ideia de ser daqui. Na cultura gaúcha falta a capacidade de rir de si mesmo. Por que piada de gaúcho cola? Porque os caras ficam bravos, a gente não tem capacidade de debochar da nossa decadência. O dia que tiver isso pode ser que a cultura comece a criar uma identidade mais sólida – o dia que a gente puder brincar com a Revolução Farroupilha, com a degola dos negros, com esse símbolos. Separatismo é tabu – um sujeito foi preso por falar em separatismo.

Foto: Fabrício Scalco

COMENTÁRIOS