Eva Sopher, dona Eva do São Pedro

Ela foi o rosto e o coração do Theatro São Pedro por 41 anos. Marcou a vida cultural porto-alegrense como diretora da Pro Arte e principal responsável pelo renascimento do teatro central da cidade. Eva Sopher, carinhosamente chamada de Dona Eva, faleceu este ano e deixou um legado de inspiração e perseverança. Foi uma guardiã da cultura por onde passou.

 

CULTURA GAÚCHA, por Letícia Garcia

Foi em Frankfurt, Alemanha, que nasceu Eva Margareth Plaut em 18 de junho de 1923. Desde muito cedo ela se interessou pelo meio artístico: aos 11 anos, mesmo contra a vontade do pai, começou aulas de arte, em especial desenho. Em uma Alemanha à beira do colapso nazista, logo os Plaut, família judia, começaram a sentir as perseguições, a princípio sutis, mas que acabaram levando o pai de Eva a sair do emprego. Emigraram para o Brasil em 1936 e fizeram morada em São Paulo, onde Eva seguiu os estudos no Instituto Mackenzie, numa escola de artes e com uma escultora. Com problemas financeiros em casa, Eva, aos 16, buscou o primeiro emprego na loja Casa e Jardim, fundada por Theodor Heuberger, também criador da Pro Arte — sociedade de artes, ciências e letras. Não foi por acaso que Eva escolheu essa loja e galeria de objetos artísticos para trabalhar: queria rodear-se daquilo que amava. Foi pensamento semelhante que levou Eva a se mudar para o Rio de Janeiro.

 

SEGUINDO AS PAIXÕES

O intenso meio artístico carioca e a paixão por um antigo namorado levaram Eva, aos 20 anos, a mudar-se para o Rio. Ali, recomeçou a vida, trabalhando em uma boutique enquanto tinha aulas de encadernação e estudava escultura. Morava com Mirella Vitra, harpista da Orquestra Sinfônica Brasileira. Depois de três anos nesse novo ambiente, conheceu Wolfgang Klaus Sopher, com quem se casou em poucas semanas. Mudaram-se para perto de Petrópolis e tiveram duas filhas, Renata e Ruth. Lá, Eva criou os seus jardins artísticos, arranjos de flores e plantas nativas abrigados por vasos de barro, esculpidos por ela artesanalmente. O apartamento da família servia de espaço de exposição. Aos 27, Eva adquiriu nacionalidade brasileira. Passaram-se 10 anos e, em 1960, Wolf recebeu um convite para trabalhar em Porto Alegre. Foi assim que os caminhos de Eva e dos gaúchos se encontraram.

 

Dona Eva Sopher sorrindo no teatro são pedro

Dona Eva do Teatro São Pedro

VIDA CULTURAL

A capital gaúcha não tinha muitas atrações artísticas naquele período, coisa que Dona Eva não demorou a notar. Escreveu a Theodor Heuberger e colocou-se à disposição para fazer algo a respeito. Prontamente ele a convidou a reorganizar a Pro Arte da cidade. Ela aceitou. Sob a sua direção, a Pro Arte passou a realizar anualmente temporadas culturais ininterruptas, trazendo para Porto Alegre concertos, peças e apresentações com artistas como Zubin Mehta e a Orquestra Sinfônica de Israel, aproximando artistas estrangeiros e brasileiros. Foram 23 anos de trabalho contínuo, 23 temporadas. Eva recebia artistas na sua própria casa, para trocar experiências e planos. Pelas suas mãos, a Pro Arte se tornou referência. Em 1973, num concerto da Pro Arte, foi determinada a interdição do Theatro São Pedro, devido ao seu mau estado e às baixas condições de segurança. Eva, então, tomaria um novo rumo.

 

 

 

REERGUENDO O SÃO PEDRO

Ela declarava, como registra Antonio Hohlfeldt no livro “Doce fera”, ter se apaixonado pelo Theatro São Pedro desde a primeira vez em que assistiu a uma apresentação. Depois daquele concerto, o prédio ficou dois anos interditado. Então o marido, Wolf, chamou Eva à ação: se ela não fizesse nada, o São Pedro provavelmente seria demolido. Presente no meio cultural desde a sua chegada à cidade, ela já era figura conhecida e logo mostrou a sua preocupação com o destino desse verdadeiro monumento histórico-cultural. Em 1975, assumiu a direção do Theatro, com a missão de dirigir as obras de reconstrução.

Foram nove anos atrás dessa meta, enfrentando sucessivos atrasos devido à constante falta de verbas governamentais para as obras. Partes do Theatro foram, aos poucos, reabertas ao público. Em 1982, Eva foi nomeada pelo governo do estado como presidenta da recém-criada Fundação Theatro São Pedro, que começou a recolher verbas privadas também. A partir disso, o Theatro passou a tomar toda a sua atenção. Nos 126 anos de São Pedro, em 28 de junho de 1984, finalmente ele foi reaberto e devolvido à cidade.

 

AMPLIANDO SONHOS

Não há dúvidas de que a volta do São Pedro, em toda a sua majestade, só foi possível graças à constante busca de Eva por apoio e visibilidade. “O Theatro São Pedro não estaria comemorando 160 anos se não fosse a Dona Eva”, afirma José Roberto Diniz de Moraes, presidente da Associação de Amigos do Theatro São Pedro (AATSP). “O Theatro ganhou o papel que tem hoje no Rio Grande do Sul, como um ícone da cultura gaúcha, graças ao trabalho dela. Hoje o RS se orgulha do Theatro São Pedro e muita gente não se dá conta de que, por pouco, não o teríamos mais. Ela nos ensina uma lição: valores devem ser preservados, porque são o que ligam as gerações e constroem a nossa história.” Após a reabertura, Eva seguiu traçando novos planos.

Em 2003, liderou o projeto do complexo cultural Multipalco, que hoje funciona parcialmente, ainda em construção, ao lado do São Pedro. A proposta é erguer uma estrutura de 18 mil m² com diversas instalações, como mais teatros, uma concha acústica, salas de ensaios e oficinas, para aumentar o atendimento de demandas culturais e educacionais. Afinal, sempre atenta à amplitude da arte, Dona Eva chegou a declarar: “Não deixa de ser um fato que o Theatro São Pedro, hoje, imprime a ilusão de uma qualidade de vida na realidade nem sempre presente”.

 

HOMENAGENS

Dona Eva norteou as atividades do Theatro São Pedro por 41 anos, até o fim da vida. Faleceu dia 7 de fevereiro de 2018, aos 94 anos. Todo o seu percurso em defesa da cultura lhe rendeu reconhecimentos vários desde muito cedo, com destaque para a Cruz do Mérito de Primeira Classe da Alemanha (1970), a de Cidadã Honorífica de Porto Alegre (1971), a Medalha Simões Lopes Neto do Governo do Estado do RS (1974), a medalha Chevalier dans l’Ordre des Arts et des Lettres da França (1978), o Prêmio Ministério da Cultura — Preservação da Memória (1995), a Medalha do Mérito Farroupilha da Assembleia Legislativa do RS (2003), o Diploma Bertha Lutz do Congresso Nacional Brasileiro (2004) e a Medalha Goethe da Alemanha (2015).

O carinho e a reverência de artistas que passaram pelos palcos do Theatro São Pedro e pelas temporadas da Pro Arte se estenderam ao longo do tempo, muitas registradas nas paredes do memorial do prédio. Em 2018, o Multipalco foi rebatizado para Multipalco Eva Sopher para homenagear a sua idealizadora — e deixar sempre vivo na lembrança o seu exemplo.

 

REFERÊNCIAS

“Doce fera: fragmentos biográficos de Eva Sopher”, organização de Antonio Hohlfeldt (Porto Alegre: Opus, 1991).

 

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