Estilo brasileiro — parte 2

Retomando a linha de raciocínio sobre a Catharina Sour, primeiro estilo brasileiro de cerveja reconhecido pelo guia da BJCP.

 

BURGOMESTRE, por Sady Homrich

A descrição técnica é a seguinte (tradução de Mauro Bonaccorsi):

 

“Impressão Geral: cerveja de trigo de alta fermentação leve e refrescante. Teor alcoólico médio. Amargor imperceptível. Acidez assertiva. Destaque no aroma e sabor para a fruta utilizada. Pode ser complementada por especiarias.

Aparência: coloração varia de acordo com a fruta e especiaria adicionada. Podendo ser turva (nível igual ou abaixo de uma Belgian Witbier). Quanto à coloração do colarinho, pode variar de acordo com a fruta e especiaria adicionada. Deve ser abundante, com boa formação e média a alta retenção. Sempre efervescente.

Sabor: a acidez lática é evidente, sendo de média-baixa a alta. Pode apresentar sabor de trigo em baixos níveis. Características da fruta devem ser evidentes, mas sem parecer artificial. Notas vindas de especiarias podem estar presentes para complementar o sabor da fruta, sem sobrepô-la. Amargor de lúpulo deve estar ausente. Sabor de lúpulo, diacetil e notas acéticas não são aceitáveis.

Sensação de boca: corpo baixo a médio. Carbonatação médio-alta a alta. Apresenta uma sensação de ‘repuxamento’ na boca, leve. Acidez de média-baixa a alta, sem ser agressiva ou adstringente. Álcool não deve ser perceptível. Sabor de lúpulo, diacetil e notas acéticas não são aceitáveis.

Comentários: a Catharina Sour não tem pretensão de ser o início de escola brasileira. Surgiu naturalmente entre as cervejarias que faziam Sours. Despertou o interesse de outras cervejarias a fazerem Sours e de muitos consumidores a beberem Sours. Não é restrita às cervejarias catarinenses. Recebeu este nome a fim de homenagear o estado onde a iniciativa surgiu. Não é obrigatório o uso do termo.

História: a partir do final de 2014, cervejarias catarinenses gradativamente foram lançando cervejas baseadas no estilo alemão Berliner Weisse, porém com adição de frutas. O estilo passou a se popularizar mais em 2016 quando a Associação das Cervejarias Artesanais de Santa Catarina (Acasc) tomou a iniciativa, em conjunto com cervejeiros do estado, para propagar essa modalidade de cerveja, que tem como base uma cerveja híbrida de trigo, com adição de frutas, é acidificada com lactobacilos e fermentada com cepas de leveduras neutras de alta fermentação. Ainda no mesmo ano, a Acasc realizou o primeiro workshop para definições conceituais e técnicas de produção do estilo Catharina Sour produzido hoje pelas principais cervejarias do estado.

Ingredientes característicos: malte de cevada, malte de trigo (maltado ou não). É possível utilizar aveia, cevada ou centeio em pequenas quantidades. Maltes caramelos e torrados não são utilizados. Lúpulos de alto a.a. para amargor. Levedura preferencialmente neutra.

Comparação de estilos: próxima de uma Berliner Weisse, porém com extrato original mais alto e maior teor alcoólico. Adição de fruta obrigatória.

Estatísticas vitais: OG: 1.040–1.045. IBU: 2–8. FG: 1002–1008. SRM: 2+ (podendo variar de acordo com a fruta adicionada). ABV: 4,0–5,5%.

Exemplos comerciais: Lohn Catharina Sour Jabuticaba; Itajahy Araçá Sour; Blumenau Sun of A Peach; Sambaqui Anona Muricata.”

 

Na edição passada paramos numa pergunta: o que tem de brasileiro nisso? A meu ver, muito. A união de cervejeiros que tem uma visão global da importância no Brasil na cena cervejeira mundial contemporânea e entendem ser essa a melhor maneira de demarcar território.

Assisti durante o julgamento da Copa da Cerveja POA e do Concurso Brasileiro de Cervejas, os jurados estrangeiros ficarem muito impressionados positivamente com o novo estilo brasileiro. E já foi assimilada e produzida por diversas cervejarias fora do Brasil. Agora você decide: procure uma Catharina Sour, deguste e chegue à sua própria conclusão.

Abraço do Burgomestre, com os votos de um EXCELENTE FINAL DE ANO!

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