Estatuária e monumentos: vandalismo e abandono

Centro Histórico, por Emílio Chagas

Estatuária e monumentos: vandalismo e abandono

Porto Alegre é uma das cidades mais ricas em estatuária do país e sempre esteve na vanguarda da produção de obras de arte em prédios públicos (e até privados) – obras de um período em que teve seus mais importantes escultores e artistas. No entanto, de alguns anos para cá, essas obras estão, salvo raras exceções, em estado deplorável. Degradadas, pichadas e abandonadas, são o símbolo de uma época em que as artes e a cultura ficaram em segundo plano.



Professor José Francisco Alves ministrando aula pública

O tema foi motivo de um roteiro feito pelo Programa Viva o Centro a Pé, ministrado por José Francisco Alves, professor de Escultura do Atelier Livre da Prefeitura, autor, entre outros, do livro “A Escultura Pública de Porto Alegre – história, contexto e significado”. É especialista em Gestão do Patrimônio Cultural/ Ulbra, Doutor e Mestre em História/Ufrgs, Mestre em História e Crítica de Arte/Ufrgs e Graduado em Escultura/ Ufrgs. Um currículo que faz do seu nome um dos mais respeitados na área. Em pouco mais de duas horas ele percorreu, seguido de um grupo de aproximadamente 100 pessoas, os monumentos do Parque Farroupilha – ou, melhor dizendo, os que sobreviveram ao roubo e ao vandalismo. “É importante que a população conheça e colabore. O parque é um museu a céu aberto, com algumas obras íntegras, outras nem tanto”, diz.

 


Araújo Vianna – o roubo
dos bustos de Beethoven e Chopin

Auditório Araújo Vianna, a primeira parada. Na transferência da Praça da Matriz para a Redenção, vieram também os seus monumentos, entre eles a máscara de Beethoven, feita em 1927, roubada em 1999. As outras obras são o busto de Chopin e de Carlos Gomes – todos de autoria de Fernando Corona, um dos mais importantes escultores da época, com a participação do então Instituto de Belas Artes da UFRGS, onde ele era professor. A cabeça de Chopin foi roubada este ano, restando apenas o busto de Carlos Gomes. Placas, ornamentos e marcos também foram roubados, e o que sobrou do monumento deverá passar por uma limpeza. As obras, porém, não poderão ser restauradas porque as matrizes não existem mais.


Chafariz Imperial
 

Por incrível que pareça, Porto Alegre tem mais chafarizes franceses que Paris. No início do século passado, o abastecimento de água na cidade era feito através dos chafarizes, produzidos na França. Para cá vieram, em 1861, seis grandes exemplares deles, que ao longo do tempo foram sendo realocados, encerrando a função inicial. Passaram, então, a ser meramente ornamentais. Sobraram poucos, e sem manutenção. Um deles está próximo ao auditório Araújo Vianna, chamado Chafariz Imperial, um resquício da época do Império. Em 1865 foram inaugurados os primeiros, com suas bandejas, ornamentos, água jorrando, em formato de fonte. Não se encontram vandalizados, mas estão abandonados.


Chafariz Imperial, um dos últimos exemplares

 

Monumento ao Expedicionário

Finda a II Guerra Mundial, houve uma “febre” de homenagens aos soldados brasileiros que lutaram na Itália. Em Porto Alegre, o jornal Correio do Povo liderou um movimento para erigir um monumento. “Houve um concurso bastante movimentado”, diz o professor. Deles participaram nomes como Fernando Corona e Vasco Prado, para se ter uma ideia. O vencedor, contudo, foi Antonio Caringi, grande estatuário da época – autor da estátua do Laçador. Normalmente os arcos do triunfo têm apenas uma entrada, ou três. A opção de Caringi foi de dois arcos, o que lhe valeu a jocosa alcunha de “biunfo”. O formato, porém, é o maior mérito da obra, na visão de Francisco, porque traz uma ideia de igualdade com os dois vãos. O monumento é rico em detalhes decorativos, trazendo a estátua grega da vitória Niké vestindo um capacete militar contemporâneo, além dos soldados da FEB (Força Expedicionária Brasileira), formada pelo Exército, Marinha e Aeronáutica, sendo também uma homenagem à Marinha Mercante. A sua manutenção está esquecida, com invasão de liquens e outras vegetações nocivas ao granito. Marco referencial da paisagem do parque e da cidade, apresenta também placas e dados dos combates. Foi inaugurado em 1957, com grande pompa.

 

Marco sírio-libanês

Nas comemorações do centenário da Revolução Farroupilha, a cidade ganhou uma série de homenagens de vários países. Muitos em forma de marcos, monumentos e obeliscos. Este foi o caso da comunidade sírio-libanesa, que presenteou os porto-alegrenses com um obelisco em 1935, no Parque Farroupilha. Bastante vandalizado, teve vários elementos roubados, estando atualmente bastante pichado. Também mudou de local quando o parque foi encolhido para ampliação da Av. João Pessoa. Teve placas, carrancas de leão (feitas por Alfred Adloff, um dos mais importantes da época) e brasões roubados. O que sobrou, a prefeitura recolheu.



Obelisco sírio-libanês, um dos mais vandalizados

 

Menino da cornucópia

Situado no antigo Parque Paulo da Gama, o pequeno chafariz, também francês, é um dos raros exemplos de boa conservação. Reformado há pouco tempo, é composto de um menino de ferro, com bacias, esguicho de água que sai da “cornucópia”, uma referência à mitologia de Netuno e Tritão. Mas na verdade é uma concha, como explica o professor, que prefere assim chamar a obra de “o menino com a concha”.


Menino da Cornucópia, um dos raros bem conservados

 

Gaúcho Oriental

Outro presente das comemorações do centenário Farroupilha, foi doado pela comunidade uruguaia. A ideia é estreitar a relação e a identidade dos gaúchos do pampa uruguaio, argentino e rio-grandense – a mesma cultura pampeana. Concebido por um dos mais respeitados escultores uruguaios, Federico Escalada. “O que eu gosto nele é que, do ponto de vista antropológico, é mais correto na indumentária e no aspecto físico”, encerrou o professor. A escultura sofre sistemáticos ataques, sempre com uma das mãos roubadas para fundição.


O Gaúcho Oriental

Fotos: Emílio Chagas

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