Ernesto Fagundes – A marca do bombo leguero

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

A tradição é de família – Ernesto Fagundes cresceu rodeado por amantes da terra gaúcha. Integrante do grupo Os Fagundes, radialista (apresenta “A Hora do Mate”, na Rádio Rural, e “Grande Rodeio Farroupilha”, na Rádio Farroupilha), produtor, cantor e tocador de bombo leguero, Ernesto é vencedor de festivais e tem cinco CDs lançados. Para ele, a cultural regional está cada vez mais fortalecida.

Foto: Letícia Garcia

Minha família toda é da música. Meu pai, Bagre Fagundes, meu irmão mais velho, Neto Fagundes, meu mano caçula, Paulinho Fagundes, meus tios, Antônio Augusto Fagundes e Darcy Fagundes, abridores de porteiras da música do Rio Grande do Sul. A gente surgiu fazendo música com o nosso pai, que sempre tocou uma gaitinha de quatro baixos no Alegrete, e criamos uma cumplicidade artística que nos fortalece.

 

História na música

 

A música faz parte da nossa história. A gente conhece os festivais desde o início, da origem da Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana, nos anos 70, e surgimos nos festivais – o “Canto Alegretense” (de Bagre e Nico Fagundes, que completou 30 anos em 2013) surgiu numa tertúlia nativista de Santa Maria; o pai, o Neto e eu somos os intérpretes originais dessa canção. A gente também participou da abertura dos bares nativistas em Porto Alegre e do início do Galpão Crioulo, vitrine do gauchismo na televisão. Tive a oportunidade de conviver com os criadores do movimento tradicionalista gaúcho, com a “trindade do gauchismo”, como diz o tio Nico: Barbosa Lessa, Paixão Cortes e Glauco Saraiva. Além de Jayme Caetano Braun, Cenair Maicá, Pedro Ortaça… Acho que ter vivido o início dessa história do regionalismo da música do nosso Rio Grande deu aos Fagundes muita bagagem. Hoje a gente aprende também com a nova geração, que bebe sempre na fonte de quem veio antes, e segue com o que é a marca dos Fagundes: integração. “Ouve o canto gauchesco e brasileiro” – a gente canta o gauchismo sem abrir mão de ser brasileiro. E eu ainda coloco mais: nós somos latino-americanos. Acho que essas são as influências que a nossa música recebe, tornando-se uma música do mundo produzida no Rio Grande do Sul.

 

Referências musicais

 

A minha música é gaúcha, brasileira e latino-americana, que pulsa com emoção e canta as coisas simples. Acho que isso é uma mensagem que vem da nossa família: o respeito aos mais velhos, mas aprendendo sempre com as crianças, e que o artista é das coisas simples. Quando a gente está emocionado, consegue emocionar as pessoas. Minha referência musical principal é o meu pai, que me ensinou a ouvir vários estilos de música, e minha maior influência é a música latino-americana, o folclore argentino e uruguaio, de zambas, chacareras, chamames, milongas. Não tem como não falar na Marcedes Sosa, nos Los Chalchaleros e no tocador de bombo leguero Domingo Cura, que tocava com a Mercedes.

 

Música regional

 

Acho que a questão rural no Brasil é ainda muito forte – tanto o agronegócio quanto esse sentimento interiorano do gaúcho. A gente está num centro urbano como Porto Alegre, mas não abre mão de tomar um chimarrão, de comer um carreteiro… Como diz a letra do “Guri”: “Pra que digam quando eu passe: saiu igualzito ao pai”, “Que eu nunca saia daqui”. Ou “Origens”, no refrão: “Eu sei que não vou morrer, porque de mim vai ficar o mundo que eu construí, o meu Rio Grande, o meu lar – campeando as próprias origens, qualquer guri vai achar”. A gente sempre busca nas origens, e o fortalecimento que eu vejo do regionalismo gaúcho está ligado a isso – cantar muito o respeito aos antepassados, projetando um futuro. Eu vejo uma crescente muito grande da cultura regional, principalmente na questão dos instrumentistas, que estão cada vez mais preparados. Yamandu Costa, Borghetinho, Luciano Maia, o piano da família Dorfman, Jorginho do Trompete, que toca uma barbaridade… A música do Rio Grande do Sul está muito bem servida.

 

Uma cultura jovem

 

A cultura gaúcha é muito jovem, uma guria. Dos anos 50 para 2013 é muito pouco tempo. A recém a gente está amadurecendo, criando uma verdadeira identidade, a recém o gaúcho está conhecendo o gaúcho e o Brasil está conhecendo o gaúcho. O sul do Brasil é “gaucho”, é latino-americano, é meio uruguaio, meio brasileiro, meio argentino. Temos imigrantes alemães, italianos, negros – aqui temos o maior número de templos religiosos afro, o Mercado Público é prova dessa influência. Isso é maravilhoso, ver um estado que está cada vez mais se fortalecendo da sua verdade, da sua identidade, aprendendo com a sua história.

 

O Mercado

 

Eu adoro o Mercado Público, me sinto em casa aqui. Sou um frequentador e adoro trazer gente de fora. Já cantei em aniversários do Mercado, e gostaria que acontecessem mais eventos musicais aqui. Acho que cada mercado tem a sua identidade própria. O Mercado Público é, para mim, exatamente o que o nome diz: público. Ele é um espaço democrático, e cada vez mais o público de Porto Alegre tem que se adonar do que é dele.

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