Érlon Péricles – Da letra à canção

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

O nome de Érlon Péricles é diretamente associado às suas composições. Muitas de suas letras e melodias estão em CDs de festivais e no repertório de músicos consagrados – são mais de 600 canções. Mas então Érlon resolveu ganhar os palcos com sua voz, e hoje tem sete CDs gravados, dois deles no projeto Buenas e M’Espalho, em parceria com Ângelo Franco, Cristiano Quevedo e Shana Müller. Estes 27 anos de carreira são repletos de vitórias em festivais, com quatro Prêmios Açorianos de Música, cinco canções Tema da Semana Farroupilha e muitos versos seus na memória de muita gente.

“Sou filho de São Luiz Gonzaga”, começa contando Érlon Péricles, com seu chapéu de abas largas, bota, bombacha e lenço. A assinatura da mãe, Borges, já indica sua raiz musical: Érlon é sobrinho de Luís Carlos Borges, que, ao lado dos outros irmãos, criou o conjunto Os Irmãos Borges na década de 1970. “Minha mãe me apoiou desde muito cedo para lidar com a música, e eu me criei vendo meus tios tocarem”, diz. Com o advento dos festivais nativistas, começou a aprender violão sob as instruções do prof. Paulo Brandão. “As primeiras canções que toquei eram da Califórnia (da Canção Nativa de Uruguaiana): ‘Tropa de osso’, ‘Esquilador’, ‘Velho cantor’, canções que marcaram época”, conta. Passados uns sete meses de aula, depois de aprender os primeiros acordes, seguiu sozinho, estudando os grandes nomes da história musical do Rio Grande, em especial de sua região missioneira de origem – Noel Guarany, Pedro Ortaça, Cenair Maicá. Não demorou muito para que os festivais atraíssem seu olhar, principalmente para levar suas composições aos palcos. “Eu conto como minha primeira aparição profissional a Jornada Nativista (Estadual) de Caibaté em 1988, o marco inicial da minha carreira”, conta. “Meu ofício começou pela composição, nos festivais, abastecendo os intérpretes do Rio Grande do Sul”. Nomes como Flávio Hanssen, Joca Martins e Luiz Marenco já cantaram suas canções. A voz, Érlon soltava em algumas apresentações. Mas foi de 2005 em diante que partiu firme para o canto. Um dos marcos foi o CD “Na estrada do sul – coletânea de canções premiadas”, reunindo músicas já consagradas na voz de outros cantores. “Esta experiência de composição vem agregar ao que tenho hoje como intérprete”, diz.

Foto: Letícia Garcia

Missão e fronteira

Érlon define sua música como regional gaúcha, dentro de todas as possibilidades que ela possa atingir. “Acho que a música, através do tempo, vem mudando seu estilo. Começamos com o próprio Gildo de Freitas, Teixeirinha, Pedro Raimundo, Irmãos Bertussi, digamos que a primeira raiz da música gaúcha de que temos notícia. Depois, com o advento da Califórnia da Canção Nativa, veio este estilo de fazer música um pouco mais ‘chorado’, as milongas, essa influência de fronteira”, considera. “Eu, como sou de uma região mais de fronteira, tenho uma influência muito forte de ouvir chamamé, sambas argentinas, chacareras, então minha música vem se moldando através destes 27 anos dentro disso. Já fiz muita canção mais lenta, com uma conotação mais poética, mais forte, sendo parceiro de Vaine Darde, Gujo Teixeira e Carlos Omar Villela Gomes, grandes poetas do nativismo. E depois, algo que está até hoje, uma coisa mais pitoresca e de popular entendimento, canções com mais cotidianidade e que falam às vezes da realidade do homem do campo, às vezes da realidade das coisas do interior do estado – tomar um mate, camperear… Aí com uma parceria forte de Tadeu Martins e Binho Pires”, diz.

 Música no estado

Este panorama que Péricles traça sobre sua carreira está alinhado à visão que tem do próprio cenário geral da música no estado. Ele acredita que a música que edificou os festivais, um estilo mais nativo, está perdendo espaço. “A música gaúcha começou num tempo em que não se tinha internet, então tu tinha tempo de fazer um mate, sentar e escutar um lado do vinil, virar o disco e escutar o outro lado, conversar sobre aquela música… Hoje a gente sabe que não se pode mais, não se tem mais isso, as pessoas já querem as coisas mais prontas. Acho que isso influencia na música que a gente faz também”, diz. “Claro que existem nichos de mercado que querem este tipo de música mais tranquila, mas a maioria das pessoas quer música para extravasar, para cantar junto, que seja até dançante, dentro do possível”. Assim, Érlon considera que as transformações da música gauchesca vindas nos anos 90, com estilos mais campeiristas como o de Luiz Marenco e com os conjuntos de baile, trouxeram um frescor para a música regional. “Acho que são coisas que deram uma cara mais campeira, mas mais jovem para a música”, diz. No entanto, observa que no interior é muito comum encontrar pessoas mateando e escutando músicas que vão de Mano Lima e Baitaca a Cenair Maicá e Noel Guarany. “Acredito que essa é a música que se aproxima do povo, que acho que está em voga hoje em dia. E é a essa música que a gente procura adequar o nosso trabalho”, diz. Para traduzir seu atual momento, deixa um trecho da canção “Rio Grande véio”, de sua autoria:

 

“Rio Grande véio, jeito de campo / Me leva ao trote, cavalo manso / Rio Grande véio, solto das patas / A lida é bruta, paysano! Mas me garanto!”.

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