Maria Carpi, patrona da 64ª Feira do Livro: “Assim como a poesia, os jacarandás também esperaram por mim”

Nascida em Guaporé em 1939, Maria é professora, advogada e defensora pública. Estreou na literatura em 1990, aos 51 anos. Hoje, com 14 obras publicadas, a premiada poeta acredita que a beleza da vida está na lentidão de cada momento e que o patronato da Feira chegou na hora certa.

 

“Eu não escolhi a poesia, ou a vida, que navega em barcos de letras, por minha pele inafiançável. Ela sim, tocou-me a me acordar dentro dos sonhos claros, fazendo tênue a realidade e desbotado o vestido da união solúvel no riacho das mãos.” – Maria Carpi

 

 

Além de ter organizado duas antologias pessoais, os poemas de Maria Carpi foram incluídos no livro “A literatura feminina no Brasil contemporâneo”, de Nelly Coelho, e em revistas especializadas. Entre as suas principais obras estão “Nos gerais da dor” (1990) — mais tarde traduzido por Brunello de Cusatis e editado na Itália —, “Desiderium desideravi” (1990), “Vidência e acaso” (1992), “A migalha e a fome” (2000) e “O cego e a natureza morta” (2016). A mais recente é o volume de poemas “Tudo que é belo é efêmero”, lançada na Feira do Livro em 2017 ao lado do filho, o jornalista e escritor Fabrício Carpinejar. 45Foi conselheira do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente, representando a Defensoria Pública e, depois, a OAB-RS. Também representou, por dois anos, a Associação dos Escritores Gaúchos no Conselho Estadual de Cultura. Ao longo da sua trajetória, recebeu inúmeras premiações. Entre elas estão: Menção Honrosa no Casa de las Américas em 1999, em Cuba; Prêmio Revelação da Associação Paulista dos Críticos de Arte em 1990; Erico Verissimo em 1991, por “Desiderium desideravi”. Por quatro vezes foi vencedora do Prêmio Açorianos de Literatura, categoria Poesia.

 

ENTREVISTA

Como a poesia entrou na sua vida?

Entrar na existência já é entrar na poesia. Eu tenho um poema que fala que sou poeta desde o ventre da minha mãe, pois ser poeta é ter cordialidade com a vida, amar a natureza, o universo e ter fraternidade com as pessoas. Escritora de poesia é uma decisão muito séria que requer técnica, pelo fato de trabalhar com a linguagem. Me disciplinei como poeta aos 38 anos. E, ainda assim, eu só editei o primeiro livro aos 50 anos. Sou apaixonada pela lentidão, não tenho pressa. A poesia sempre fluiu de mim sem que eu a escrevesse.

 

Qual será a sua bandeira como patrona da Feira?

É o “livro na praça”, o livro livre na praça, até porque a praça é do povo, né? Como diz Castro Alves, “como o céu é do condor”. Eu amo o livro na praça. Tirar ele da biblioteca, levar para a praça e encontrar o leitor. Essa confraternização poética é muito linda.

 

Na sua opinião, a Feira está no seu formato ideal?

Agora, o novo presidente da câmara [Isatir Bottin Filho] está inovando em muitas coisas e fazendo o possível para tornar a Feira mais democrática. É importante que ela se renove, procurando o leitor, dando mais qualidade para a cultura, mais possibilidade para o leitor chegar aos livros e oportunidade aos escritores.

 

Quais as melhores alternativas para a formação de leitores? A internet é uma aliada nesse processo?

Eu sou do livro escrito, mas, também, não sou paradigma de ninguém. Eu respeito cada um na sua maneira de exercer, de conversar e difundir. A Feira do Livro propicia essa formação de leitores. Eu aceitei participar como patronável apenas pensando que o livro possa caminhar. É uma oportunidade de o livro tomar caminho e encontrar mais o leitor.

 

Como você vê a literatura gaúcha em relação à realidade literária brasileira?

Eu não faço diferença entre literatura gaúcha, regional, nacional, internacional. Literatura, quando é boa, ganha o estatuto de cidadania do mundo.

 

Quais autores lhe serviram de inspiração?

Quando eu fiz 15 anos, meu pai me deu um livro do poeta espanhol Federico García Lorca, que, para mim, foi um deslumbramento. Aqui no Brasil, foi uma felicidade descobrir Cecília Meireles, Jorge de Lima, o nosso Quintana… Aí vai, né?

 

Como percebe o movimento editorial no estado?

O movimento editorial é ótimo, porém, todos nós, escritores, estamos enfrentando o problema com a distribuição das livrarias. Ainda, o livro é visto como objeto mercantil e não objeto de cultura. Temos muito o que avançar nesse aspecto.

 

Quais os movimentos literários que você destacaria como os mais importantes?

Eu sou muito avulsa [risos]. Não faço parte de academias, mas respeito quem está na academia. Eu faço parte, com muito gosto, da Associação Gaúcha dos Escritores desde que comecei a editar os meus livros, porque eu considero um sindicato.

 

Quais os seus atuais e próximos projetos?

No ano passado, eu publiquei “Tudo que é belo é efêmero” e, talvez, venha alguma coisa para a Feira este ano. Sou mais inédita do que publicada. Eu trabalho muito na minha reserva, na minha solidão, na minha tranquilidade, pois quero deixar uma visão de mundo através dos livros e da poesia.

 

Qual a importância da Feira do Livro de Porto Alegre para o cenário da literatura gaúcha e nacional?

É um encontro muito lindo. É a maior feira a céu aberto de livros, servindo de exemplo para cidades do interior que começaram, mais tarde, a realizar a suas feiras também. Estou muito contente com esse momento. Quero retribuir.

 

Fotos: Fabiane Pereira

 

 

 

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