ENTREVISTA | Edgar Vasques

ENTREVISTA | Edgar Vasques

Confira abaixo uma entrevista exclusiva feita pela redação do Jornal do Mercado com o artista gráfico Edgar Vasques.

 

Jornal do Mercado: Como foi o processo de produção do livro?

Edgar Vasques: Estamos há um ano fazendo. Desde que foi lançado o outro livro [sobre Santiago], nós começamos a fazer reuniões, a planejar como dispor o material no livro. Meu trabalho tem uma característica diferencial: é muito versátil. Então o trabalho teve que ser organizado tendo isso em vista. O livro tem setores para cada uma das aplicações do grafismo – caricatura, cartum, charge, quadrinhos, ilustração (a base que está por trás de tudo), e ainda os trabalhos que não são arte aplicada (que não foram feitos para jornal, revista ou impresso em geral), os desenhos e aquarelas. Além disso, ainda tem os esboços, sketchbooks – muito volume de trabalho em 45 anos de carreira, e não está organizado. O estúdio é meio caótico, eu tive que fazer um trabalho meio de “arqueologia”. Foi muito trabalhoso, para eles e para mim. Eu tinha que fazer isso sem parar de produzir minha atividade cotidiana de freelancer.

 

JM: E para selecionar os trabalhos, como foi?

Vasques: Isso foi se constituindo aos poucos, até porque tem coisas que eu nem lembrava, é muito tempo. O primeiro desenho que eu fiz e me pagaram eu tinha 14 anos. O desenho mais antigo que tem no livro é de 69 – este livro abrange de 69 a 2013, é uma ampla visão, e eu não acho que seja definitiva. Até porque a luta continua, eu continuo produzindo. Não é um balanço, mas é um balancete.

 

JM: E para a exposição?

Vasques: Foi parecido. A exposição foi um processo mais rápido, porque muita coisa já estava levantada, mas eu procurei colocar coisas que não estão no livro, como quadrinhos inéditos.

 

JM: Como é ter amigos e estudiosos falando sobre teu trabalho?

Vasques: Eu acho que tem um buraco negro no Brasil, principalmente aqui no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Falta um estudo crítico dessa área – não só do cartum e das artes gráficas aplicadas, mas da arte em geral. Como o mercado aqui é um pouco incipiente não se criou uma instância crítica. Existe alguma coisa, mas é uma geração nova de críticos que apareceu. Depois do Goida, dos caras da antiga que falavam de cinema, teve um buraco negro, até aparecer uma geração nova. Isso nas artes visuais, seja artes plásticas ou arte aplicada, especialmente na arte aplicada, que é o cartum, a caricatura, tudo aquilo que passa pela indústria antes de chegar ao público – para a gente, o trabalho só está pronto quando está impresso, em milhares de cópias, na mão do leitor. Nas artes plásticas já falta crítico, nessa área específica, então, é uma espécie de deserto. E na hora de fazer a apreciação crítica do meu trabalho, foi dificílimo achar alguém que pudesse falar sobre isso, porque praticamente não existe. Então a Ana Carvalho, que tem essa visão geral das Artes Visuais, fez este trabalho, sem ser especialista na área, e se saiu muito bem. Mas na verdade falta um crítico aí, não para mim, mas para toda a arte gráfica aplicada, que é uma área de excelência no Rio Grande do Sul. Não tem nenhuma expressão artística que tenha tanto prêmio internacional quanto o cartum do Rio Grande do Sul – autores como o Santiago têm 80 prêmios internacionais. Não tem salão no mundo em que não tenha um gaúcho com menção honrosa, prêmio… E não tem apreciação crítica. Quem fez um trabalho de aproximação disso foi o Joaquim da Fonseca, que tem um texto no livro. É a visão mais abrangente e mais recente do fenômeno. Realmente isso é uma lacuna, e eu acho isso lamentável, mas é o cenário que a gente defronta. Ainda está por se fazer.

 

JM: E trazer a crítica neste livro talvez chame a atenção para isso.

Vasques: Eu estou aproveitando a oportunidade para dizer isso, para ver se eu cutuco algum estudioso. Inclusive essa falta de foco acaba produzindo um silêncio, um preconceito, uma espécie de desprezo numa área que é uma arte dificílima, altamente especializada, dependendo do artista, e absolutamente ignorada, tanto pelo crítico quanto pela própria mídia que faz uso do trabalho.

 

JM: Acha que tem alguma coisa a ver com o lugar do cartum em relação à arte?

Vasques: A arte aplicada é tacitamente considerada uma arte menor. O que é discutível, mas eu até entendo, de certa forma. Eu acho que as conquistas de vanguarda não são feitas na arte aplicada. Ninguém inventa o cubismo fazendo cartum. Por quê? Porque o compromisso da arte aplicada não é o compromisso da arte plástica. O compromisso da arte – ponto – é dar um depoimento do mundo segundo a expressão do autor, e a palavra chave é expressão. Na arte aplicada não basta a expressão, precisar ter a comunicação, quer dizer, tem que ser entendido. Quando tu faz a caricatura de alguém as pessoas tem que ver quem é o caricaturado; quando tu faz uma piada, as pessoas têm que rir. A nossa arte é expressiva, mas ela precisa se comunicar. Então não é o lugar onde tu vai inventar coisas que as pessoas não entendam, não é o lugar onde tu vai criar a intriga, a surpresa, a perplexidade, como os artistas plásticos e outros têm feito ao longo da história. O que a arte aplicada faz é popularizar essas conquistas. Nossa tarefa é diferente da do artista plástico. Acho que se usa o conceito de que se a gente não é vanguarda, tem menos valor – embora isso seja relativo, tem muita vanguarda na arte aplicada, não a conquista estética, mas a socialização dessa informação, e tem muita coisa que acontece a partir da arte aplicada.

Às vezes a arte aplicada funciona de forma revolucionária. Mas eu acho que esse preconceito tácito, porque ninguém diz isso, fica meio subjacente, e o próprio jornal que veicula caricatura, a charge não dá muita bola. Se tivesse um crítico, aí vem aquele cara da academia, respeitado… Às vezes é preciso o batismo de um figurão respeitado. para as pessoas se darem conta. Isso não aconteceu ainda com o quadrinho gaúcho e com a arte aplicada excelente do Rio Grande do Sul, embora tenha melhorado.

Hoje nós temos um salão de desenho de imprensa, que foi uma conquista da Grafar, nossa associação, junto à Prefeitura de Porto Alegre na época, e já existe um certo reconhecimento, mas o quadrinho ainda não é considerado uma arte a par das outras formas de expressão, e isso é uma coisa que hoje em dia não se justifica mais. Toda uma sociedade da imagem, uma sociedade industrial – a arte por excelência que usa a indústria e a imagem não pode ser considerada uma arte menor.

 

JM: Como o senhor se vê enquanto artista, enquanto produtor dessa variedade de expressões?

Vasques: Eu acho que a característica do meu trabalho é essa versatilidade. Essa característica responde a uma necessidade objetiva: pra compor um orçamento no fim do mês, tem que fazer de tudo, porque o capitalismo aqui não é tão organizado como é na Europa, nos Estados Unidos e até no Japão, onde os artistas gráficos são especialistas. Aqui a maioria tem que fazer várias coisas. Então é uma necessidade objetiva, mas responde também a uma aptidão subjetiva minha. Eu sou um cara que, em princípio, sou um desenhista. Sou apaixonado pelo visual do mundo e procuro reproduzir isso. Eu estou conversando contigo e estou olhando como a luz se reflete na janela, estou pensando em como eu te caricaturaria… Tudo isso está passando como um subtexto na minha cabeça enquanto a gente está falando, todo o tempo. O nicho que eu encontrei quando comecei a trabalhar em jornal primeiro foi a ilustração, e segundo foi o humor. Então eu comecei a aplicar o meu desenho a uma narrativa humorística, mas não é o meu primeiro impulso. Meu primeiro impulso é apresentar o mundo como eu estou vendo, com realismo. Mas essa adaptação que eu tive que fazer acabou resultando num prazer de fazer isso também. Então hoje eu sou um cara que faço com gosto caricatura, charge, cartum, quadrinhos, ilustração, desenho. Eu ando sempre com meu sketchbook, já desenhei em ônibus, na fila do banco, em bar, em espetáculos que estou assistindo. Tem desenhos feitos em Porto Alegre, Rio de Janeiro, na Europa, não interessa onde eu estou. Por isso que o nome do livro é “desenhista crônico” – é como se fosse uma doença crônica (risos).

 

JM: Como é ter esse trabalho reunido num livro, traduzido em palavras por outras pessoas?

Vasques: Eu acho que a ressaca não passou ainda. Essa equipe toda trabalhou muito, com dedicação, talento e inteligência, e acho que o resultado ficou excelente. O livro ficou um retrato bem abrangente, vai ser uma referência para quem se interessar pelo meu trabalho, e até pela posição desse trabalho no contexto.

 

Edgar Vasques está nas edições do Jornal do Mercado com os quadrinhos de Olé & Repé.

 

Exposição “Edgar Vasques: desenhista crônico”

Centro Cultural CEEE Erico Verissimo (Rua dos Andradas, 1223, Centro)

Visitação: de 30/10/13 a 31/01/14

Terça a sexta das 10 às 19h, sábado das 11h às 18h

Mesa-redonda com Vasques: 23/11/13, às 11h, no Auditório Barbosa Lessa do Centro Cultural

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