Enio de Matos: “Para mim, o Mercado é como se fosse meus pais”

Foto: Letícia Garcia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Como entrou muito cedo no Mercado Público, aos 14 anos, ele tem uma relação quase filial/paternal com ele. Nascido em dezembro de 1965, natural de Porto Alegre, divorciado, duas filhas e uma neta, Enio, atualmente na Banca 48, passou por inúmeras bancas no Mercado, onde ele chegou através do seu irmão Luiz Carlos de Matos, o Lico, que hoje trabalha na Agropecuária DiPaoli.

 

“Ele está lá, mas por muito tempo trabalhou numa banca de frutas e verduras, onde hoje é a Banca Central. Trouxe muitos parentes, irmãos, sobrinhos, para trabalhar aqui, foi o ‘pivô’ disso tudo”, diz Enio, que teve seu primeiro emprego na então peixaria Itapuã, em 1981, com 14 anos. O outro irmão, falecido aos 46 anos, chamava-se Carlos e também trabalhou no Mercado. Depois da peixaria, Enio passou por muitas outras bancas, em algumas por muito tempo e em outras mais de uma vez. Tem, claro, muitas lembranças dessas passagens. Da 26, por exemplo, lembra que ainda adolescente ia buscar, nos portões do Mercado, sacos de arroz de 60 kg para abastecer a banca. “A gente ia correndo, botava os sacos nas costas e, às vezes, chegava meio ‘tontinho’. Depois, ia atender os clientes, que compravam muita erva-mate a granel.” Também tem lembranças do Restaurante Rio D’Ouro, onde não teve uma experiência das melhores – não se adaptou muito à clientela e a trabalhar de noite. Também passou pelas bancas 2, 17, 18, Japesca (onde ficou cinco anos, aproximadamente), quando ela era mais central, com as lojas 4, 5, 6 e 7. Na reforma dos anos 1990, estava na Peixaria São Pedro, que não existe mais e ficava onde hoje está a Banca 40. “A época da reforma foi péssima para todo mundo, com pouco movimento, péssima para os patrões. E aí ficou ruim para todo mundo. A São Pedro teve problemas financeiros, fechou e não abriu mais. Depois de tantas bancas e de 36 anos aqui, aprendi muito sobre o Mercado.”

 

Ajudando a família

Ele começou a trabalhar cedo, para ajudar os pais, já falecidos. “Eles eram pobres, 11 filhos, todos ajudavam. Com 24 anos saí de casa, quando casei. Mas, mesmo assim, não deixei de ajudar a família, a mãe era adoentada.” Para ele, o que o Mercado tem de mais bacana são as pessoas, os colegas. Tem os bons e os ruins, avalia. E com os patrões é a mesma coisa. “O negócio deles é ganhar dinheiro. Acho que eles deveriam olhar mais para os funcionários que vestem a camiseta de verdade, não para os que não querem trabalhar e que, muitas vezes, são os mais valorizados.” Também destaca os clientes, que devem ser tratados com toda a atenção. Sendo educados com eles, sempre voltarão, e retribuem as gentilezas e a educação. “Na (banca) 48, onde eu trabalho, nunca tive reclamação nenhuma. Sempre elogios”, registra. Lá, vende bastantes cereais, linhaça, sucrilhos, arroz e muitos suplementos, sobre os quais estuda em casa, nos catálogos, para orientar melhor os clientes. A rotina já está mais do que incorporada nestas três décadas de trabalho: chega às 6h35, quando já encontra a banca aberta. “Chego e já vou fazendo o trabalho do dia a dia, que é ir arrumando as mercadorias, ajeitando a banca. Fico até às 19h30. Já estou acostumado, sempre foi assim, desde pequeno. Hoje as coisas estão mais calmas, mas antigamente era uma correria.”

 

Boas e más lembranças

Continua morando em Porto Alegre, mas de onde ele gosta mesmo é de Torres. “Meu sonho é ir morar lá. É uma maravilha, sempre vou, todas as semanas. E a família do meu pai é de lá.” Em todo esse tempo de Mercado, nem todas são boas lembranças, porém. Uma, em especial, que o deixou muito chateado, foi quando trabalhava na Banca 17, há 15 anos, aproximadamente, e sua pequena filha, de sete meses, teve que fazer uma cirurgia no coração, na Santa Casa. Eventualmente ele tinha que se ausentar do trabalho. “Eu ficava na emergência, aguardando. Na segunda semana, o patrão me demitiu e botou duas pessoas no meu lugar.” Mas a vida seguiu: a filha sobreviveu e hoje, com 15 anos, está muito bem. Amigos no Mercado? Diz que tem colegas “bacanas, educados”, mas sem grandes amizades. Também não é saudosista do Mercado antigo, embora, às vezes, sinta “alguma saudade”. Acha que o Mercado se desenvolveu, “deu um salto maravilhoso, melhorou”. E diz que naqueles tempos de antes não havia muita preocupação e cuidados com a saúde e a higiene que, para ele, hoje estão 100%. “A (secretaria de) Saúde está fazendo um trabalho muito bom aqui dentro, até um exemplo para os de fora.” Vê o Mercado como um lugar de muita paz e harmonia, “como se fosse uma mãe, um pai. Criei uma raiz aqui. Aqui é assim, um ajudando o outro”. E se emociona, quase sem conseguir falar, quando lembra do último incêndio que o Mercado sofreu.

 

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