Elizabeth Marcadela: “O Mercado é um casamento que deu certo”

Primeira das filhas de donos de bancas a trabalhar no Mercado, formada em Direito, em 1979, Elizabeth começou de brincadeira, quando menina, no caixa do Armazém 28 – umas das bancas mais originais do Mercado. Prestes a completar 60 anos, divorciada, cheia de vitalidade, não consegue se ver fora do Mercado. Natural: ela vem de uma grande família de mercadeiros, pais, tios, primas. E para não contradizer esta tradição, tem o irmão Celso Marcadela como sócio na banca, herdada do pai, Délcio Marcadela. Hoje o envolvimento com o Mercado é tanto que há quatro anos não tira férias. E quando tira, chega a chorar de saudades dele.

 

Tu não vai usar batom, e tem que se portar de maneira diferente”, disse-lhe a mãe, quando ela decidiu trabalhar na banca naquele Mercado dominado pelo mundo masculino, e ainda com muita prostituição nos seus arredores. E o pai, que não queria que ela trabalhasse no Mercado, advertiu: se quisesse, seria como empregada. Carteira assinada e os mesmos deveres dos empregados. Os irmãos, porém, vieram mais cedo. Eram homens. Mas, também, todos trabalhando como empregados. Ela aproveitou a oportunidade e foi à luta, entrando na vaga de uma caixa que estava se aposentando. Ela mesma achou que seria “uma coisa temporária”. E como foi? “Tranquilo. A vida no escritório poderia ser bem melhor”. E hoje? “Chego aqui às seis e meia, varro a banca, limpo balcão, ajudo a montar, peso linguiça e não me sinto em nenhum momento inferiorizada” diz, orgulhosa do seu trabalho. Depois dela veio uma sequência de filhas de donos de bancas trabalhar no Mercado. Fica feliz de ter dado o exemplo, e gosta muito do Mercado. Na verdade, adora. Dos cheiros, das pessoas e do carinho que recebe delas, fregueses ou colegas – o que compensa qualquer coisa, principalmente a carga horária. Muito melhor do que ficar trancada num escritório, onde “acabaria bitolada”.

Na verdade o Mercado já estava no seu DNA. Tinha cinco tios mercadeiros, irmãos da sua mãe, da família Toniolo. O pai entrou na banca aos 21 anos, como sócio do cunhado Erni Vieira, hoje com 93 anos. Depois, comprou a sua parte.  E foi no Mercado que conheceu a sua mãe, Maria Emília. “As mães naquela época só se dedicavam à casa e ao marido”, lembra. A sua mãe, por exemplo, assim que casou retirou-se da banca, onde cuidava do caixa. Com família grande, Elizabeth sempre teve muitos parentes no Mercado, principalmente primas, algumas também com curso superior, como Relações Públicas e Pedagogia, mas que optaram pelo balcão. Dos irmãos, só Celso, que veio para o Mercado aos 11 anos, continuou. Cláudio e Ivo Roberto seguiram Engenharia Civil. Hoje só aparecem na banca como visita, quando estão no centro da cidade.  O filho Wagner, 30, designer, em princípio não pretende trabalhar na banca, “mas se quiser, será muito bem vindo”, diz. Tem  boa relação com ele, mas é muito cobrada pelo tempo que passa no Mercado. “Mas ele entende que, se não fosse o Mercado, não teria as chances de vida que eu proporciono a ele. Quero que tente lá fora, para dar valor aqui dentro”. Gostaria que na sucessão ele seguisse com a banca, para que ela continuasse na família.  Isso pelo amor e agradecimento que tem pelo Mercado e tudo o que ele lhe trouxe. “Sempre digo que o Mercado é minha asa protetora, me acolhe em todos os momentos difíceis, divórcio, doença de mãe e de pai, criar um filho adolescente sozinha – quando me separei ele tinha 11 anos”, avalia.

 

Uma banca típica do Mercado

 

Para ela, o importante foi o esforço do seu pai. “Ele começou neste armazém e neste mesmo segmento. É uma das poucas bancas do gênero. Eu e meu irmão não pensamos em mudar, queremos que se mantenha vendendo as mesmas coisas. Daqui a pouco ela vai ser uma referência de como era o Mercado de antigamente”. E quer estar neste momento futuro, atendendo, dando e recebendo carinho dos seus fregueses e colegas, “vendendo feijão a granel”. Numa comparação com o seu pai, que veio do interior, agricultor, e deu certo, ela diz que era sua obrigação também dar certo, já que tinha até uma faculdade, “paga pelo Mercado”. Desde 1986 no Mercado, tem com ele uma intensa relação. “Pelas muitas pessoas que transitam aqui dentro, tem uma espiritualidade muito grande. Quantas gerações, vivências, fracassos, sucessos e relações amorosas aconteceram e se desfizeram aqui dentro?”, pergunta-se. Cita uma pessoa, espírita, que lhe disse que não são as pessoas que escolhem o Mercado, mas o Mercado que escolhe as pessoas. “E eu fui uma das escolhidas”, brinca. Lembranças: “O Centro era diferente, a gente se arrumava para vir aqui, de bonde. A mãe dizia: se vocês se comportarem, vamos dar um passeio no Centro, passar nas bancas do pai e dos tios”. Desde menina sempre gostou do Mercado, mas nunca pensou que iria trabalhar nele. Recorda, ainda, que a maioria das bancas era de secos e molhados, algumas de massas e fiambres. O resto eram açougues. Bancas de especiarias, praticamente só a 43. E que o movimento do Mercado era bem menor do que hoje. 

 

O Mercado, ontem e hoje

 

“Era um Mercado mais mercado, mais sujo, com mais gritaria”, lembra. Na reforma, teve medo que o Mercado imitasse os shoppings, afastando os clientes mais pobres, descaracterizando-se. “Hoje ele está mais atualizado, e não deixou de ser um mercado público”. De 1986, quando entrou, para cá, não vê muitas mudanças. Sente-se feliz que o número de mulheres tenha aumentado. Acha, porém, que os balconistas eram mais educados, e duravam mais tempo nos seus empregos. “Antes se aposentavam, compravam casa. Hoje não tem muito vínculo e responsabilidade”, analisa. Com os clientes, não vê muitas mudanças. Uns mais estúpidos, outros carinhosos, o importante é que todos devem ser tratados igualmente, “tanto uma que está com bolsa de marca, como outra com sacola de papelão”. Hoje a banca se equipou, está mais moderna, com ar condicionado, freezer, mas mudou pouco na sua essência, tendo a feijoada e carreteiro como carros chefes de vendas, muito procurada por causa do charque e da linguiça. Vê o trabalho também como uma terapia, mesmo com uma rotina puxada. “O Mercado me ajuda, se todo mundo tivesse o Mercado Público na vida, coitados dos terapeutas, psicólogos e psiquiatras. O Mercado é um divã”.  A relação com o Mercado define como maravilhosa. Ou: “Um casamento que deu certo”, resume.

 

Foto: Letícia Garcia

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