Edeltro de Souza: “Minha vida se resume ao que eu fiz no Mercado”

Ele veio do interior de São Jerônimo, “bem nos cafundós mesmo”, aos três anos, passando a morar em vários lugares. A mãe veio na frente, enquanto o pai trabalhava em Guaíba. De família numerosa, com oito irmãos – quatro por parte de mãe, quatro pelo lado paterno – Ele é o mais velho, com 39 anos, e sua história no Mercado “não é muito comum”, como registra no começo da conversa. O pai, falecido há três anos, é o seu grande ídolo, ao lado da mãe e do irmão Daniel. Em quase 30 anos de Mercado, ‘Daltro’, como é mais conhecido por todos, faz questão de registrar que nunca teve nenhuma falta ao trabalho.

 Eram três irmãos pequenos, Edeltro, Paulo e Daniel, engraxates, que vinham fazendo graxa e perambulando pelas ruas, numa longa caminhada da Vila Jardim até o centro da cidade. Daniel costumava chegar no Mercado, no fim do dia, para pedir. “Sobrou alguma coisa?”, perguntava, passando pelas bancas. “Depois de um tempo, o Ademir (Ademir Sauer, dono da Banca 26), que gostava muito do Daniel, um dia resolveu dar uma chance para ele, e a gente vinha pegar ele todo dia”, conta o irmão. Ali, Daniel começaria uma longa trajetória no Mercado Público, assim como ‘Daltro’, que nele também começou, na então Banca 47. “Entrei para engraxar os sapatos dos funcionários, e o seu Licindro de Freitas, antigo sócio, e o seu Ari disseram que iam me dar uma chance lá, onde fiquei por 14 anos. Por isso, quero agradecer, porque eles me deram a oportunidade, e ao Ademir, que foi quem começou tudo, abriu as portas para o Daniel”, registra. Mas não foram só ele e Daniel que passaram a trabalhar ali: mais dois irmãos, Paulo e Fábio, fecharam o quarteto da família no Mercado, o que leva o nosso personagem a dizer “que o Mercado é a vida da gente”.  Agradecido, diz que tudo que sabe ou adquiriu veio do Mercado. “E não só eu, mas a minha família. Quando a gente começou, não tinha nada. Não temos muito hoje, mas pelos menos, é um pouco melhor”.


Edeltro, de engraxate a gerente administrativo no Mercado Público

Foto: Letícia Garcia


Depois da reforma, 
um novo Mercado

 1984 é o ano da sua entrada no Mercado, no balcão da 47. Depois, passou a ser o responsável pelas entregas da banca, principalmente nas lancherias do Centro. Em 1997, no fim da grande reforma do Mercado, entrou para a Banca 26. “Antigamente, quando se falava que vinha no Mercado, ele era lembrado como um lugar popular, sujo, feio, que vendia produtos ruins, com problemas de balança, paredes caindo, bancas com ratos – um monte de defeitos. Com a reforma tudo mudou. O Mercado, hoje, é uma referência. Quem vem a Porto Alegre não deixa de vir aqui, passou a ser uma obrigação”, diz ele, afirmando que agora “se tem prazer de indicar o Mercado para os visitantes”. Uma das mudanças mais visíveis, diz, é o público dos sábados, “muito diferente daquele que vem durante a semana, que vai para a casa ou pega o trem e entra para comprar alguma coisa, rapidinho”. Segundo ele, este público é diferenciado, vem de carro, estaciona no Largo Glênio Peres, passeia, come, compra, se relacionando com o Mercado como um ponto turístico. “Como alguém que acompanhou o Mercado, antes e depois da reforma, posso dizer que trata-se, na realidade, de um outro Mercado. Ele não perdeu a tradição, mas ganhou muita qualidade e uma nova mentalidade”, diagnostica. 


Concorrência sim, rivalidade não

Acha, contudo, que deveria haver mais união entre os mercadeiros. “Sou a favor da gente ser concorrente, mas não rival. Aqui existe muito isso, confundir concorrência com rivalidade. Concorrência é salutar, rivalidade não. Se os caras fossem mais unidos, acho que a coisa ia funcionar melhor. Ninguém quer muita conversa, cada um olha para o seu lado e ‘deu’. Sinto que algumas bancas são rivais”, diz. Dos tempos antigos, tem saudade do espaço para trabalhar, que era maior. “Talvez pela quantidade de mercadorias que temos hoje, ficou mais reduzido o espaço”, avalia. Em relação ao atendimento, acha que o do Mercado tem que ser personalizado. “O princípio do atendimento, que era conversar, manter o cliente como parceiro, ainda existe hoje, mas é mais complicado. Antes o movimento era menor, hoje com 20 fichas para atender, é difícil. Tu te esforças para dar uma atenção, mas não é a mesma coisa”, compara. A receita dele é fazer com que o cliente se sinta em casa, e tem que saber se posicionar para atender uma pessoa mais velha, ou alguém mais jovem. “O Mercado cresceu bastante desde quando eu cheguei, e conseguiu atrair um outro público, que antes tinha até preconceito de vir aqui”, diz.
 

O importante é estar feliz

Para ele, hoje até os supermercados imitam o Mercado, principalmente nas peixarias e açougues, buscando um atendimento mais personalizado. Claro, nunca terão pacotes enrolados em papel e embrulhados à mão, mas “estão buscando se espelhar no nosso tipo de atendimento”, afirma. Sobre a 26, diz que é uma banca que sempre vendeu muito. “Trabalhamos com produto de qualidade, o movimento sempre foi muito grande pela variedade. E em produtos importados, sempre vendeu mais que qualquer outra no Mercado, desde que me conheço por gente”, garante. Da banca e do Mercado tem muitas lembranças. A maior delas? “Eu, sentado na minha caixa de engraxate, aqui na frente, esperando ganhar alguma coisa para ir embora”, diz. Na 26, ele começou “direto” no balcão. Dois anos depois, cuidava das entregas. Finalmente, passou para a parte administrativa, fazendo e lançando notas. Aos sábados, porém, volta para o balcão. “Adoro, se pudesse ser balconista o tempo todo, eu gostaria. Gosto muito do contato com o público, de conhecer gente”, afirma. A facilidade e o gosto são, em parte, ajudados pela experiência que teve como ator de teatro durante quatro anos, iniciada em uma oficina promovida pela prefeitura na sua comunidade. Para ele, o mais importante de tudo é estar feliz e gostar do que se faz. E, se não gostar, tem que aprender a gostar. “Se não, não funciona”, conclui um satisfeito e realizado ex-engraxate.

 

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