Diamantino Duarte Fernandes: o pão nosso de cada dia, no Mercado Público

É toda uma vida ligada a padarias, como a de muitos portugueses na cidade, em especial no Mercado Público. O garoto chegou ao Brasil com sete anos, vindo da região norte de Portugal. Seu pai, Ângelo Fernandes, tinha outros negócios, mas o Mercado era a grande referência. E foi nele onde se estabeleceu definitivamente.

“Tínhamos outra padaria, a Santa Isabel, no Bom fim, em frente ao Pronto Socorro”, recorda Diamantino. Além dela, a Mateus, na Borges de Medeiros, que cuja tradição passa de geração para geração. E foi nela que o jovem Diamantino assumiu o comando quando o seu pai veio para a Copacabana, no Mercado. Naquela época eram poucas padarias no Centro e raras as dos bairros. Aliás, eram padarias na verdadeira acepção da palavra, como reforça Diamantino. O pão era manuseado, a farinha “desmanchada” e analisada, para ver qual a mais adequada para determinados tipos de pães, a fermentação e o cozimento – um processo longo e complexo. “Hoje em qualquer cantinho se faz uma padaria, com o pão pré-pronto, só fazem o aquecimento, nada mais. As padarias mudaram muito”, afirma. E o jovem padeiro se preparou, fazendo cursos de panificação num tempo em que era árduo o trabalho numa padaria, principalmente no Mercado, com uma rotina muito puxada, virando 24 horas. Sempre foi uma atividade muito trabalhosa, entrava-se a noite toda para ter o produto de manhã, segundo ele, inclusive nos sábados e domingos. Diamantino conta que, naquela época, os moradores dos bairros vinham buscar pão nas padarias do Mercado, ao contrário de hoje, quando o Centro “morre”, ao contrário dos bairros. As padarias se proliferam pela cidade, estando em supermercados e até em shoppings. Agora, diz ele, tudo está mais fácil, a começar pelo horário, com a padaria Copacabana abrindo às 5.30 da manhã e fechando às 10 da noite, um “horário mais civilizado”, na sua definição.

 

A boemia de madrugada, em plena padaria

 

Diamantino chegou no Mercado em 1975 vindo, então, da padaria e confeitaria Matheus. Na Copacabana, que surgiu de uma fusão da antiga padaria Fátima com o também antigo Café Soberano, Diamantino assumiu o lugar do pai, que nela já estava desde a década de 60 e queria se aposentar. Antes da grande reforma dos anos 90, a padaria ocupava a esquina do Mercado, formada pela praça Parobé e o atual Largo Glenio Peres. Eram outros tempos de Mercado. Tempos de boemia e madrugadas. A padaria virava a noite toda e os boêmios, vindos das boates das imediações, começavam a chegar às duas horas da madrugada para se reabastecerem com baurus e sanduíches de pernil, famosos. “Era bem movimentado, 24 horas direto, não se usava porta”, brinca. “Depois, com o tempo, a situação ficou mais difícil, sem segurança e com a falta de estacionamento. Mas a clientela da noite era bem diferente da que vinha durante o dia”, lembra. Para ele, antes havia mais conhecimento com os clientes. “Hoje está mais comercial, mas temos clientes antigos que são verdadeiros amigos”, registra.

Com o seu pai, o herdeiro pouco trabalhou – praticamente só na transição entre uma padaria e outra. Mas teve sociedade por 10 anos na antiga padaria Santa Isabel, no restaurante Gaúcho, com o cunhado Ângelo Bessa de Souza, e também no restaurante Pan Americano, no Mercado Público, que passou para os cuidados da filha Conceição e do genro Pedro Soares. Hoje, aposentado, continua a vir diariamente na Copacabana, a única à qual ainda se dedica – embora não tenha mais necessidade.

 

O Mercado ontem e hoje

 

Como a maioria dos mercadeiros, não tem grandes saudades dos tempos antigos do Mercado, hoje muito mais organizado, na sua opinião. “Antes cada um fazia o que bem entendia, hoje está mais padronizado e organizado. Claro, tem coisas que não nos agradam, mas tem que haver um princípio de padrões de horários, atendimento, fluxos, cargas, coisas essenciais para um bom funcionamento”, analisa. Acompanhou vários processos do Mercado nesses últimos 40 anos. Viu incêndios, conheceu muitas pessoas e fez muitas amizades. E faz questão de ressaltar que no Mercado não tem nenhum inimigo. A relação Mercado/ Poder Público para ele? “Antes os contatos não eram tão formais, era mais diálogo. Hoje é mais burocrático, com protocolos e memorandos. Tinha mercadeiros mais influentes, os contatos eram mais pessoais”. Mas acha que as últimas administrações da Associação dos Comerciantes do Mercado Público estão fazendo um bom trabalho junto às autoridades. Sobre a já citada grande reforma, diz que foi uma imposição e que nem todos ficaram satisfeitos. “Nós tínhamos um ponto mais privilegiado, que era na esquina. Diminuiu a parte térrea e parte industrial foi para os altos do Mercado. Antes o ponto e a localização eram bem melhores, mas concordamos que tem que haver colaboração para o crescimento e embelezamento do Mercado”.

Dizendo-se um homem realizado profissional e financeiramente, graças ao Mercado, Diamantino faz 50 anos de casamento em dezembro deste ano, com sua esposa Silvandira, também portuguesa, descrita por ele como uma grande companheira, em dezembro deste ano. Desta união nasceram Ângelo Miguel, médico que mora nos Estados Unidos, e Conceição, que, depois de duas faculdades, optou por assumir o posto do pai na Padaria Matheus. Das lembranças do Mercado, a que vem primeiro é o trabalho duro dos tempos antigos e das terríveis madrugadas. “Aquilo me marcou muito”, recorda. E do pouco tempo que tinha para as relações familiares. “O trabalhou sempre me absorveu muito, a família reclamava que a gente trabalhava mais do que dava atenção para eles. Mas hoje chegaram à conclusão de que era necessário, no começo era preciso um pouco de sacrifício”, avalia.

Também destaca a sincronia e harmonia com os sócios Manoel Augusto, o Maneca, e Ângelo Bessa de Souza. Os três estão começando a “largar um pouco”, ou seja, fazendo a sucessão para as novas gerações da família, como Leandro, filho de Maneca. “Comigo mesmo isso acontece. Hoje é o meu genro, Pedro, que toma conta. Mas venho todos os dias, acho necessário vir para ver como estão o atendimento, a produção”, diz, para justificar a sua presença diária. Mas nada mais justifica isso do que a sua imensa paixão pelo Mercado. Mesmo viajando e cuidando mais da vida pessoal, como ultimamente vem fazendo, quando está fora – Estados Unidos, Portugal, Argentina ou pelo Brasil – em 15 dias já está louco para voltar. Para o Mercado, claro.

 

Foto: Letícia Garcia

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