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Dessa Kolessar: lembranças de um natal proibido

Especial de Natal

 

“Quem foi na igreja ontem, levanta”, ordenou o ex-padre, agora professor do novo regime, pró-União Soviética, naquela Croácia que seria engolida pela então Ioguslávia, depois da segunda guerra mundial. Nenhuma das pequenas alunas levantou. O burocrata stalinista, então, apontou para uma menina que ele havia vigiado no dia anterior: “Se continuar indo na igreja, será expulsa da escola”.

Dessa comemora o Natal no Brasil

Essas são algumas lembranças da croata Dessa Kolessar, que veio para o Brasil acompanhada do marido austríaco há mais de 40 anos. “O meu sogro tinha uma banca de sementes no Mercado, depois que ele morreu, compramos a 45”, conta ela. Comandando uma das quatro floras do Mercado, Dessa se entusiasma ao falar do natal da sua terra. Já veio casada com uma filha para o Brasil, em 1959, mas não esquece os detalhes natalinos croatas, muito parecidos em algumas coisas com o brasileiro e ao mesmo tempo muito diferente em outras.Por exemplo, lá os tempos são diferentes. Tudo se passa na véspera e na própria noite de natal, diferente daqui, onde o natal começa praticamente um mês antes. “Na noite do natal entra o homem, chefe da casa, e carrega o dinheiro para dentro de casa, na sala junto do pinheiro, cantando. À meia noite quase todos assistem a missa, muito bonita, na igreja. Depois na rua se cumprimentam, se abraçam e se beijam. E no outro dia as famílias almoçam juntas e trocam presentes”, conta. Quer dizer, na verdade o natal lá se passa no próprio dia 25, sem a tradicional ceia da noite anterior.

Os alegres costumes croatas
As comidas, porém, são semelhantes, embora saboreadas em dias diferentes. “Tem de tudo, carne de porco. Croata gosta muito de leilão, inteiro. Para acompanhar usam muito raiz forte com presunto cru. Tem muita fartura. E também fazem muito doce. E, claro, também não pode faltar o universal panetone. Já no ano novo, conta Dessa, as pessoas costumam passar na casa dos outros. “É muito alegre, brindam, quebram os copos para dar sorte, jogam taças pela janela, aquela festa”, diz ela viajando nas suas memórias. Outro costume croata é oferecer tudo de bom, comidas e bebidas para a primeira pessoa fora da família que aparecer. “É essa pessoa que vai trazer sorte para o ano novo que está começando”, diz ela.

Mesmo com as proibições e as perseguições religiosas depois da guerra, quando o natal e outras comemorações do gênero eram proibidas, as tradições croatas persistiram. Dessa
lembra que teve que casar escondido, entrando pela porta dos fundos da igreja. Outra característica da Croácia é que lá os ortodoxos religiosos comemoram o natal e o ano novo uma semana depois. Mas todos com muita alegria, vinho e champanhes. Vivendo no Brasil todos esses anos ela já se acostumou com os nossos costumes, principalmente de falar no natal o ano inteiro. Mas não esqueceu dos natais da sua infância e juventude, com neve e temperatura de até 20 graus abaixo de zero.

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