Dessa Kolesar, a Madrinha do Mercado

Dessa Kolesar, a Madrinha do Mercado

 

Ela veio da Croácia, em 1959, com apenas 21 anos, a filha Jasna nos braços, sem saber falar português, trabalhar direto no Mercado Público, na banca do seu sogro. Claro, estranhou muito o novo lugar e novo país – mas logo rendeu-se ao seu estilo de vida. Aqui teve mais duas filhas, Cláudia e Fernando, e assimilou os novos costumes.

 

O marido Mariano Kolesar falecido há nove anos, fugiu do comunismo, caminhando 47 quilômetros até a fronteira da Itália onde pediu asilo político, vindo em seguida para o Brasil. Mas não veio no escuro: aqui o seu pai, Francisco Kolesar, sogro de Dessa, já tinha uma banca no Mercado. Naquela época o austero regime em seu país não permitia nenhuma propriedade privada e o controle era rígido. Era a Banca 32, onde hoje fica a Banca do Holandês, que vendia sementes. Ali a jovem Dessa chegou em dezembro de 1958 para trabalhar. A sua viagem, contudo, foi mais bonita e tranqüila. Não precisou fugir, veio com visto e a filhinha a bordo do transatlântico Júlio Cesar, numa viagem que durou 14 dias. A primeira parada, recorda, foi em Nápolis. Da bela cidade italiana, veio para o Rio de Janeiro, dali para Santos e finalmente, Porto Alegre. No Brasil, estranhou muito, tudo. Já no Rio de Janeiro a filhinha pequena assustou-se chorou muito quando viu um negro pela primeira vez, algo impensável na Croácia. Lá ela morava numa cidade muito bonita, perto da praia, recorda. “Era alta, embaixo ficava o mar Adriático. Era uma cidade cheia de turistas, via os navios chegando”.

Estranhou também a limpeza das ruas. Lá, informa, os croatas lavam diariamente as ruas com caminhão pipa e ninguém joga nada no chão. “A educação é totalmente diferente. Eu chorava muito no início, queria até ir embora, mais depois fui me adaptando”. Dessa não sentiu diferenças só na limpeza das ruas, etnias e educação. A alimentação também fez diferença. “Lá é muito peixe e carne de porco, muita fruta, muita verdura. Muito mais do que aqui. Carne de gado não tanto, porque lá não tem muita terra”, diz ela. Feijão preto, aipim, nem conhecia. Lembra bem da famosa krisla, a principal bebida da Croácia, feita de ameixa preta, tão cara quanto o uísque e difícil de se conseguir no Brasil. Lembra de alguém que atravessou a fronteira com duas garrafas da bebida para vender e comprar duas lambretas, na Itália. Lá também os mercados, ou “mercatos”,  fazem parte dos hábitos de abastecimento das pessoas. Do “seu tempo”, lembra das dificuldades porque “era tudo do governo” – comércio, lojas. A sogra tinha um bar, que já vinha antes da guerra e por isto era permitido.  E por isto também tinha uma vida um pouco melhor.

 

Acolhimento fundamental para adaptação

A adaptação veio aos poucos, principalmente com as dificuldades com a língua. A comunicação era difícil. Lembra de argentinos pedindo pau d´água, a planta, e o marido mandar para a padaria mais próxima, entendendo que era pão d´água. Mas o que mais ajudou, segundo ela, foi a compreensão e o espírito solidário das pessoas. “O cliente aqui é humano, o brasileiro é humano, ele te acolhe bem, não te discrimina por ser estrangeiro”, diz enternecida. Este acolhimento foi fundamental para a integração dela e de sua família. Os negócios começaram a melhorar. O sogro vendeu a banca e o seu marido ficou como sócio. Depois compraram a banca própria, a 45, que era onde hoje é o açougue San Remo. A mudança foi na reforma dos anos 90, mas manteve o número da banca. Naquela época, comercializavam sementes importadas para plantas e hortaliças, principalmente. Porém, com as variações do dólar, que subia todos os dias,  resolveram mudar de ramo. Dessa diz que foi um funcionário quem sugeriu o caminho para uma flora de produtos afro-religiosos, pedindo permissão para vender velas. Recorda que um dia quando chegou na banca de manhã, ela estava cheia de vela e já tinha gente para comprar. “E assim nós começamos”, diz a bem sucedida e simpática croata, conhecida de todos e que está diariamente no caixa da 45.

 

Apaixonada pelo Brasil

Ela não conhecia, nem entendia nada do assunto. De formação cristã, lembra que na Croácia não existia nada parecido, “nem pretos”.  Foi  aprendendo na prática. “Aqui se aprende com o cliente mesmo, o povo te aceita, pode ser qualquer raça, cor é bobagem. Aqui tem todos os direitos, eu cheguei, sou naturalizada e tenho todos os direitos, não existe racismo. Lá (na Croácia) eles não aceitam. Se teu pai não é croata, tu nunca vai ser croata, um alemão não aceita um croata, outro não aceita o italiano, um ortodoxo não pode casar com um croata. Por isto existem aquelas guerras entre eles”, diz a apaixonada pelo Brasil, afirmando que hoje não ficaria mais no seu país de origem. Numa das viagens que fez para a terra natal, teve dificuldades de explicar para a família como é a realidade brasileira. Os familiares não entendiam que aqui um japonês é “brasileiro” e um dos seus irmãos queriam que as suas filhas que nasceram no Brasil também tivessem nacionalidade croata – coisa que Dessa não permitiu, razão de desentendimento entre eles.

 

Conhecendo as religiões afro-brasileiras

“Aqui não te olham de uma maneira diferente se você não é brasileiro. O importante é respeitar e não tem discriminação no Brasil. Por isto me apaixonei. Reconheço, sou muito grata, o Brasil é de um coração deste tamanho. Se souber conversar com um ladrão ele é capaz de até chorar contigo”, avalia. Dessa foi conhecendo aos poucos o novo mundo, das religiões de matriz africanas. Uma palavrinha para ela foi fundamental para isto: respeito. Principalmente com os negros, quando se refere ao Bará do Mercado – um assentamento no centro do Mercado, e ponto de referência dos religiosos. “A tradição do Bará é muito forte, ali fazem todas as obrigações. Quando teve a obra ninguém pôde tocar ali. Dizem que era um príncipe, quem me fala são meus clientes. Dizem também que antes de ser Mercado Público do comércio era uma senzala. O mercado pertence à religião, pertencia aos escravos, isso tem que respeitar”, diz ela. Quanto à religião ela diz que, além de sempre existir, ela vem aumentando. “Se procura pela saúde, pelo emprego, não é só para maldade, como muitas pessoas pensam”, constata. Dessa tem clientes de todos os lugares. “Esses dias ligaram de Florianópolis para comprar um tambor”, diz ela, completando que o Mercado é conhecido no mundo inteiro.

 

O Mercado, de geração para geração

Quando ela começou lembra que o número de mulheres não era como hoje, mas já era expressivo, a maioria trabalhando como caixas e cozinheiras. Vem deste tempo o imenso carinho que ela tem pelo Mercado. “Adoro. Se olhar durante a semana toda, todos os dias, está sempre lotado de gente. As pessoas adoram o Mercado”, diz. Tanto tempo convivendo com ele, Dessa é uma testemunha viva da famosa tradição do Mercado, de passar o hábito de freqüentá-lo de pai para filho. Ela já perdeu a conta de quantos casais conheceu que visitavam o Mercado quando os filhos eram pequenos e foram crescendo, tornando-se adultos hoje. Muitos ainda na barriga de suas mães. Lembra especialmente de um que tinha uma menina de colo, Mariana, que hoje “já é uma moça”, como ela diz.

 

A Madrinha do Mercado, querida por todos

Ela tem uma relação muito grande com o Mercado, principalmente, com os seus funcionários, mesmo com aqueles que já não trabalham mais com ela. Emociona-se muito quando fala do assunto. “Chego aqui, todos eles me dão beijo, aqui a gente é uma família, não existe patrão e empregado. E também tem muito carinho entre eles, se ajudam. É bom trabalhar assim, adoro eles, eles sabem disso”. E este carinho vai além da sua banca: “Onde eu ando aqui dentro deste Mercado, me chamam de Madrinha, até os clientes. Quando eu estive doente os clientes acenderam vela, rezaram e perguntavam por mim”, diz ela contente. Por isto trabalha até hoje, sempre no caixa, onde é logo reconhecida, principalmente pelos clientes. “A gente conquista, cativa as pessoas, tem que ter mercadoria, preço, bom atendimento. Sou feliz aqui, me dou bem com meus clientes, funcionários, tenho muitos amigos no Mercado, essas gurizada toda gosta de mim, vem aqui, me cumprimentam, me chamam de madrinha”. E as filhas também gostam da banca e do Mercado. “Espero que meus netos também”, diz a madrinha que faz questão de mostrar sua gratidão ao Brasil e ao Rio Grande onde, como ela diz, aprendeu muita coisa humana. E com certeza, muito aprendemos com ela também.

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