Depoimentos de escritores revelam singularidades do Mercado Público

Símbolo significativo da cidade, o Mercado Público de Porto Alegre desperta lembranças peculiares entre seus freqüentadores, quer sejam eles os trabalhadores que circulam diariamente pelo Centro Histórico ou os intelectuais da Capital do Estado, que imbuem este prédio histórico, o qual completa 140 anos em 2009, de enfoques diferenciados, porém repletos de uma afetividade nostálgica. Os testemunhos de escritores gaúchos dos séculos XIX e XX consistem em uma verdadeira aula de História, pois ao mesmo tempo em que trazem à tona as memórias individuais destes personagens, expõe os múltiplos aspectos deste prédio histórico que, além de consistir em um ambiente voltado ao comércio, sempre propiciou a socialização dos porto-alegrenses.

Em recente visita ao Centro Cultural CEEE Erico Veríssimo (CCCEV), o historiador Sérgio da Costa Franco, exemplo de habitué que testemunhou a transformação da cidade ao longo das décadas, pulsante no Centro Histórico de Porto Alegre, enalteceu o Mercado Público – do qual se confessa um fã de carteirinha. “Ele sempre esteve muito presente em minha vida, desde os tempos em que o Mercado permanecia aberto durante a noite e as pessoas se encontravam para festejar. Conheci o Mercado Público de Porto Alegre ainda menino, em 1936. Morava na Marechal Floriano e, devido à proximidade, realizava minhas compras ali”, recorda Franco, para quem as reformas pelas quais o prédio passou, a exemplo da última restauração, datada de 1997, foram de grande importância.

“Lembro-me do tempo em que ainda existiam árvores no centro do Mercado Público. Depois, elas foram cortadas e os estabelecimentos comerciais (bancas) foram instalados. A reforma realizada há 12 anos, a qual incluiu a construção da parte superior – que fora muito valorizada – e de escadas rolantes, foi fundamental, pois atendeu totalmente aos requisitos de modernização”, acrescenta. Franco, no entanto, considera que a edificação carece de melhores acessos aos veículos, com locais seguros para estacionamento. “Isto contribuiria bastante para o retorno do hábito noturno por parte dos freqüentadores”, sugere o historiador.

 

O quotidiano e a boemia de outrora

De autoria da estudante Fernanda Severo, a dissertação O Mercado de Porto Alegre: entre a Cidade Real e as Cidades Ideais, do curso de pós-graduação em História do Brasil da PUC-RS, apresenta uma série de depoimentos sobre o Mercado Público, a exemplo do publicado originalmente no jornal Folha da Tarde, em maio de 1969, pelo jornalista Ademar de Freitas. Na matéria, Freitas descrevia um dia típico do prédio e fazia referências sobre a boemia que rondava o local. “Às seis da manhã, o sol, a verdura, os empregados e a pressa começam a chegar ao Mercado Público (…) Os ônibus vão despejando gente com cara de sono. É hora de trabalhar. A luz do dia vai espantando os que vivem na noite (…). Às sete da tarde, o sol, os empregados, o movimento e a pressa começam a deixar o Mercado Público (…). É a essa hora que as prostitutas, os operários, os bêbados e os vagabundos começam a chegar para viver o seu mundo na volta do Mercado. O anoitecer na volta do Mercado é uma espécie de ritual. Quem se mete lá é porque quer viver a noite à sua maneira, sem compromisso. Mesmo que essa maneira seja triste, que o ambiente seja sujo e o riso saia sem graça”.

 

Na obra Os Viajantes Olham Porto Alegre: 1754-1890, de autoria de Valter Antônio Noal Filho e Sérgio da Costa Franco, há testemunhos de estrangeiros que passaram por Porto Alegre e registraram suas impressões sobre a cidade, a exemplo da visão animada do jornalista alemão Wilhelm Breitenbach, que veio a Porto Alegre no final do século XIX. “O estabelecimento é um tanto diferente, mas muito prático. É uma enorme construção quadrilateral, uma seqüência de pequenas lojas unidas entre si e com um grande pátio interno, para circulação, onde estão botequins para marinheiros, instalações de alemães que servem cerveja, açougues, pequenos matadouros, funilarias, produtos manufaturados, cigarrarias e tabacarias: em suma, tudo o que se possa imaginar”.

A variedade de estabelecimentos do Mercado também é mencionada na obra História Popular de Porto Alegre, do escritor Achylles Porto Alegre (1848-1926), que faz referência ao comércio de ervas medicinais, em voga no ano de 1880, e que estava a cargo de um estranho português conhecido pela alcunha de José dos Alhos. “Era dado a engrimanços e feitiços e chegou mesmo a convencer alguns vendeiros e açougueiros da existência de um tesouro oculto em um dos morros dos arrabaldes da cidade. Todas as sextas-feiras, à hora da meia-noite, o José dos Alhos partia com alguns camaradas à descoberta do tesouro encantado”, descrevia Achylles.

Equipe do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo (CCCEV)

Pesquisa histórica: Mariana Froner Bicca, bacharel em História pela PUC-RS

Texto: Carla Damasceno – jornalista, MTb 10882

Colaboração: estagiários Augusta Amengual e Diego Derman

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