Ruy Carlos Ostermann

Prosseguindo a série de depoimentos ilustres, o Jornal do Mercado publica nesta edição o exuberante testemunho de Ruy Carlos Ostermann, um dos grandes cronistas da cidade. Delicie-se.

 

Nós, e o Mercado- Ruy Carlos Ostermann

O que sempre mais gostei no nosso Mercado foi, antes de saber como ele se esconde e se mostra, o cheiro, o voluptuoso cheiro que vinha de dentro dele pelos portões e pelo telhado e invadia a Borges, parte da Praça Quinze e se espalhava na direção do Guaíba contaminando cheirosamente pela Júlio. O cheiro, os cheiros, todos os cheiros sem que se pudesse imaginar de onde vinham ou se eram a luxuriosa síntese de muitas fontes abertas ou entreabertas no ventre úmido do Mercado. Depois foram as descobertas pessoais, a modesta investigação de um adolescente maravilhado com a cidade, as gentes, as mulheres especialmente, tão lindas, de sapato alto, chapéu redondo, olhos azuis e os sorrisos sem destinatário, evasivas e flutuantes mulheres dos caminhos irregulares de caixotes, sacos de aniagem abertos em dobras de sementes expostas, era o Mercado como uma ligeira alucinação. Mas os cheiros ainda predominavam e agora vinham de muitos lugares, alguns mais densos, outros quase evanescentes, havia também os mal-cheirosos, de frutas apodrecidas, carnes, embutidos, abandonados nos cantos, esmigalhados nas pedras. Cheiros, muitos cheiros. E enfim, a sorveteria da Banca 40, os queijos do Holandês, as especiarias cheirosas do Claudião da 43, as fruteiras adocicadas, as floreiras, e por fim as peixarias dominantes, impetuosas filas de tainhas, papa-terras, badejos, camarões de todos os tamanhos e perfumes, o fim de uma caminhada sem deslizes, mas quase aos empurrões do sábado de manhã. A comida com outros cheiros bem civilizados pelo cozimento, os temperos, o sal e os óleos, veio depois, logo que o Mercado tomou uma forma e definiu a nossa sobrevivência, e todos decidiram prolongar a visitação e sorvê-la com um dedo de cachaça e muitos chopes que a máquina italiana do Gambrinus, já faz algum tempo, soube dar dignidade ao colarinho e a temperatura. Foi por essa época, também, que apareceram os vinhos tintos e os espumantes nas prateleiras, reforçado pelos Gabardos, a dois passos dali, até com bebidas exóticas para o gosto corriqueiro, como o absinto. Sou do tempo do Treviso, que acolhia artistas, músicos e intelectuais de todos os gêneros, até que terminasse a noite com suas portas abertas para a Borges, a canja rejuvenescedora do último suspiro boêmio. Sentava-se em mesa discreta, pequena, de canto, porque as principais tinham gente graúda, bem-falante e não era demais que começassem a cantar, como certa vez (me contam) Francisco Alves atravessou a madrugada, melancólico e saudoso do Rio. De tudo aquilo, a sensibilidade do Antoninho transformou na cadeira pousada na parede, a mais simples e verdadeira homenagem ao maravilhoso cantor da Rádio Nacional. Hoje é outro telhado, novas paredes e espaços, ainda os cheiros, mas não mais os sacos e as mesinhas de ofertas. Tem mais luz e ventilação, até escada rolante e miradouros do andar de cima, já não somos os jovens daquele tempo, mas, suspeito, não mudamos nada. Nós, e o Mercado Público.

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